{"id":117,"date":"2025-01-03T23:45:57","date_gmt":"2025-01-03T23:45:57","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=117"},"modified":"2025-12-22T23:46:44","modified_gmt":"2025-12-22T23:46:44","slug":"sermos-paisagem-uns-dos-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=117","title":{"rendered":"Sermos Paisagem Uns dos Outros"},"content":{"rendered":"\n<p>O que mais me entusiasma na produ\u00e7\u00e3o de pensamento \u00e9 a descoberta de novas formas de olhar a vida. E sendo a vida rodeada de pessoas, como olhar de forma critica para quem nos rodeia?<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de pensar de que somos v\u00edtimas de uma certa biologia que nos afeta a todos. Quando passamos diariamente por um s\u00edtio, transformamo-nos, instantaneamente, nuns incompetentes para criticar esses s\u00edtios. Perdemos esse olhar de curiosidade que ainda mantemos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s paisagens que nos s\u00e3o novas. Por esses recantos familiares, j\u00e1 n\u00e3o conseguiremos descobrir pormenores, falhas, feitios e outras quicadas. Tudo se mesclou numa s\u00f3 paisagem, chata e sem pormenores de interesse a salientar. Estamos habituados a essa paisagem e j\u00e1 fazemos parte dela. Se queremos mudar, temos de pedir ajuda. Temos de pedir emprestado um outro olhar. Ou ent\u00e3o, fazermos n\u00f3s o esfor\u00e7o de olhar com redobrada aten\u00e7\u00e3o e disp\u00eandio de tempo (que n\u00e3o temos).<\/p>\n\n\n\n<p>Essas paisagens a que nos habituamos, moldam-nos. Influenciam-nos de tal maneira que deixamos de perceber onde come\u00e7amos n\u00f3s e acaba a paisagem, humana, bem-dito seja. Eu, j\u00e1 h\u00e1 muito tempo que aceitei que sou influenciado pelas pessoas \u00e0 minha volta. J\u00e1 desisti de o negar. Principalmente, depois de ver tanto dessas pessoas, dessa paisagem, em mim. E, quando nos apercebemos dessa marca deixada, j\u00e1 \u00e9 tarde. J\u00e1 se tornou h\u00e1bito. Feitio. Personalidade. J\u00e1 nem conseguimos provar que aquilo que agora os outros veem em n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 nosso. Nunca foi nosso, que foi adquirido &#8220;sem querer&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Aqueles que passam por n\u00f3s n\u00e3o v\u00e3o s\u00f3s. Deixam um pouco de si, levam um pouco de n\u00f3s.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Antoine de Saint-Exupery<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como humanista, ainda bem que assim \u00e9.<strong>&nbsp;Somos paisagem uns dos outros<\/strong>. Uma maravilhosa condi\u00e7\u00e3o desta humanidade. Mas ent\u00e3o como fazer para estar vigilante?! Para que n\u00e3o entre em mim aquilo que n\u00e3o quero que me mude para pior. Se por um lado o que me fortalece e engrandece \u00e9 bem-vindo, por outro, a mediocridade que paira como um abutre, j\u00e1 n\u00e3o a quero misturar com o que s\u00e3o os meus princ\u00edpios e valores. Mas, depois do mal feito, feito est\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de pensar que&nbsp;<strong>podemos prevenir<\/strong>&nbsp;agora em vez de curar mais tarde. Ter a necessidade de curar, significa que o mal j\u00e1 est\u00e1 feito. Torna-se depois um caminho mais longo e pouco seguro. Prevenir, j\u00e1 me entusiasma mais. Encontrar formas de evitar que fiquemos &#8220;pior&#8221; por cont\u00e1gio com os outros. A tal paisagem que nos engole. Prevenir \u00e9 a oportunidade de vivermos mais despreocupados. Mais soltos. Mais leves. Se sabemos que estamos a prevenir o colesterol com exerc\u00edcio f\u00edsico regular, o entupimento das veias passa a n\u00e3o ser um tema que nos assombre. Gosto de pensar que prevenindo, acabo por libertar mais espa\u00e7o no meu c\u00e9rebro, aquele espa\u00e7o dedicado \u00e0s ansiedades, para me preocupar com outras coisas, qui\u00e7\u00e1, mais importantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste caso, prevenir, \u00e9 estar atento \u00e0 paisagem humana que nos rodeia e, se for preciso, ter a coragem de a trocar\u2026 as vezes que forem precisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem, de entre n\u00f3s, est\u00e1 mais fragilmente exposto \u00e0 paisagem humana?&nbsp;<strong>As crian\u00e7as<\/strong>, claro! E n\u00f3s, pais, encabe\u00e7amos essa lista de import\u00e2ncia nas suas vidas. Estou a falar do nosso exemplo perante os nossos filhos. De sermos a sua&nbsp;<strong>Primeira paisagem<\/strong>. Somos de facto a sua mais importante e constante paisagem.&nbsp;<strong>Somos os seus primeiros&nbsp;<em>influencers<\/em><\/strong>&nbsp;e eles os nossos mais fervorosos seguidores. Ocupamos esse papel de destaque nas suas vidas e devemos querer honrar o palco que temos \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, por essa via. A responsabilidade \u00e9 muita, pela simples raz\u00e3o de termos a oportunidade de falar e eles de nos ouvirem, e sempre em&nbsp;<em>prime time<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo que gosto de dar, mas que promove o div\u00f3rcio\u2026 vou ser excomungado! Se o casal j\u00e1 tentou de tudo para se dar bem e mesmo assim n\u00e3o consegue manter uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, o que os filhos est\u00e3o a aprender \u00e9 at\u00e9 muito simples. &#8220;O amor \u00e9\u2026&#8221;: discutir a toda a hora; aus\u00eancia de carinho; aus\u00eancia de palavras de afeto e de encorajamento; n\u00e3o cuidar do outro quando este est\u00e1 fr\u00e1gil; n\u00e3o querer o melhor para o outro; etc\u2026 At\u00e9 podem contestar-me, mas nestas duas coisas penso que n\u00e3o: Que \u00e9 isto que est\u00e1 a acontecer e que est\u00e3o a ensinar o que o amor \u00e9 e que eles v\u00e3o levar para as suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s n\u00e3o nos podemos subtrair \u00e0s suas vidas. N\u00e3o \u00e9 um lugar de onde nos possamos demitir. Mas fa\u00e7am as vossas contas: N\u00e3o s\u00e3o assim tantas as horas que passamos com eles. Eles tamb\u00e9m t\u00eam vida pr\u00f3pria\u2026 e ainda bem. Dizem que, eles s\u00f3 precisam de meia hora di\u00e1ria do nosso tempo e da nossa aten\u00e7\u00e3o. A partir disto, estamos &#8220;despedidos&#8221;, e v\u00e3o \u00e0s suas vidas. \u00c9 preciso relaxar e assumir esta posi\u00e7\u00e3o privilegiada de responsabilidade, assumindo a minha&nbsp;<strong>segunda regra de preven\u00e7\u00e3o<\/strong>, na parentalidade. Se eu entrar em modo de&nbsp;<strong>querer saber mais para acertar mais<\/strong>, nenhum erro (que vou cometer na mesma) me assombra, porque estou a tentar o meu melhor. E isso d\u00e1-me um poder enorme como ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos mesmo de querer ser uma boa influ\u00eancia para os nossos filhos, mas, ao mesmo tempo, encontrar estrat\u00e9gias para que isso n\u00e3o nos esmague, ao ponto da ina\u00e7\u00e3o total. Ainda assim \u00e9 mais f\u00e1cil prepar\u00e1-los para o seu caminho, do que preparar o caminho para eles (como parece ser a vontade actual da maioria dos Pais). Nesta segunda escolha, al\u00e9m de ser uma miss\u00e3o quase imposs\u00edvel, n\u00e3o os prepara para a vida adulta. Sabemos que eles t\u00eam a &#8220;c\u00e2mara de vigil\u00e2ncia&#8221; sempre ligada, mas at\u00e9 os nossos erros lhes s\u00e3o \u00fateis.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso leva-me a pensar que existem outras paisagens humanas tamb\u00e9m muito importantes. E para essas, at\u00e9 porque raramente estou presente, tenho de conseguir tirar algumas conclus\u00f5es e de agir sobre elas, se for preciso. Mas em que sentido? Por exemplo, se essas outras paisagens se alinham com os meus valores e princ\u00edpios. Com a minha forma de estar e com a forma de estar que a minha fam\u00edlia quer seguir. Se desta reflex\u00e3o resultarem inquieta\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o devo promover a mudan\u00e7a. N\u00e3o, no sentido de mudar essas pessoas ou institui\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o a tal paisagem, mas que levariam a discuss\u00f5es sem fim \u00e0 vista, mas mudarmos n\u00f3s para outros lugares que se adequem melhor ao que queremos para os nossos filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Raramente os outros s\u00e3o iguais a n\u00f3s e por isso, uma escola que servir\u00e1 a uma fam\u00edlia n\u00e3o servir\u00e1 a outra. O mesmo com as actividades desportivas, art\u00edsticas ou de outra natureza, que s\u00e3o as mais importantes logo a seguir \u00e0 escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, n\u00e3o queria deixar de ainda mencionar uma outra paisagem, tamb\u00e9m ela muito importante:&nbsp;<strong>As fam\u00edlias amigas que visitamos e que nos visitam<\/strong>. Neste caso estamos presentes, mas n\u00e3o deixa de ser extremamente dif\u00edcil de intervir com coragem e determina\u00e7\u00e3o. Se, em qualquer momento, encontrarem raz\u00f5es para ficarem desconfort\u00e1veis com alguma conversa, atitude ou gesto que n\u00e3o cole com aquilo que s\u00e3o os vossos valores, mudem de paisagem. E aqui, como \u00e9 \u00f3bvio, \u00e9 ter a coragem de deixarem de visitar esses amigos e de reduzirem as vezes que os convidam para vossa casa.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 me fica bem sugerir que tentem falar com esses pais (amigos) e os chamem \u00e0 &#8220;raz\u00e3o&#8221;. Que tentem provocar uma discuss\u00e3o saud\u00e1vel sobre o tema. Mas todos sabemos que esses s\u00e3o assuntos tabu e que mesmo que a conversa aconte\u00e7a, de forma saud\u00e1vel, as mudan\u00e7as tardam a acontecer ou nunca se operam de todo. Mas deixo aqui um voto de coragem para as in\u00fameras tentativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas que conv\u00e9m que aconte\u00e7a, independentemente do cen\u00e1rio que escolherem, \u00e9 a&nbsp;<strong>conversa com os vossos filhos<\/strong>&nbsp;sobre esse &#8220;algo&#8221; que aconteceu, que eles presenciaram e que n\u00e3o \u00e9 do vosso agrado. Se nada for dito, os nossos filhos ficam com a ideia de que aquilo a que assistiram \u00e9 normal. Que \u00e9 aceite pelos seus pais. Que s\u00f3 n\u00e3o lhes acontece por uma quest\u00e3o de sorte ou, ent\u00e3o, que ainda n\u00e3o aconteceu, mas que \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que aconte\u00e7a. Ora, isto \u00e9 educar pelo sil\u00eancio. E isso \u00e9 que n\u00e3o conv\u00e9m nada promover. Falem sobre o que aconteceu e v\u00e3o, com tempo, acabando com estas paisagens que teimam em repetir a forma &#8220;errada&#8221; de estar e que tanto influenciam os vossos filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 n\u00f3s temos esse poder. N\u00e3o o podemos delegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que mais me entusiasma na produ\u00e7\u00e3o de pensamento \u00e9 a descoberta de novas formas de olhar a vida. E sendo a vida rodeada de pessoas, como olhar de forma critica para quem nos rodeia? Gosto de pensar de que somos v\u00edtimas de uma certa biologia que nos afeta a todos. 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