{"id":123,"date":"2025-02-14T00:10:55","date_gmt":"2025-02-14T00:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=123"},"modified":"2025-12-23T00:25:21","modified_gmt":"2025-12-23T00:25:21","slug":"sobre-a-intimidade-e-o-erotismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=123","title":{"rendered":"Sobre a Intimidade e o Erotismo"},"content":{"rendered":"\n<p>O amor, entre os humanos, transmutou-se constantemente ao longo dos tempos. Ou ser\u00e1 que n\u00e3o?! Ou ser\u00e1\u2026 que o que foi mudando foi o maior ou menor peso de alguns dos seus ingredientes?<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, teremos muito mais romantismo e muito mais ternura no seio das rela\u00e7\u00f5es amorosas. Teremos muito mais aten\u00e7\u00e3o um pelo outro. Teremos muito mais, quem sabe se um dia ficar\u00e1 provado, um amor que se tornou num mecanismo de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me sai da cabe\u00e7a o facto de termos colocado tanta press\u00e3o na import\u00e2ncia do amor e da paix\u00e3o nas nossas vidas, que virou um factor de frustra\u00e7\u00e3o. Uma frustra\u00e7\u00e3o que nos assola, quando, j\u00e1 numa certa idade, ainda n\u00e3o encontr\u00e1mos uma rela\u00e7\u00e3o de amor correspondida. Ou at\u00e9, quando voltamos a ficar &#8220;sozinhos&#8221; por um valente desamor. O amor n\u00e3o deveria ser uma espera. N\u00e3o deveria ser uma busca. O amor deveria ser, simplesmente, um acontecimento. E o que nos restaria fazer, era trabalharmos em n\u00f3s mesmos, humanamente, mantendo-nos interessantes para os outros. Um florescimento de dentro para fora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abMas o amor \u00e9 tudo\u00bb, dir\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos cada vez mais narcisistas. E isto tem levado a que a fun\u00e7\u00e3o que queremos que o amor desempenhe nas nossas vidas seja injusta para o pr\u00f3prio amor. E ou\u00e7o muitas pessoas verbalizarem que est\u00e3o satisfeitas com os seus parceiros de cora\u00e7\u00e3o porque estes as valorizam. Ora, isto empurra o amor para uma fun\u00e7\u00e3o servi\u00e7al de uma certa rela\u00e7\u00e3o de \u00eddolo-seguidor. O amor, imaginando-o uma divindade, prefere muito mais, admito eu, ser considerado um sentimento que inspira cada um dos protagonistas a acrescentarem-se mutuamente, numa f\u00f3rmula matem\u00e1tica do g\u00e9nero, 2+2=7. Eu quererei a meu lado quem contribua para eu me tornar melhor, maior, mais feliz, uma melhor vers\u00e3o de mim, entre outras coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa rela\u00e7\u00e3o dita saud\u00e1vel, quem \u00e9 que n\u00e3o quer um amor para a vida? Mas o truque n\u00e3o estar\u00e1 em manter o&nbsp;<strong>nosso interesse por aquela pessoa<\/strong>&nbsp;durante uma vida, mas sim o oposto. Pensar que fizemos alguma coisa de extraordin\u00e1rio, s\u00f3 por termos venerado aquela pessoa uma vida inteira, \u00e9 um engano. \u00c9 viver \u00e0 beira de uma ravina. \u00c9 que este tamb\u00e9m \u00e9 o lugar onde muitas das vezes existimos apenas para procurar o erro e o defeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se pelo contr\u00e1rio, procurarmos manter o interesse daquela pessoa em n\u00f3s, teremos for\u00e7osamente de encontrar caminhos para nos tornarmos ou mantermos interessantes. E isso sim, cont\u00e9m o Santo Graal das rela\u00e7\u00f5es. \u00c9 de facto a diferen\u00e7a entre as palavras&nbsp;<strong>inspirar<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>inspirar-se<\/strong>. Quando me inspiro nos outros esgoto-me no modo de consumidor. Mas \u00e9 quando quero inspirar os outros, que fa\u00e7o de tudo para, primeiro inspirar-me, o que leva tamb\u00e9m ao consumo de tudo o que me rodeia, mas obriga-me a transformar, de forma inventiva, tudo o que aterra em mim para que o ofere\u00e7a ao outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspirar os outros \u00e9 de uma responsabilidade enorme. Sejam os nossos filhos, seja o\/a nosso\/a parceiro\/a, seja no trabalho por sermos l\u00edderes de equipas, seja a sociedade em geral quando observa o nosso comportamento. E \u00e9 nessa responsabilidade que nos achamos a tentar dar o nosso melhor. Podemos sim, erguer a ta\u00e7a quando ao fim de 50 anos de um relacionamento, aquela pessoa, que sempre foi livre para se ir embora, manteve-se ao nosso lado. E n\u00e3o da mesma maneira, pois esse \u00e9 um erro de julgamento que pode custar caro \u00e0 rela\u00e7\u00e3o, mas nas suas m\u00faltiplas transforma\u00e7\u00f5es, naturalmente adequadas ao envelhecimento (no caso da idade) e \u00e0 maturidade (no caso do pr\u00f3prio relacionamento).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n\n\n\n<p>Nas dadas m\u00faltiplas formas de amor, o \u00e2ngulo que mais me interessa \u00e9 a tentativa de encontrar algumas universalidades. Ou seja, os tais ingredientes que, imagine-se, n\u00e3o estando presentes, j\u00e1 n\u00e3o estaremos a falar de amor, mas sim de uma outra coisa qualquer que os tempos modernos decidiram redenominar. E encontro uma certa miss\u00e3o nesta persegui\u00e7\u00e3o: imaginem que consigo elencar uns 3 ou 4 ingredientes, aceites por todos. A minha demanda de educador tornar-se-ia super-facilitada. \u00abOlha, filha, isso que tu dizes que ele sente por ti, n\u00e3o \u00e9 amor. Tenho pena, mas falta-lhe isto, isto e isto\u2026\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m desta vantagem, tamb\u00e9m daria dicas \u00e0s pessoas sobre como l\u00e1 chegar, dando-se o caso de lhes faltar algum destes ingredientes, \u00abfalta-me isto, eu sei, mas vou aprender\u00bb. Na verdade, nascemos com tudo o que precisamos para sentir tudo o que existe. O que nos aconteceu ent\u00e3o? Aconteceu-nos a vida, vivida. Desde que nascemos, fomos colecionando percep\u00e7\u00f5es que transform\u00e1mos em obst\u00e1culos que usamos para impedir que sejamos plenos naquilo que sentimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Temo que nunca l\u00e1 chegue, nessa defini\u00e7\u00e3o dos ingredientes chave, mas h\u00e1 um deles que me mant\u00e9m fascinado por este tema.&nbsp;<strong>A intimidade<\/strong>. Algo que se apresenta transversal n\u00e3o apenas ao amor, mas a outros sentimentos, como o da amizade. Com contornos diferenciados, mas no amor, a intimidade ocupa um lugar de destaque. E tememos, como num estalar de dedos, por uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a tenha presente. E n\u00e3o estou a falar da intimidade estar ausente temporariamente da rela\u00e7\u00e3o. Estou a falar de uma vari\u00e1vel que n\u00e3o est\u00e1 presente na f\u00f3rmula de um determinado casal. \u00c9 que o amor precisa do sussurro, da comunica\u00e7\u00e3o sem se dizer uma palavra, da imediata resposta ao que o outro precisa, mesmo que ainda n\u00e3o se tenha dado conta.&nbsp;<strong>A intimidade \u00e9 o filtro que tira o ru\u00eddo \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando se fala de amor, queremos mais do que simplesmente nos sentirmos muito pr\u00f3ximos do outro. Queremos mais porque a vida nos diz que quer ser vivida intensamente. E a intensidade no amor \u00e9 patrocinada pelo&nbsp;<strong>erotismo<\/strong>. Por exemplo, e fugindo ao erotismo \u00f3bvio, um sentido de humor apurado, oportuno e elegante, faz muito por esse carrossel de emo\u00e7\u00f5es que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o acima do interessante. Uma dan\u00e7a a dois, calma e intencional, faz muito por este lado picante da rela\u00e7\u00e3o. Se estivermos bem como casal, isso nota-se no Lar e os nossos filhos s\u00e3o (tamb\u00e9m) os maiores beneficiados.<\/p>\n\n\n\n<p>O Lar, esse espa\u00e7o onde uma fam\u00edlia vive, constru\u00edda de coisas materiais e imateriais, \u00e9, na realidade,&nbsp;<strong>uma arena muito apertadinha<\/strong>, quando comparada com o mundo l\u00e1 fora. E essa proximidade, ao mesmo tempo imposta e desejada, torna-se na maior d\u00e1diva e no maior desafio. Com o tempo, as pessoas que fazem parte de um Lar, vibram numa frequ\u00eancia que mais ningu\u00e9m entende e isso, temo que, tamb\u00e9m n\u00e3o contribua para uma defini\u00e7\u00e3o assertiva de intimidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 por isso, mas n\u00e3o s\u00f3, que quando os filhos que &#8220;chegam de fora&#8221;, para mais uma semana nestas fam\u00edlias tentaculares (com filhos de outras rela\u00e7\u00f5es e com filhos j\u00e1 pr\u00f3prios. Numa frase: Os meus | os teus | e os nossos) s\u00e3o testados para al\u00e9m do imagin\u00e1vel sobre conseguirem sentir-se \u00edntimos no seio desta fam\u00edlia. Para o filho &#8220;intermitente&#8221;, o desafio \u00e9 enorme e os \u00fanicos b\u00e1lsamos s\u00e3o a toler\u00e2ncia e muito amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o que l\u00e1 se passa, na semana em que este filho est\u00e1 ausente, \u00e9 um aprofundamento dessa intimidade. \u00c9 que essa intimidade n\u00e3o p\u00e1ra de crescer para os que nunca deixam de l\u00e1 viver. E a emo\u00e7\u00e3o que esse filho periga ter \u00e9 a de desamor. A de ostraciza\u00e7\u00e3o e de n\u00e3o sintonia. Facilmente este filho migrante se v\u00ea a abra\u00e7ar o isolamento e a criar uma hist\u00f3ria, s\u00f3 sua, ao n\u00edvel dos afectos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltando \u00e0 tal arena apertadinha. \u00c9 l\u00e1, nesse caldeir\u00e3o de intimidade que notamos uma coisa muito bizarra. No meio daqueles cheiros todos de um Lar reconhecido, encontramos os mais detest\u00e1veis de entre todos, como o do chul\u00e9, o do sovaco, o da flatul\u00eancia, que s\u00f3 neste enquadramento aceitamos. Uma coisa incr\u00edvel! \u00c9 que, assim que assisto, fora do Lar, a essas mesmas manifesta\u00e7\u00f5es, torno-me intolerante.<\/p>\n\n\n\n<p>O lar \u00e9 esta arena que tudo liga e que tudo interpreta e acomoda. Arrisco-me a dizer que o nosso Lar cria uma certa frequ\u00eancia de vibra\u00e7\u00e3o que nos &#8220;fala&#8221; ao corpo, de uma forma avassaladora, inquestion\u00e1vel e incompreens\u00edvel, que se aproxima do que ser\u00e1 a presen\u00e7a do Divino em n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Arrisco dizer, que o Lar \u00e9 a maior aproxima\u00e7\u00e3o que alguma vez teremos, de uma viv\u00eancia do divino com os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amor, entre os humanos, transmutou-se constantemente ao longo dos tempos. Ou ser\u00e1 que n\u00e3o?! Ou ser\u00e1\u2026 que o que foi mudando foi o maior ou menor peso de alguns dos seus ingredientes? Hoje, teremos muito mais romantismo e muito mais ternura no seio das rela\u00e7\u00f5es amorosas. Teremos muito mais aten\u00e7\u00e3o um pelo outro. 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