{"id":127,"date":"2025-03-21T00:12:27","date_gmt":"2025-03-21T00:12:27","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=127"},"modified":"2025-12-23T00:25:48","modified_gmt":"2025-12-23T00:25:48","slug":"travar-a-fundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=127","title":{"rendered":"Travar a fundo"},"content":{"rendered":"\n<p>Sei de muitas mentes brilhantes que se perderam a discutir acerca do ovo e da galinha, e de quem \u00e9 que apareceu primeiro. Perderei a minha vida tamb\u00e9m, mas em algo muito mais interessante: o de virar do avesso, repetidas vezes, a anatomia do amor. Essa compreens\u00e3o, que uma vez descoberta talvez me salve. Que nos salve, que eu n\u00e3o sou ego\u00edsta. Mesmo que n\u00e3o nos salve por completo, talvez nos ilumine o caminho para nos entendermos. Afinal, e sintetizando \u00e0 \u00ednfima part\u00edcula, somos apenas amor, o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Mas tamb\u00e9m somos a aus\u00eancia dele. Mas n\u00e3o seremos muito mais do que isto, por mais que nos esforcemos. Temo que a discuss\u00e3o, t\u00e3o antiga, entre c\u00e9u e inferno, se explique afinal pela exist\u00eancia destes dois seres humanos: os que S\u00e3o amor e os que S\u00e3o aus\u00eancia dele. Est\u00e1 fechado, boa noite e at\u00e9 amanh\u00e3\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que algo t\u00e3o importante nunca poderia caber num s\u00f3 par\u00e1grafo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o amor \u00e9 est\u00e1tico. E \u00e9 preciso dar-lhe movimento para fazer sentido e ser prazeroso. O amor executa-se atrav\u00e9s dos&nbsp;<strong>relacionamentos<\/strong>. Na verdade, viver a vida confunde-se com a palavra relacionamento. Tudo s\u00e3o relacionamentos. Relacionamo-nos com o planeta. Com os outros. Com os animais. Com a paisagem. Relacionamo-nos connosco, com o nosso passado. Relacionamo-nos com o que pensamos ser o nosso futuro, com os nossos sonhos e desejos. E o N\u00f3 que cresce no flu\u00eddo de cada um desses relacionamentos, \u00e9 o que sentimos como um problema por resolver. E l\u00e1 vem o nosso terapeuta dizer que temos um problema com o dinheiro, ou com a rejei\u00e7\u00e3o ou com outra coisa qualquer. Um inferno!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que eu falei foi do meu interesse na&nbsp;<strong>anatomia do amor<\/strong>. Esse que sendo t\u00e3o poderoso e transversal revela, ao mesmo tempo, que a aus\u00eancia dele \u00e9 terr\u00edvel e um exemplo demonstrativo das piores paisagens a que a humanidade j\u00e1 assistiu. Uma dan\u00e7a perigosa entre o poder (o Amor) e a responsabilidade de o usar (os relacionamentos). Claro que o amor alberga v\u00e1rias viv\u00eancias, mas \u00e9 universal e algo pass\u00edvel de ser sentido por todo o ser humano. Eu cresci e fui educado para um amor rom\u00e2ntico. N\u00e3o que tenha sido uma boa coisa, antes pelo contr\u00e1rio. Quando se diz a uma crian\u00e7a que a palavra amor s\u00f3 pode ser usada num contexto de rela\u00e7\u00f5es amorosas, o seu universo de sentimentos desenvolve-se aqu\u00e9m de tudo o que podemos usufruir nos relacionamentos. E foi o que me aconteceu. S\u00f3 muito mais tarde percebi que no amor cabiam muitos mais e diferenciados relacionamentos, a come\u00e7ar pelo que descobri e nutri pela minha primeira filha.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<strong>amor rom\u00e2ntico<\/strong>&nbsp;\u00e9 o mais engra\u00e7ado e o mais cantado na hist\u00f3ria recente da humanidade. Um amor descoberto h\u00e1 cerca de 300 anos, quando a sociedade finalmente evoluiu e &#8220;permitiu&#8221; que as pessoas se escolhessem por crit\u00e9rios de&nbsp;<strong>atra\u00e7\u00e3o<\/strong>&nbsp;(ou altera\u00e7\u00e3o) f\u00edsica. Um cora\u00e7\u00e3o que agora palpitava mais forte. Um rosto que ruborescia. Abandonou-se aos poucos a primazia dos relacionamentos por interesse, fossem eles quais fossem. Poder, seguran\u00e7a, gen\u00e9tica, sobreviv\u00eancia, entre outros. Mas \u00e9 um amor que n\u00e3o se pode descurar pois encerra em si o pin\u00e1culo do exemplo de poder. Quando se ama desta forma, entregamos ao outro o poder sobre o nosso bem-estar. O nosso cora\u00e7\u00e3o fica tomado. E esperamos que o outro fa\u00e7a bom uso desse poder que agora tem sobre n\u00f3s. Estamos vulner\u00e1veis. E \u00e9 por isso que \u00e9 mais importante desejar uma pessoa \u00edntegra do que um &#8220;Ad\u00f3nis&#8221;. Mas todos sabemos que n\u00e3o funcionamos assim. Somos mais complexos do que isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do seu poder quase absoluto, este n\u00e3o deixa de ser um&nbsp;<strong>amor condicional<\/strong>. Ou seja, existe \u00e0 condi\u00e7\u00e3o. \u00c0 condi\u00e7\u00e3o de sermos bem tratados, por exemplo. De nos sentirmos bem nessa rela\u00e7\u00e3o amorosa. Na verdade, o amor rom\u00e2ntico s\u00f3 dura enquanto uma ou v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es persistirem. Diria, enquanto valer a pena. Enquanto a balan\u00e7a pender mais para o lado das coisas boas que obtemos. Rela\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas \u00e0 parte, em que os dois est\u00e3o doentes, o amor rom\u00e2ntico existe sob amea\u00e7a constante. E por mais intenso que tenha sido e vivido, pode acabar a qualquer momento sem que depois reste a mais pequena evid\u00eancia da sua exist\u00eancia\u2026 a n\u00e3o ser uma fotos, uns v\u00eddeos e um punhado de pessoas que se voluntariam para testemunhar, ainda que contra a nossa vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos destes amores tornam-se em lugares \u00e9picos de rancor. E \u00e9 por isso que n\u00e3o o acho particularmente forte, no sentido de indestrut\u00edvel, mas tem a sua piada pelas emo\u00e7\u00f5es intensas e inimit\u00e1veis a que convida viver. Mas, fa\u00e7a-se justi\u00e7a, dele brota um outro amor, muito mais interessante. A ele se atribui a responsabilidade, embora em regime de n\u00e3o exclusividade, pela exist\u00eancia dos nossos filhos. Esse sim um&nbsp;<strong>amor incondicional<\/strong>. Esse sim um amor para a vida toda ainda que, como em tudo na vida que n\u00e3o \u00e9 matem\u00e1tica, com altos e baixos. O amor que pais e filhos experimentam, e volto a ressalvar a doen\u00e7a, n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o, limite ou morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Consideramos ami\u00fade a aus\u00eancia deste amor sempre que nos chateamos uns com os outros. Um engano que nos presta a maior prova de amor. Entendendo que prova \u00e9 sin\u00f3nimo de evid\u00eancia, n\u00f3s nunca nos aborrecer\u00edamos desta maneira com algu\u00e9m que nos \u00e9 distante. Indiferente. Nunca!&#8230; est\u00e1 na nossa engenharia.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe sempre uma primeira fase em que nos aborrecemos, em que doi o que nos fizeram, em que reagimos de uma forma que n\u00e3o \u00e9 a nossa ou que gostar\u00edamos que n\u00e3o fosse a nossa. E afastamo-nos por tempo indeterminado. \u00c0s vezes, at\u00e9 que a morte nos separe. Mas isto s\u00f3 acontece com familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos, colegas do desporto, e por a\u00ed em diante. Mas nunca, nunca, acontece entre Pai e Filho (saud\u00e1veis). O amor entre pais e filhos dan\u00e7a constantemente entre a Lua de Mel e um choque de 220 volts. N\u00e3o h\u00e1 como evitar! Uma das dan\u00e7as embala-nos suavemente, cravando um sorriso parvo nos l\u00e1bios e a outra, acorda-te para a exist\u00eancia de algu\u00e9m que afinal tem vida pr\u00f3pria. E nessa feira de opini\u00f5es, acorda-nos para a crua verdade de que n\u00e3o controlamos o nosso bem-estar a partir do momento em que somos pais.<\/p>\n\n\n\n<p>E este tamb\u00e9m \u00e9 um amor incondicionalmente desequilibrado. Injusto. Luciferiano. \u00c9 que o amor dos pais para os filhos n\u00e3o tem a mesma intensidade do amor dos filhos para os pais. \u00c9 que no&nbsp;<strong>caso descendente<\/strong>&nbsp;(de pais para filhos), a hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais rica em ingredientes: tem um cunho biol\u00f3gico; vimos nascer e crescer; ensin\u00e1mos muitas das coisas que sabem; perdemos constantemente um pouco de paz por estarmos sempre em alerta; cuidamos deles como nossas crias e n\u00e3o como um programa de engorda com sete etapas; vemos neles um pouco de n\u00f3s. Ao contr\u00e1rio do&nbsp;<strong>caso ascendente<\/strong>, ou seja, de filhos para pais, onde o seu amor \u00e9 sentido como algo ligado a esta perigosa ideia da inevitabilidade: quando dizem &#8220;Eu n\u00e3o escolhi para nascer!&#8221; e com esta express\u00e3o desculpam-se para com a intensidade do amor que n\u00e3o est\u00e3o dispostos a entregar. Mas penso que \u00e9 mesmo neste ponto onde reside o seu equil\u00edbrio. Qual de n\u00f3s gostaria de ver os filhos constantemente preocupados, dias a fio, com o nosso bem-estar?<\/p>\n\n\n\n<p>Quem \u00e9 que aceitaria, sem que numa profunda tristeza mergulhasse, olhar para os filhos e perceber que n\u00e3o viviam em leveza. Sempre preocupados com alguma coisa que nunca saberiam o que era. Sempre preocupados apesar da resposta \u00e0 pergunta, &#8220;mas o que \u00e9 que tens?&#8221; fosse &#8220;n\u00e3o sei!&#8221; ou &#8220;est\u00e1 tudo bem&#8221;. O amor deles para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9, nunca ser\u00e1 e \u00e9 assim que deve continuar, um amor mais forte do que o nosso. O amor dos nossos filhos \u00e9 um amor mais leve, mais despreocupado e at\u00e9 mais partilhado com o resto do mundo. De uma certa forma, quero eu romanticamente acreditar, um amor que se anda a poupar para que, chegada a sua vez de parentalidade, consiga ir buscar toda a for\u00e7a necess\u00e1ria. Chegada a sua vez de ser Pai, tenha as reservas de amor necess\u00e1rias para acalmar a d\u00favida sobre se algum dia iria ser capaz de amar tanto. Essa \u00e9 a verdadeira e necess\u00e1ria diferen\u00e7a. E n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o pequena.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta reflex\u00e3o n\u00e3o se esgotar\u00e1 por aqui. Porque \u00e9 exatamente nessa utiliza\u00e7\u00e3o de diferentes escalas, a dos pais e a dos filhos, que reside o segredo para o apaziguamento. Se entendermos que este \u00e9 um desequil\u00edbrio saud\u00e1vel, entendemos o que \u00e9 suposto dar e o que \u00e9 suposto receber. Nem mais nem menos. E n\u00e3o iremos entrar, salvo uma ou outra reca\u00edda, em modo de cobran\u00e7a. Cobrar, esse verbo que nos enruga o cora\u00e7\u00e3o. Cobrar \u00e9 n\u00e3o partir do princ\u00edpio de que andamos todos a tentar dar o nosso melhor. Se eu penso que o outro d\u00e1 tudo o que tem, ou que pode, ou que julga ser suficiente, ent\u00e3o percebo, do meu lado, que estou a receber exatamente o que era suposto receber. \u00c9 urgente, numa rela\u00e7\u00e3o parental, que cheguemos rapidamente a esta arena onde n\u00e3o se vive na escassez de estarmos \u00e0 espera de sempre mais, s\u00f3 porque nos sabe t\u00e3o bem.<\/p>\n\n\n\n<p>E como o amor manifestado de um filho nos preenche tanto, ficamos viciados nesta dopamina. Uma esp\u00e9cie de shot de felicidade que todos queremos repetir ao longo da semana. Ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 este tipo de amor que resiste ao tempo e que \u00e9 de uma anatomia a toda a prova. Um amor que nos coloca em perspectiva. Um amor que contraria os ensinamentos do desenvolvimento pessoal, em que estes nos recordam constantemente que precisamos de nos colocar em prioridade. Que temos primeiro de estar bem, de nos cuidarmos, para poder a seguir cuidar dos outros. Mas a parentalidade fala mais alto e somos aut\u00eanticos &#8220;bombeiros&#8221; em prontid\u00e3o e de pavio curto para socorrer os nossos filhos.&nbsp;<strong>Cuidar, cuidar e cuidar<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 quando largamos tudo, sem pensar em mais nada, para garantir que chegamos a tempo de os salvar, quando eles nem precisam de ser salvos, \u00e9 que vemos o inexplic\u00e1vel, incondicional e irracional descontrolo de todo o nosso ser em rela\u00e7\u00e3o a um outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sei de muitas mentes brilhantes que se perderam a discutir acerca do ovo e da galinha, e de quem \u00e9 que apareceu primeiro. Perderei a minha vida tamb\u00e9m, mas em algo muito mais interessante: o de virar do avesso, repetidas vezes, a anatomia do amor. Essa compreens\u00e3o, que uma vez descoberta talvez me salve. 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