{"id":129,"date":"2025-04-04T00:13:08","date_gmt":"2025-04-04T00:13:08","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=129"},"modified":"2025-12-23T00:24:06","modified_gmt":"2025-12-23T00:24:06","slug":"o-lar-como-ultimo-reduto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=129","title":{"rendered":"O Lar como \u00faltimo reduto"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dia ouvi esta frase: &#8220;A lente que escolhemos interfere com a paisagem.&#8221; Apesar de ter gostado imediatamente da frase, assaltou-me uma inquieta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, isto quer dizer que\u2026 aquilo que eu achava que era est\u00e1vel e que nunca me iria falhar, a paisagem onde eu estivesse, afinal n\u00e3o seria bem assim. Que essa mesma paisagem iria estar diferente conforme a agita\u00e7\u00e3o ou a calma que habitasse em mim?! E essa \u00e9 a vulnerabilidade da vida. A mesma paisagem pode ser visitada e saboreada de m\u00faltiplas maneiras.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 por isso que dar import\u00e2ncia \u00e0s coisas n\u00e3o tem de ser sin\u00f3nimo de as tornar pesadas. Se colocamos muito peso nas coisas, atrapalhamos a nossa vida. Andamos sempre cansados. Sem predisposi\u00e7\u00e3o para a beleza das v\u00e1rias paisagens. Mas se dermos a import\u00e2ncia que as v\u00e1rias coisas merecem, ficamos centrados com a vida e ela flui. Escolhemos o tal olhar com que olhamos cada coisa e n\u00e3o gastamos a energia que \u00e0s vezes nem temos para gastar.<\/p>\n\n\n\n<p>Centrar-me na vida, para mim, sempre foi hierarquizar a import\u00e2ncia das v\u00e1rias coisas. Cada um ter\u00e1 a sua lista, e \u00e9 isso que importa, porque n\u00e3o t\u00ea-la \u00e9 que levar\u00e1 ao desnorte. E para mim, umas dessas coisas, colocadas no topo da pir\u00e2mide, \u00e9 o Lar. Entenda-se, a minha fam\u00edlia direta a coabitar numa casa e a que chamamos de fam\u00edlia nuclear.<\/p>\n\n\n\n<p>O Lar, ao ser o \u00faltimo reduto, tem duas, e ambas verdadeiras, interpreta\u00e7\u00f5es. E \u00e9 preciso escolher em qual delas queremos colocar maior aten\u00e7\u00e3o. Ou melhor dizendo, em qual delas queremos emprestar masi vezes o nosso olhar:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Reduto, como o ninho de onde sa\u00edmos todos os dias e para onde voltamos todos os dias. Um lugar para nos sentirmos seguros. Onde nos constru\u00edmos e reconstru\u00edmos a cada dia, num sentimento de conquista da vida e do mundo l\u00e1 fora. Um lugar onde amadurecemos e nos preparamos para abandonar e criar a nossa pr\u00f3pria fam\u00edlia. Dizermos com orgulho &#8220;agora \u00e9 a minha vez!&#8221;\u2026 coisa que nos dias de hoje acontece cada vez mais tarde. S\u00f3 por curiosidade, em m\u00e9dia, os nossos filhos s\u00f3 est\u00e3o a sair de casa aos 25 e qualquer coisa, anos. Se considerarmos esta estat\u00edstica apenas para Portugal, chegamos a uns impressionantes 30 anos. E,<\/li>\n\n\n\n<li>reduto, numa quest\u00e3o \u00e0s vezes muito menos positiva. No sentido da \u00faltima prote\u00e7\u00e3o. A \u00faltima barreira de resist\u00eancia. Que aponta para o nosso Lar ser, muitas das vezes, onde se erguem a barreiras com o exterior. Erguemos essas barreiras para n\u00e3o deixar que de fora venham ideias diferentes das nossas. Um lugar onde as nossas crian\u00e7as, e os pais tamb\u00e9m, n\u00e3o evoluem e n\u00e3o se livram t\u00e3o facilmente da heran\u00e7a geracional e de, \u00e0s vezes, alguns dos h\u00e1bitos familiares pouco saud\u00e1veis. Todos herdamos, e se n\u00e3o nos abrirmos aos outros lares e \u00e0 comunidade, mais dif\u00edcil se torna de os perder, erradicar, para assim vivermos uma melhor parentalidade.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Ou seja, ou vemos o nosso Lar como um lugar aberto ao mundo ou como um lugar de prote\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao mundo. Claro que alternamos ao longo da vida entre estas duas predisposi\u00e7\u00f5es, mas o que interessa discernir, \u00e9 em qual dos dois modos queremos primariamente operar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas hoje, principalmente, quero falar-vos do ambiente de confian\u00e7a que \u00e9 preciso construir dentro das nossas casas. A coisa mais estranha que pode acontecer dentro de um lar \u00e9 termos uma conviv\u00eancia t\u00e3o pr\u00f3xima que s\u00f3 pode dar em confian\u00e7a, s\u00f3 que n\u00e3o. Se nem a intimidade e a confian\u00e7a crescerem com o passar dos \u00f3bvios anos pela frente, ent\u00e3o algo se passa em nossa casa. Antes que fa\u00e7am aquela express\u00e3o de &#8220;Como \u00e9 \u00f3bvio!&#8221;, deixem que vos diga uma coisa. Confian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que intimidade. Confiar, \u00e9, por exemplo, eu saber que mesmo estando a ter um dia ou uma semana dif\u00edcil, vou ter o apoio da minha fam\u00edlia l\u00e1 em casa, no meu ninho. Vou ter, apesar de tudo, quem vai tentar respeitar o momento ideal para eu pedir ajuda. E mesmo quando n\u00e3o quero pedir ajuda, que venha para o meu lado em sil\u00eancio, comer porcaria e ver um filme que n\u00e3o lembra-o-Diabo, e ficar, nem que por momentos, na merda comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Confiar tamb\u00e9m \u00e9 algo que surge com o tempo. \u00c9 um processo que ningu\u00e9m consegue acelerar. E agora estou a pensar muito nas rela\u00e7\u00f5es de enteados e padrastos e madrastas. Nestes casos, muito cuidado com o que se tenta fazer \u00e0 pressa, embora com as melhores das inten\u00e7\u00f5es. S\u00e3o os filhos do outro, num processo de uma certa ado\u00e7\u00e3o, e que acabaram de chegar a este lar. Ou ent\u00e3o s\u00e3o os nossos filhos, que connosco est\u00e3o a chegar a um outro lar. Confian\u00e7a?, ainda n\u00e3o existe e muito menos intimidade, que vir\u00e1 a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Construir confian\u00e7a, \u00e9 perceber que n\u00e3o devemos correr para os salvar das emo\u00e7\u00f5es negativas por que est\u00e3o a passar. Como se fosse uma doen\u00e7a. Pressionamos para resolver com urg\u00eancia o seu dia de merda, porque n\u00e3o nos sentimos bem com aquele filho a sofrer. Eles sofrem n\u00f3s sofremos. E n\u00f3s queremos evitar o sofrimento. A determinado ponto do processo de assistirmos a este sofrimento, a \u00fanica coisa v\u00e1lida a fazer \u00e9 passarmos a ideia de que estamos l\u00e1 para eles. Que estamos ali e n\u00e3o vamos a lado nenhum e estamos dispon\u00edveis para quando eles nos quiserem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sentirem-se cuidados, v\u00e3o com toda a certeza querer cuidar das outras pessoas. Das pessoas mais importantes das suas vidas. Onde nos inclu\u00edmos, claro. Mas antes disso, v\u00e3o querer cuidar deles pr\u00f3prios. E essa \u00e9 a melhor e mais r\u00e1pida forma de resolver um dia de merda. Se os filhos n\u00e3o se sentem cuidados pelos pais, n\u00e3o se v\u00e3o sentir valorizados. E v\u00e3o pensar: &#8220;se eu n\u00e3o valho nada para quem mais gosta de mim, \u00e9 porque sou uma merda a mere\u00e7o ter um dia de merda.&#8221; O que se segue \u00e9 que essa crian\u00e7a nem pensa que merece cuidar dela pr\u00f3pria. Quem \u00e9 que se consegue levantar disto?<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, como \u00e9 que cuidamos dos nossos filhos, todos os dias, para que possamos construir uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a? A tal confian\u00e7a que vai servir de rede para um dia de merda? \u00c9 uma regra da vida no mar. S\u00f3 podemos salvar os outros depois de estarmos em seguran\u00e7a e a salvo. Se h\u00e1 s\u00f3 um colete de salva\u00e7\u00e3o, veste-o e vai salvar os outros que n\u00e3o t\u00eam colete. No caso dos pais, precisam de estar bem num dos pilares das suas vidas: o trabalho. \u00c9 que estando bem, l\u00e1 fora, n\u00e3o v\u00e3o trazer lixo para dentro de casa. Esse lixo emocional. T\u00eam de estar bem nos seus empregos. Mas sim, claro, quem nunca esteve em conflito no trabalho ou consigo mesmo por causa do trabalho?!<\/p>\n\n\n\n<p>Os pais precisam mesmo de n\u00e3o desistir at\u00e9 encontrarem o emprego que lhes permita estabilidade emocional. N\u00e3o apenas a estabilidade emocional, mas e acima de tudo, sentirem-se realizados. Muitos dir\u00e3o que \u00e9 muito dif\u00edcil. N\u00e3o contesto. Mas devemos tentar, por aproxima\u00e7\u00e3o, convergir para a\u00ed. Saber para onde ir, \u00e9 j\u00e1 uma boa parte da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como aquela fal\u00e1cia de se dizer que \u00e9 sempre melhor os filhos terem os pais juntos, debaixo do mesmo teto. E eu digo que \u00e9 sempre melhor separarem-se se o ambiente que lhes est\u00e3o a oferecer j\u00e1 os prejudica mais do que os favorece. N\u00f3s somos a sua primeira e principal paisagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi realizado um estudo que ajudou a concluir isto: chegar tarde do trabalho n\u00e3o afeta tanto como chegar cedo a casa, mas derrotado. Chegarmos a casa empoderados de vida vai fazer com que cuidemos dos nossos. Faz com que tenhamos aquela folga para nos permitirmos cuidar dos outros que habitam connosco o nosso lar. E esse \u00e9 o caminho da constru\u00e7\u00e3o de um ambiente de confian\u00e7a. Se os nossos filhos sentem que, se se forem abaixo ningu\u00e9m l\u00e1 estar\u00e1 para eles, ent\u00e3o n\u00e3o v\u00e3o arriscar serem eles. Porque \u00e9 quando tentamos fazer diferente que a frustra\u00e7\u00e3o nos visita. Porque n\u00e3o conseguimos ou porque n\u00e3o atingimos o que est\u00e1vamos \u00e0 espera. Numa frase &#8220;soube a pouco&#8221; e n\u00e3o vale o confronto. N\u00e3o vale a pena arriscar a instabilidade. Mais vale deixar como est\u00e1. Por que no confronto quase sempre h\u00e1 cacos por todo o lado. E se acrescentarmos o facto de n\u00e3o estar ningu\u00e9m \u00e0 nossa volta para nos amparar, ent\u00e3o n\u00e3o arrisco ir para essa situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E o lar pode ser esse lugar. Onde um ambiente de confian\u00e7a permite que cada um de n\u00f3s possa mostrar quem \u00e9, e quem quer ser. Onde podemos ensaiar as nossas d\u00favidas. Dizer o que pensamos. Construirmos a nossa personalidade de forma livre e cimentada. Um lugar onde sabemos que a vulnerabilidade estar\u00e1 sempre \u00e0 espreita, mas que n\u00e3o nos ir\u00e1 derrubar. Porque sei que a vulnerabilidade me \u00e9 permitida. Se pudermos olhar a vulnerabilidade de frente, ela n\u00e3o nos assusta ou atrapalha ou congela as nossas ac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas existe um outro lar, j\u00e1 fal\u00e1mos num outro epis\u00f3dio, em que os pais n\u00e3o participam. Quer dizer, n\u00e3o diretamente. A rela\u00e7\u00e3o dentro do Lar entre irm\u00e3os. E esse Lar constru\u00eddo pela gera\u00e7\u00e3o abaixo, n\u00e3o pode nem deve ser imposto pelos pais. Mas pode ser incentivado pelos pais. Vigiado de longe, se assim preferirem, com as nossas s\u00e3s regras a forrar todas as paredes. Porque, ainda que cultivemos esta confian\u00e7a entre todos, n\u00e3o conseguiremos impor aos irm\u00e3os que confiem uns nos outros. Isso n\u00e3o vai resultar. Confian\u00e7a \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o que leva o seu tempo. Portanto a \u00fanica forma de obter esta confian\u00e7a \u00e9 atrav\u00e9s das viv\u00eancias em que se tiveram de ajudar uns aos outros. E \u00e9 aqui que os pais podem patrocinar este caminho atrav\u00e9s de lhes pedirem tarefas que envolvam os irm\u00e3os na sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O pior que os pais podem fazer \u00e9 incentivar um filho a &#8220;entregar&#8221; um irm\u00e3o, para tentar descobrir o culpado ou como aconteceu isto ou aquilo. Essa manipula\u00e7\u00e3o destr\u00f3i rapidamente a confian\u00e7a que j\u00e1 se tenha granjeado. Eu acho muito honrado quando, mesmo apertados por todos os lados, os nossos filhos protegem-se uns aos outros. Se h\u00e1 limites? Com certeza. Principalmente o limite de se estar a encobrir algo de muito grave com a sa\u00fade, justi\u00e7a ou outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Confiarmos uns nos outros e no ambiente do nosso lar, \u00e9 tudo o que precisamos para que o lar tamb\u00e9m cuide de n\u00f3s. Se o lar estiver forte, quando vacilamos vamos ter l\u00e1 este elemento para nos ajudar a levantar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia ouvi esta frase: &#8220;A lente que escolhemos interfere com a paisagem.&#8221; Apesar de ter gostado imediatamente da frase, assaltou-me uma inquieta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, isto quer dizer que\u2026 aquilo que eu achava que era est\u00e1vel e que nunca me iria falhar, a paisagem onde eu estivesse, afinal n\u00e3o seria bem assim. 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