{"id":137,"date":"2025-06-27T00:16:08","date_gmt":"2025-06-27T00:16:08","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=137"},"modified":"2025-12-23T00:23:04","modified_gmt":"2025-12-23T00:23:04","slug":"encarar-e-descomplicar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=137","title":{"rendered":"Encarar e descomplicar"},"content":{"rendered":"\n<p>Duas palavras aparentemente simples: Encarar e descomplicar. Estas poderiam muito bem pertencer ao meu mantra. Mas \u00e9 quando julgamos ter chegado ao Santo Graal do &#8220;Saber viver&#8221; que a vida nos acorda demasiadas vezes e das mais variadas formas. Bela e complexa\u2026 &#8220;uma d\u00e1diva&#8221;, dir\u00e3o alguns, mas um desassossego completo para inquieta\u00e7\u00e3o da maioria. E eu, \u00e9 uma pena!, n\u00e3o escapo a esta pequena-grande maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Viver a vida pede de n\u00f3s o maior e mais complexo dos cursos superiores. Uma vida a estudar e a investigar para que nos possamos aproximar, ao de leve, da sua plenitude. Da sua ess\u00eancia. &#8220;Ignore-se\u2026 mais vale a feliz ignor\u00e2ncia&#8221;, mais um douto conselho. Mas para mim essa nunca foi uma alternativa. Claro que vivo dias assim\u2026 Dias que me permitem &#8220;descansar&#8221; e nos quais me for\u00e7o a convergir para as coisas simples da vida. Mas esta vida vivida e \u00e1vida de ser vivida, tamb\u00e9m traz outros seres vivos com o inferno nas suas mochilas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca me fez sentido recorrer a b\u00e1lsamos para viver melhor. Viver em paz, como tantos de n\u00f3s o desejam. Uma paz, que para muitos de n\u00f3s, \u00e9 igual \u00e0 aus\u00eancia de problemas. Tendo a n\u00e3o concordar. Entendo, que s\u00f3 me realizo vivendo intensamente esta vida que me foi oferecida e por isso a responsabilidade de a viver ao m\u00e1ximo do seu potencial. Esta \u00e9 a minha f\u00f3rmula. Quero saber &#8220;tudo a que tenho direito&#8221; e aceito, ao mesmo tempo, que do meu lado fica aquela dolorosa parte de aprender a lidar com a ansiedade de n\u00e3o conseguir uma \u00ednfima parte disso tudo. Adoro o caminho enquanto o fa\u00e7o. Um caminho que me vai fazer chegar a &#8220;nenhures&#8221; e isso \u00e9 fant\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz-se por a\u00ed, que o Poeta \u00e9 um fingidor. Eu n\u00e3o concordo. Ele, quando muito, sabe que a vida \u00e9 soberba e a sua capacidade para a entender, med\u00edocre. Ent\u00e3o inventa palavras e emo\u00e7\u00f5es sobre a vida, na v\u00e3 esperan\u00e7a de se aproximar da sua ess\u00eancia. Pobre Poeta\u2026 nunca sabe se est\u00e1 perto o suficiente. A mim, bastar-me-\u00e1 saber que desta forma, colorando as frases com todo o arsenal de efeitos especiais de que possuo, ficarei mais pr\u00f3ximo. Assim\u2026 apenas mais pr\u00f3ximo. Mas nunca entendendo onde estou.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, fingir \u00e9 pintar com camadas para deixar de ver como \u00e9. Fingir \u00e9 viver ali ao lado, cada vez mais distante. \u00c9 colocar outra realidade em cima da vida, em que tantas vezes acreditamos ainda mais, acabando numa perigosa confus\u00e3o. Podemos continuar a reagir de forma verdadeira, \u00e9 verdade, mas em cima de uma vida que n\u00e3o \u00e9 a nossa. Na minha opini\u00e3o, vai dar no mesmo: reagir sem sermos n\u00f3s, ou fingir a realidade que nos envolve, produz a mesma distopia.<\/p>\n\n\n\n<p>O melhor exemplo que encontro \u00e9 o de uma crian\u00e7a num quarto escuro. Com a falta de ferramentas para lidar com a situa\u00e7\u00e3o, pela tenra idade, e pela exacerbada capacidade de imagina\u00e7\u00e3o, fica aterrorizada pelo infort\u00fanio de estar num quarto completamente escuro e \u00e0 merc\u00ea das suas confabula\u00e7\u00f5es que, num epis\u00f3dio destes, tendem apenas para cen\u00e1rios de horror. Hoje tenho a certeza de que quem escreve livros ou gui\u00f5es de terror, o faz num quarto escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A ferramenta que a crian\u00e7a teria de usar era\u2026 acender a luz. E ao acender a luz todo aquele quarto revelava-se. E em 99% destes casos nenhum perigo estava escondido. A crian\u00e7a n\u00e3o corria risco algum. O quarto era perfeitamente normal, cheio de coisas banais, que todos os quartos possuem. Mas a sua conviv\u00eancia com essas coisas em plena escurid\u00e3o e, a sua imagina\u00e7\u00e3o, levaram-na a viver um aut\u00eantico filme de terror.<\/p>\n\n\n\n<p>Fingir, como dizem do Poeta, \u00e9 n\u00e3o acender a luz. \u00c9 manter as infinitas possibilidades do que a nossa imagina\u00e7\u00e3o quiser fazer de n\u00f3s. E n\u00f3s j\u00e1 sabemos para onde \u00e9 que ela, na maioria das vezes quer ir,\u2026 para os lugares mais escuros. Para as d\u00favidas mais infundadas. Para o sofrimento mais descontrolado. Acender a luz, o quanto antes, \u00e9 o mais belo sinal de maturidade. Fa\u00e7a-se luz no meu caminho \u00e9, talvez, o meu superpoder. Quando sei que se aproxima uma miragem, prefiro correr para a destruir ou confirmar. Tirar-lhe a for\u00e7a de ser uma miragem. Parar. Andar \u00e0s voltas. Voltar para tr\u00e1s\u2026 \u00e9 s\u00f3 e t\u00e3o s\u00f3, manter a miragem viva pelo nosso canto do olho.<\/p>\n\n\n\n<p>E se a nossa vida, o nosso caminho, precisa dessa luz para decidirmos melhor o que fazer, imaginem o que pensar do nosso Lar. Um conglomerado de pessoas, todas com as suas miragens. Todas com os seus quartos escuros. Todas com os seus fingimentos a que tamb\u00e9m t\u00eam direito. No Lar, as din\u00e2micas familiares e os relacionamentos por elas produzidas s\u00e3o uma combina\u00e7\u00e3o infind\u00e1vel e incontrol\u00e1vel. Dada a sua complexidade n\u00e3o nos podemos cingir a papeis fixos, t\u00e3o convenientes para a tal sobreviv\u00eancia que avidamente procuramos. No Lar, vivermos de forma simples, tal como viemos ao mundo, \u00e9 um luxo.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos de encarar as nossas fragilidades como seres humanos e parar de fingir que n\u00e3o estamos a perceber o que o nosso filho verdadeiramente precisa naquele momento. N\u00e3o sou dado a exteriorizar as minhas emo\u00e7\u00f5es, mas o que o meu filho precisa \u00e9 de colo e de perceber que o que ele est\u00e1 a sentir \u00e9 perfeitamente natural e saud\u00e1vel. N\u00e3o sou de dar colo, mas agora tenho de o dar. O fingimento n\u00e3o estar\u00e1 quando tento desempenhar um papel que me \u00e9 desconfort\u00e1vel. O fingimento est\u00e1, isso sim, quando olho para o lado fazendo por ignorar o que o outro que precisa de mim, sente. O fingimento est\u00e1, claramente, quando n\u00e3o deixo entrar uma percep\u00e7\u00e3o sobre o que dever\u00e1 ser o meu papel a cada instante, para quem me rodeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu percebo\u2026 \u00e9 muito mais confort\u00e1vel, porque n\u00e3o me \u00e9 natural, fingir que n\u00e3o estou a entender o que o meu filho precisa, naquele momento. E \u00e9 por isso que \u00e9 importante tentar treinar a nossa sensibilidade. Perguntarmos aos l\u00e1 de casa, quando a situa\u00e7\u00e3o assim o pedir, que estamos a sentir &#8220;isto&#8221; e que achamos que podemos ser \u00fateis nesta ou naquela rea\u00e7\u00e3o. Vamos confirmando se a nossa sensibilidade est\u00e1 a ficar assertiva, afinando-a a cada vez que tentamos. Ningu\u00e9m nos quer uma semana depois da crise passar. A sensibilidade d\u00e1-nos o mote e a intensidade, mas tamb\u00e9m nos d\u00e1 o&nbsp;<em>timing<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Encarar o que nos vai acontecendo e o que vai acontecendo aos outros que nos s\u00e3o mais pr\u00f3ximos e, no caso dos filhos, que s\u00e3o do nosso cuidado, \u00e9 das atitudes mais b\u00e1sicas e potentes a que podemos deitar m\u00e3o. Mas para as encarar sem fingimentos, sem cria\u00e7\u00e3o de miragens, sem adiamentos que s\u00f3 complicam e nos tornam obsoletos na ac\u00e7\u00e3o, temos de aceitar estar quase sempre fora da nossa zona de conforto. Mas \u00e9 a\u00ed, nessa tentativa, que somos mais \u00fateis. N\u00e3o precisamos de ser todos m\u00e9dicos, mas perceber um pouco de primeiros socorros para ajudar um filho que se magoou, faz toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de aceitarmos o nosso papel, \u00e0s vezes natural, outras vezes nem por isso, podemos almejar descomplicar o que temos pela frente. Complicar, invariavelmente, \u00e9 o resultado de estarmos a fingir que n\u00e3o percebemos nada do que se passa. Claro que existem muitos desafios severos. Que s\u00e3o mesmo muito complexos e que s\u00e3o mesmo muito dif\u00edceis de se lidar. E todos os l\u00e1 de casa j\u00e1 os tiveram e v\u00e3o voltar a ter. Mas at\u00e9 o que \u00e9 complicado tamb\u00e9m \u00e9 da nossa conta descomplicar. O que n\u00e3o conv\u00e9m mesmo nada \u00e9\u2026 fazer do simples uma complica\u00e7\u00e3o. J\u00e1 nos bastar\u00e1 os desafios naturais da vida para nos mantermos bem ocupados. N\u00e3o vale nada a pena fingir que temos o Poder da Cria\u00e7\u00e3o e inventar pedras no nosso caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os nossos filhos vivem de uma forma &#8220;ali ao lado&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa percep\u00e7\u00e3o adulta da realidade. E o que pode come\u00e7ar por ser algo complexo para eles, mas simples para n\u00f3s, pode tornar-se em algo complexo para todos. Tudo porque fingimos que o nosso papel \u00e9 fingirmo-nos de mortos. E que nada temos para dar para que um desafio n\u00e3o se transforme num Adamastor. Temos de aceitar que (naturalmente) sabemos lidar melhor com os desafios do que eles. Temos de activar o modo da intui\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 mais do que colocar a nossa experi\u00eancia ao servi\u00e7o da resposta que ser\u00e1 mais adequada. Acreditar que a nossa intui\u00e7\u00e3o andar\u00e1 mesmo mais perto do que \u00e9 preciso dizer a cada momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Descomplicar, muitas das vezes, \u00e9 apenas desconstruir um emaranhado de assuntos, interligados, para que se entenda o que resolver primeiro. Acender a luz \u00e9, frequentemente, important\u00edssimo para que cada desafio se torne pequeno o suficiente para ser lidado, colocado no seu lugar, como um mi\u00fado malcomportado, \u00e0 espera da sua vez. Qualquer um de n\u00f3s tem capacidade de resolver problemas. Temos \u00e9 de encontrar a dimens\u00e3o a partir da qual o conseguimos fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligar os problemas uns dos outros. Dar-lhes autonomia. Dar-lhes independ\u00eancia. Coloc\u00e1-los em &#8220;filinha indiana&#8221;, atribuindo-lhes senhas sequenciais de atendimento. Parece-me uma muito boa estrat\u00e9gia. Tudo junto, \u00e9 areia a mais para a camioneta de qualquer um. Temos a natureza como inspira\u00e7\u00e3o e como prova de que nos deixamos enganar e de como, algo que n\u00e3o sendo passa a ser. O ar n\u00e3o \u00e9 azul. Mas tantos kms de ar junto e mais uns efeitos, que agora n\u00e3o me apetece ir investigar, faz tornar-se nesta certeza de que o c\u00e9u \u00e9 azul. At\u00e9 as nuvens, quando viajamos de avi\u00e3o, nos d\u00e3o esta certeza de que nos podemos atirar ali para cima e usufruir do melhor colch\u00e3o e das melhores vistas, a que ser humano algum alguma vez teve acesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Descomplicar n\u00e3o \u00e9 cuspir na cara da Vida. Dizendo-lhe, de uma certa maneira, que &#8220;tu n\u00e3o vales nada. Que tens de fazer melhor do que isso para me derrubares&#8221;. Descomplicar \u00e9 o caminho para usufruir melhor da vida. Da rela\u00e7\u00e3o que temos no lar, com todos. Usufruir desses relacionamentos por j\u00e1 n\u00e3o serem algo que nos tira do s\u00e9rio e nos d\u00e1 verdadeiras dores de cabe\u00e7a. E at\u00e9 ver, ningu\u00e9m gosta ou quer viver em constante press\u00e3o no corpo todo e a fugir dos acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os dias parecem estar escuros demais para o teu gosto, acende a luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas palavras aparentemente simples: Encarar e descomplicar. Estas poderiam muito bem pertencer ao meu mantra. Mas \u00e9 quando julgamos ter chegado ao Santo Graal do &#8220;Saber viver&#8221; que a vida nos acorda demasiadas vezes e das mais variadas formas. 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