{"id":139,"date":"2025-07-25T00:16:55","date_gmt":"2025-07-25T00:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=139"},"modified":"2025-12-23T00:22:24","modified_gmt":"2025-12-23T00:22:24","slug":"querer-muito-querer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=139","title":{"rendered":"Querer, muito querer."},"content":{"rendered":"\n<p>Penso que o que mais gostamos, como ser humano, \u00e9 de controlar. Esta \u00e9 a nossa &#8220;berma da estrada&#8221;. N\u00e3o creio ser no sentido em que nos encontramos poderosos, mas porque gostamos da previsibilidade \u00e0 nossa volta. Gostamos que o futuro n\u00e3o nos venha com muita variedade para cima de n\u00f3s. Muita incerteza. Mas, ou n\u00e3o fossemos este animal complexo, tamb\u00e9m queremos a surpresa para que a vida nos saiba melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no fim do dia, e at\u00e9 que as for\u00e7as se nos acabem, lutamos para que essa parte desconhecida da nossa vida, se fique por uma m\u00edsera percentagem da nossa exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o saber, ou, n\u00e3o controlar, traz-nos ansiedade. A uns mais do que a outros, mas \u00e9 humano querermos controlar uma boa parte do que a vida nos reserva. Desejamos tudo o que podemos e se a vida nos vier a atender a todos estes desejos, vamos acabar insatisfeitos. E viver, aquilo para que nascemos, perde uma boa parte da sua gra\u00e7a. \u00c9 o que eu sempre digo: &#8220;<strong>Cuidado com o que desejamos, n\u00e3o se v\u00e1 dar o caso de o obtermos<\/strong>.&#8221; \u00c9 exatamente aqui que reside o encanto da vida. O de podermos ter mais coisas do que a nossa &#8220;pequenez&#8221; alguma vez conseguir\u00e1 imaginar e desejar. A vida consegue sempre ser mais diversa e divertida do que a nossa imagina\u00e7\u00e3o. A vida, apesar da milenar experi\u00eancia desta humanidade, consegue sempre nos surpreender.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas em que devemos trabalhar de vez em quando, \u00e9 este estado de n\u00e3o desejarmos estar em completo controlo de tudo. Evitarmos querer controlar algo que nunca ir\u00e1 ficar controlado. E aqui, mant\u00e9m-se uma das verdades de que mais gosto: &#8220;<strong>\u00c9 o caminho que interessa<\/strong>.&#8221; Neste caso, o caminho para o controlo da vida (que nunca ir\u00e1 acontecer) s\u00f3 vos vai banhar de ansiedade. N\u00e3o ser\u00e1 mais inteligente da nossa parte,&nbsp;<strong>metermo-nos com algu\u00e9m do nosso tamanho\u2026 n\u00f3s mesmos<\/strong>. Isso sim, \u00e9 ger\u00edvel, apesar de igualmente complexo. E entre duas coisas complexas, n\u00e3o ser\u00e1 mais plaus\u00edvel escolher o desafio poss\u00edvel e cujo caminho nos d\u00ea mais prazer?&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos controlar o que est\u00e1 fora de n\u00f3s. Os outros, a sociedade, o que os outros pensam sobre n\u00f3s, o que ser\u00e3o as rea\u00e7\u00f5es dos outros \u00e0s nossas ac\u00e7\u00f5es, entre tantas outras coias. Mas desconfiamos, por verifica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, que isso nunca ir\u00e1 acontecer. Mas n\u00e3o desistimos, mesmo quando temos ali ao lado um caminho mais seguro para que a vida se nos apresente como uma coisa que enfrentamos com alegria e aprecia\u00e7\u00e3o. Que tal tratarmos da \u00fanica coisa que conseguimos mudar!<\/p>\n\n\n\n<p>Que tal mudar quem sou? Que tal mudar essa parte, apesar de sempre dif\u00edcil e por vezes dolorosa, que eu sei ser poss\u00edvel de fazer. E deixar de me enganar, em rela\u00e7\u00e3o a uma aventura de sucesso duvidoso e sobre o qual n\u00e3o conhe\u00e7o quem tenha reclamado vit\u00f3ria? Este outro, o do Eu, \u00e9 um caminho longo, mas que dar\u00e1 frutos e que vai impactar a minha vida para melhor. Mudar a minha leitura do que estou a ver, torna a pr\u00f3pria vida diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estou prestes a ter uma conversa dif\u00edcil com algu\u00e9m, \u00e9 normal que a ansiedade me assalte, e \u00e0s vezes de forma at\u00e9 descontrolada. A maneira que tenho para lidar com isso \u00e9 perguntar-me se gosto daquela pessoa ou, se essa pessoa me \u00e9 indiferente (sem ser desrespeitoso). No caso de gostar dessa pessoa, enquadro a conversa na liga\u00e7\u00e3o que tenho com ela e de como gosto dela e de como quero o seu melhor. Despois de estabelecer os limites emocionais, fico com a certeza de que vou ser capaz de entregar tudo aquilo que quero dizer e do quanto, o seu bem-estar \u00e9 importante para mim, depois desta conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso em que a pessoa me \u00e9 indiferente, n\u00e3o me agarro ao relacionamento, mas agarro-me \u00e1quilo que sou como pessoa. Aos meus valores, de respeito pelo outro e \u00e0 eleg\u00e2ncia com que tento colocar em todas as intera\u00e7\u00f5es que tenho com todas as pessoas. Coloco o enfoque no que quero dizer e na forma educada como o quero fazer. Mesmo admitindo que pode correr menos bem, n\u00e3o ganho a tal ansiedade por saber que estarei a ser aut\u00eantico e que o que tenho para dizer a essa pessoa precisa mesmo de ser dito, sob pena de ser algo que at\u00e9 se pode virar contra mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora fa\u00e7am este exerc\u00edcio. Troquem essa pessoa pela vossa vida que est\u00e1 para chegar. Ou seja, o t\u00e3o temido futuro. Apliquem a mesma f\u00f3rmula: Se gostam de viver a vida, quer isso dizer que o que vir\u00e1 a\u00ed ser\u00e1, na sua maior parte, prazeroso. Se gostam de estar vivos \u00e9 porque compensa. \u00c9 porque tem mais coisas boas do que m\u00e1s. Concentrem-se na rela\u00e7\u00e3o de amantes que t\u00eam com a vida. Foquem-se na conversa que precisam de ter com o vosso Eu no futuro. E digam-lhe que vai correr tudo bem como tem corrido at\u00e9 agora. Muitas das vezes, e com a perigosa liberdade que temos de cometer o suic\u00eddio, dizemos que n\u00e3o gostamos da vida apenas e t\u00e3o s\u00f3, porque ela n\u00e3o aconteceu como quer\u00edamos. E &#8220;amarramos o burrinho&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o gostamos da vida que ainda est\u00e1 para vir, que \u00e9 a segunda hip\u00f3tese, porque at\u00e9 agora tudo \u00e9 pior do que melhor, e antes de se magoarem com inten\u00e7\u00e3o, concentrem-se em voc\u00eas. Nos vossos alicerces e, principalmente fa\u00e7am esta pergunta: Quanto do que me aconteceu teve l\u00e1 o meu dedinho? Quanto do que me aconteceu, que n\u00e3o gostei mesmo nada, n\u00e3o foi da minha responsabilidade. E voltamos ao tema de mudar o que pode ser mudado. Refundar os nossos valores. Refundar as nossas rotinas e rituais, pode ajudar. \u00c9 que, como eu disse, este desafio n\u00e3o \u00e9 &#8220;pera doce&#8221;. E o facto de ancorarmos o que queremos fazer a algumas muletas n\u00e3o diminui rigorosamente em nada o nosso m\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudar de cidade, por exemplo, e ter a for\u00e7a de refundar os nossos valores. Ir para um lugar onde nos valorizam mais. N\u00e3o \u00e9 mudar aquilo que somos, mas tamb\u00e9m conta. Escrever o que n\u00e3o tem resultado na intera\u00e7\u00e3o com os outros. Pedir ajuda \u00e0 psican\u00e1lise, aos livros, at\u00e9 \u00e0s conversas com alguns estranhos a que possamos &#8220;deitar a m\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O que eu sei \u00e9 que, a mesma f\u00f3rmula aplicada aos mesmos ingredientes trar\u00e1 o mesmo resultado. Os ingredientes somos n\u00f3s. Teremos de saber lidar melhor com esta carca\u00e7a. Mas as f\u00f3rmulas s\u00e3o m\u00faltiplas e podemos lhes mexer. E nesse reformular \u00e9 que vemos a vida a nos acontecer diferente. E se estamos com a ideia de que a vida est\u00e1 a saber mal, ent\u00e3o, quando ela acontece diferente, j\u00e1 \u00e9 uma coisa boa. Mas temos de nos olhar verdadeiramente ao espelho para que, sem nada escondido, operar as mudan\u00e7as de que precisamos. Uma de cada vez, nada de muito avassalador, mas em cada passo, um passo firme e decidido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que eu quero dizer com isto?<\/p>\n\n\n\n<p>Que a vida desenhada, apesar de todos o fazermos, n\u00e3o tem piada nenhuma quando queremos \u00e0 for\u00e7a acreditar mais no desenho do que na pr\u00f3pria vida real que nos est\u00e1 a acontecer. E o Lar, \u00e9 um dos exemplos mais sintom\u00e1ticos disso mesmo. Sonhamos e romanceamos a vida com um outro ser. Romanceamos em rela\u00e7\u00e3o aos filhos que vamos ter com essa pessoa escolhida por n\u00f3s. Romanceamos com a din\u00e2mica que o nosso lar vai ter NAQUELA casa espec\u00edfica com que sonh\u00e1mos. E esquecemo-nos que o mais importante \u00e9 aceitar a diversidade que, com toda a certeza, a vida nos vai brindar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026 e a tudo o que me acontece de menos bom, eu dou uns dias de luto. N\u00e3o reajo logo, porque preciso do luto para voltar a ser eu. Voltar a ser aquele que agora vai reagir perante o que aconteceu. E findo o luto, orquestro uma resposta \u00e0 luz de todos os meus valores e volto a perguntar se alguma parte do que me aconteceu foi da minha responsabilidade. Nesse caso, \u00e9 hora de aprender mais um pouco\u2026 At\u00e9 porque, a probabilidade de coisas parecidas nos voltarem a acontecer \u00e9 enorme.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprender com as nossas distra\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental para: um, aceitar que \u00e9 normal errar; dois n\u00e3o sermos duros de mais quando voltar a acontecer. N\u00e3o nos podemos deixar de amar s\u00f3 porque somos (mesmo) pequenos perante a complexidade da vida. N\u00e3o aprendemos \u00e0 primeira, aprendemos \u00e0 segunda, ou num outro n\u00famero qualquer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O meu maior poder\u2026 \u00e9 que desejo mesmo fazer melhor a cada dia que passa e que os trope\u00e7\u00f5es fazem parte da vida e n\u00e3o de um qualquer desenho que fiz a pensar nela.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O caminho para nos mantermos jovens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, talvez seja mesmo aquele que se trilhe com eterna jovialidade. Estarmos sempre a sentir, a cada dia, a vida a iniciar-se. A vida a renovar-se. Aquele olhar de eternos aprendizes. Este \u00e9 um olhar reconhec\u00edvel por todos em qualquer parte do mundo, em qualquer fase da vida e em qualquer gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 alguma vez habitou este planeta. Talvez seja esta a defini\u00e7\u00e3o das pessoas que, ao nosso olhar de espanto, s\u00e3o eternamente jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de ser um garimpeiro das coisas simples e poderosas. Fascina-me o poder transformador de uma frase f\u00e1cil, curta, direta, mas profunda. Aquelas frases que nos tocam de uma maneira muito pr\u00f3pria e avassaladora. Frases que nos salvam no exato momento em que precisamos de ser salvos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho para mim que a vida \u00e9 enorme, complexa e muito acima das minhas possibilidades e capacidades. Mas tamb\u00e9m nasci com a marca daqueles que acham que tudo \u00e9 poss\u00edvel. Adoro o prov\u00e9rbio: &#8220;<strong>Um elefante come-se \u00e0s dentadinhas<\/strong>&#8220;, que uma amiga minha costuma dizer ami\u00fade. E \u00e9 por isso que gosto de pensar que a vida est\u00e1 toda contida em cada dia que passa. Que se renova a cada sono que fa\u00e7o. Que sou outro em cada acordar\u2026 um novo ser que parte para a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Penso que o que mais gostamos, como ser humano, \u00e9 de controlar. Esta \u00e9 a nossa &#8220;berma da estrada&#8221;. 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