{"id":141,"date":"2025-09-26T00:17:32","date_gmt":"2025-09-26T00:17:32","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=141"},"modified":"2025-12-23T00:22:09","modified_gmt":"2025-12-23T00:22:09","slug":"avos-uma-paisagem-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=141","title":{"rendered":"Av\u00f3s, uma paisagem para sempre!"},"content":{"rendered":"\n<p>Tenho para mim, como uma das poucas verdades absolutas, que nos influenciamos uns aos outros de forma permanente e das mais variadas formas incr\u00edveis. Existe uma frase com a qual tenho vindo a conviver cada vez melhor: &#8220;Somos aquilo que comemos&#8221;, frase atribu\u00edda ao m\u00e9dico grego Hip\u00f3crates. Eu tomo a liberdade de me apropriar da sua ideia fundamental e escrever: Somos paisagem uns dos outros. Nessa linha de pensarmos: se a boa alimenta\u00e7\u00e3o dita bem-estar, as boas paisagens a que estaremos submetidos ditar\u00e1 tamb\u00e9m o nosso bem-estar e bom crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Paisagens que se comprometem umas com as outras. Que se influenciam mutuamente, num crescimento de &#8220;m\u00e3o dada&#8221;, cujos limites de influ\u00eancia rec\u00edproca deixam de se poder rastrear a montante. Sabemos que nunca mais seremos os mesmos depois de estarmos com aquela pessoa ou grupo de pessoas. Mas n\u00e3o conseguimos muito bem determinar que parte \u00e9 que nos deixaram e que parte de n\u00f3s ficou. Um territ\u00f3rio de uma certa aus\u00eancia da ci\u00eancia para nos ajudar. A ci\u00eancia exige provas, e n\u00f3s s\u00f3 temos a confian\u00e7a de que assim \u00e9, mesmo sem recorrermos \u00e0 f\u00e9 religiosa. Simplesmente sentimos que assim \u00e9, e acreditamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito do que somos forma-se e embeleza-se por osmose com as v\u00e1rias vidas em que tocamos. Com toda a certeza um fen\u00f3meno f\u00edsico, porque envolve todos os nossos sentidos. Mas n\u00e3o se pense que \u00e0 dist\u00e2ncia o mesmo processo se d\u00e1 com igual for\u00e7a e vigor! Usamos e idolatramos cada vez mais estes meios tecnol\u00f3gicos, mas n\u00e3o nos enganemos quanto \u00e0 pouca profundidade a que v\u00e3o. \u00c9 que, num ambiente tecnol\u00f3gico e distante fisicamente, nem todos os nossos sentidos participam e os que participam n\u00e3o o fazem de forma t\u00e3o visceral.<\/p>\n\n\n\n<p>E sem a presen\u00e7a f\u00edsica, que acrescenta qualidade, a influ\u00eancia da paisagem de que vos falei atr\u00e1s, ficar\u00e1 muito aqu\u00e9m daquilo que achamos que poder\u00e1 estar a acontecer. Cometemos este erro de percep\u00e7\u00e3o, porque foi assim que nos aconteceu a n\u00f3s, aos nossos pais e aos nossos av\u00f3s. Viv\u00edamos em proximidade. Hoje, somos peritos nas desculpas interiores e mestres para encontrar &#8220;suced\u00e2neos&#8221; de apoio \u00e0s nossas mais inc\u00f3modas decis\u00f5es. Para uma tomada de decis\u00e3o, cujo resultado nos interessa levar numa determinada dire\u00e7\u00e3o, damos as nossas melhores raz\u00f5es, e at\u00e9 fundamentamos &#8220;cientificamente&#8221;, para que tudo pare\u00e7a equivalente.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos um pa\u00eds de emigrantes, e por isso mesmo Mestres nesta arte de tornar todas as realidades, todas as nossas escolhas, equivalentes. Justificamos, por todos os meios, a necessidade de irmos escondendo de n\u00f3s pr\u00f3prios as consequ\u00eancias para quem nos \u00e9 pr\u00f3ximo e que fica privado da nossa presen\u00e7a. E \u00e9 precisa muita coragem para olharmos verdadeiramente para as diferen\u00e7as, para as suas consequ\u00eancias e, no fim, aceitarmos ou n\u00e3o o resultado. Mas, acima de tudo, se este resultado estimado adere ou n\u00e3o aos nossos valores e princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>Filhos que v\u00e3o trabalhar para longe ignorando que \u00e9 l\u00e1, se tudo correr como planeado, que v\u00e3o ter os seus filhos. Se tudo correr de fei\u00e7\u00e3o, v\u00e3o acontecer vidas de netos e de av\u00f3s separadas pela dist\u00e2ncia. A conviv\u00eancia n\u00e3o vai existir. Os abra\u00e7os n\u00e3o se v\u00e3o multiplicar e as paisagens n\u00e3o se v\u00e3o influenciar mutuamente. Isto \u00e9 um facto. \u00c9 exatamente assim que vai acontecer. E n\u00f3s, do alto da nossa sabedoria come\u00e7amos com os suced\u00e2neos: &#8220;estaremos longe, mas com as chamadas de v\u00eddeo di\u00e1rias, saber\u00e1 ao mesmo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o e n\u00e3o, mil vezes n\u00e3o. Ningu\u00e9m morre, \u00e9 um facto, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. E as perguntas que aleijam s\u00e3o estas: &#8220;E queremos que os nossos filhos cres\u00e7am longe dos seus av\u00f3s? Indo procurar melhor vida (monet\u00e1ria) em que estado ficar\u00e1 o bar\u00f3metro de melhoria daquela vida que verdadeiramente interessa, a do crescimento saud\u00e1vel e em bem-estar?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais dinheiro, j\u00e1 todos o sabemos, nem sempre corresponde a uma inevit\u00e1vel vida melhor. Na esmagadora maioria dos casos ao facto de ganharmos mais corresponder\u00e1 a gastarmos mais. O valor da poupan\u00e7a de longo prazo, no fim do dia, mant\u00e9m-se igual. Poupamos pouco. E l\u00e1 se vai aquela rom\u00e2ntica ideia de emigrar 5 anos e depois voltar \u00e0 p\u00e1tria, e usar desse empurr\u00e3ozinho para que a vida desafogue e fiquemos com mais tempo para os nossos filhos e para a vida em fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se aplica quando mudamos de emprego. Vamos ganhar mais. Vamos trabalhar mais. Vamos estar mais intensos e agastados. Vamos perder exatamente na bolsa de horas de qualidade. E quando chegamos a casa, estamos l\u00e1, mas sem energia para mais nada. N\u00e3o nos enganemos em rela\u00e7\u00e3o aos custos de termos mais bens materiais ou imateriais. Viajar tem uma boa desculpa: abre horizontes. Mas a que custo trabalhamos mais para ter dinheiro para viajar. Estaremos a trocar 11 meses de n\u00e3o presen\u00e7a por um m\u00eas de viagens para pa\u00edses que v\u00e3o abrir horizontes aos nossos filhos?!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me interessa julgar no sentido em que os pensamentos de cada leitor estejam j\u00e1 a esvoa\u00e7ar, mas quero t\u00e3o s\u00f3 iluminar caminhos. Esclarecer que em tudo na vida temos um custo associado. E \u00e9 preciso enfrent\u00e1-lo sob pena de ficarmos mais tarde doentes na surpresa das consequ\u00eancias n\u00e3o acauteladas. N\u00e3o previstas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem sempre ser\u00e1 poss\u00edvel, mas ganhamos todos, quando os nossos filhos podem crescer com a presen\u00e7a frequente dos av\u00f3s. E mais engra\u00e7ado de se pensar, estaremos j\u00e1 a trabalhar para que os nossos futuros netos estejam tamb\u00e9m a ficar &#8220;condicionados&#8221; por esta maravilhosa forma de gostar de crescer: Aquela que recorre a toda a gente \u00e0 volta. &#8220;Que o amor nos salve&#8221;, diz o poeta.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o que av\u00f3s e netos desenvolvem n\u00e3o se compara a nenhuma outra. E \u00e9 por isso que considero que a aus\u00eancia tem sempre consequ\u00eancias. Esta rela\u00e7\u00e3o de intimidades secretas, de confid\u00eancias sem fim e de c\u00f3digos de comunica\u00e7\u00e3o que ultrapassam e fintam o entendimento de quem quer que assista, s\u00e3o colo para os pequenos grandes car\u00e1cteres em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos, como pais, cometer erros na educa\u00e7\u00e3o dos nossos filhos. Vamos ter de, ainda que a doer horrores, puxar-lhes as orelhas at\u00e9 pararem de lhes doer tamb\u00e9m, por entorpecimento. Vamos sentir afastamentos aqui e ali, mais ou menos preocupantes. E nesses retiros que os nossos filhos fazem para entenderem o que sentem e o que lhes est\u00e1 a acontecer, rezamos para que sejam bem acompanhados por um dos av\u00f3s ou por um amigo real e decente. \u00c9 que em alternativa, arriscamos que esse vazio seja preenchido pelas redes sociais, onde &#8220;os outros s\u00e3o sempre melhores que os nossos filhos&#8221; e t\u00eam vidas infinitamente mais perfeitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem os av\u00f3s por perto, mais dif\u00edcil se torna que esses seus retiros (no caso dos adultos, os retiros \u00e9 onde nos reencontramos) n\u00e3o culminem na constru\u00e7\u00e3o de mundos \u00e0 parte e muito desfasados da realidade da vida dita normal, e que ditem rea\u00e7\u00f5es muito adversas, culminando em viv\u00eancias do Lar muito dif\u00edceis de gerir.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando olhamos para o Lar como a centralidade das suas vidas (e j\u00e1 agora das nossas), entendemos que todos devem ser chamados a participar. Mesmo que n\u00e3o concordemos totalmente com a forma como os av\u00f3s educam os nossos filhos, devemos deixar a porta aberta para a sua participa\u00e7\u00e3o activa. Todos os seres, mesmo de palmo e meio, sabem retirar dos adultos que os rodeiam aquilo que mais lhe interessa. Aquilo que mais admiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Tome-se um casal por exemplo. Era muito estranho que pai e m\u00e3e fossem iguais. Que pensassem da mesma maneira. Que tomassem as mesmas decis\u00f5es em iguais circunst\u00e2ncias. Isso sim seria esquisito! Uma esp\u00e9cie de cooperativa de educa\u00e7\u00e3o, fundada e gerida por duas pessoas, os pais, em que as decis\u00f5es sobre a educa\u00e7\u00e3o e a rea\u00e7\u00e3o di\u00e1ria &#8220;\u00e0s provoca\u00e7\u00f5es&#8221; da vida, fossem tomadas sempre por unanimidade. O que \u00e9 natural e enriquecedor, \u00e9 que cada pessoa que educa naquele Lar, o possa fazer com o seu cunho. Para que os filhos usufruam dessa diversidade de pensamentos e formas de estar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o concordo por nada, com o &#8220;alisamento&#8221; da educa\u00e7\u00e3o. Masculino e feminino d\u00e3o coisas diferentes aos filhos, e isto desde uma imemor\u00e1vel ancestralidade biol\u00f3gica. Claro que em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s decis\u00f5es mais importantes e que possam impactar MUITO nas suas vidas, dever\u00e1 discutir-se antes e estar com uma posi\u00e7\u00e3o concertada. Eles tamb\u00e9m s\u00e3o mestres em esgueirar-se para perto do progenitor que mais pr\u00f3ximo estar\u00e1 de lhes dizer &#8220;sim&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Estar por perto j\u00e1 \u00e9 participar. Ser ref\u00fagio j\u00e1 \u00e9 educar.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem-hajam os av\u00f3s que insistem e n\u00e3o desistem. Afinal, ali est\u00e3o uns seres cujo parentesco do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 para a vida. Ser\u00e3o sempre av\u00f3s e netos, aconte\u00e7a o que acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho para mim, como uma das poucas verdades absolutas, que nos influenciamos uns aos outros de forma permanente e das mais variadas formas incr\u00edveis. Existe uma frase com a qual tenho vindo a conviver cada vez melhor: &#8220;Somos aquilo que comemos&#8221;, frase atribu\u00edda ao m\u00e9dico grego Hip\u00f3crates. 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