{"id":147,"date":"2025-11-28T00:19:46","date_gmt":"2025-11-28T00:19:46","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=147"},"modified":"2025-12-23T00:21:24","modified_gmt":"2025-12-23T00:21:24","slug":"a-crianca-nao-e-um-adulto-em-miniatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=147","title":{"rendered":"A crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um adulto em miniatura."},"content":{"rendered":"\n<p>Sempre vivi, e ainda vivo, fascinado com a possibilidade de descobrir as tolices da vida. Aquelas ideias que damos como certas e que nos moldam a nossa forma de estar neste mundo, mas que s\u00e3o uma perfeita tolice. Coisas que, embora n\u00e3o fa\u00e7am sentido, ajudamos a perpetuar.<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa conduta, ao insistir nessas ideias, ajudar\u00e1 de forma permanente e constante a disseminar e a dar for\u00e7a a algo que, se pensarmos melhor, n\u00e3o concordamos e at\u00e9 desconfiamos que nos t\u00eam atrapalhado a vivermos a vida de acordo com os nossos princ\u00edpios e valores.<\/p>\n\n\n\n<p>E que ideia tola \u00e9 essa, que vos trago hoje?<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria de n\u00f3s ainda pensa que somos uma vers\u00e3o adulta daquela crian\u00e7a que fomos na altura em que essa hist\u00f3ria, a nossa hist\u00f3ria, se desenrolou. Vivemos convictos de que ainda somos essa crian\u00e7a, num modelo melhorado pelos anos e pelas experi\u00eancias por que pass\u00e1mos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta linha de pensamento, quando atingirmos os 100 anos de idade, seremos S\u00e1bios. Mas est\u00e1 a escapar-nos, porque nos conv\u00e9m, que as mudan\u00e7as nem sempre s\u00e3o para melhor. Mudan\u00e7a, claramente, n\u00e3o garante melhoria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Piaget disse<\/strong>&nbsp;que uma das coisas que mais o intrigava, antes de ter iniciado as suas investiga\u00e7\u00f5es, era a ideia vulgarmente distribu\u00edda, de que uma crian\u00e7a \u00e9 um adulto em miniatura. Esta ideia n\u00e3o poderia estar mais longe do que se passa na nossa evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n\n\n\n<p>Arrisco dizer que a evolu\u00e7\u00e3o do ser humano \u00e9 bastante percept\u00edvel aos nossos olhos. Para al\u00e9m de termos a ajuda da Hist\u00f3ria, que guarda e nos relata os eventos mais importantes, existe uma outra percep\u00e7\u00e3o que nos acontece: Vemos os outros, os que nos rodeiam, a envelhecerem. E isso, essa observa\u00e7\u00e3o, coloca-nos numa zona de conforto \u2013 &#8220;Ent\u00e3o a vida que dizem t\u00e3o complexa, afinal \u00e9 isto?!&#8221;, numa f\u00f3rmula que assumimos: Nascemos-evelhecemos-morremos.<\/p>\n\n\n\n<p>O que a maioria de n\u00f3s n\u00e3o possui, e que nos daria tanto jeito, \u00e9 de um historiador privado. Uma pessoa, dedicada \u00e0 nossa hist\u00f3ria pessoal, e que nos escrevesse, em jeito de biografia, aquilo porque pass\u00e1mos ao longos dos tempos at\u00e9 sermos adultos. Ainda faltaria o relato emocional a cada instante, mas, digo-vos, resolveria muitos dos nossos problemas e seria de uma utilidade tremenda.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem alguns iluminados que escreveram e mant\u00eam, um di\u00e1rio de escrita permanente e que lhes permite guardar aquilo que s\u00e3o em cada fase de vida. Os di\u00e1rios s\u00e3o um testemunho da nossa evolu\u00e7\u00e3o como ser humano interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas porque estou eu a demorar-me tanto nesta introdu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que cada um de n\u00f3s est\u00e1 mesmo convencido de que \u00e9 uma vers\u00e3o evolu\u00edda daquela crian\u00e7a que foi. Mas a realidade, infelizmente, anda longe desta ternurenta sensa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 j\u00e1 n\u00e3o somos aquela crian\u00e7a, como n\u00e3o trouxemos connosco quase nada dessa altura a n\u00e3o ser uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias e de aprendizagens ao longo da vida. A forma como pens\u00e1vamos. A forma como v\u00edamos o mundo. A forma como nos relacion\u00e1vamos com esse mundo e com os outros da nossa esp\u00e9cie, deixou de existir. Mesmo que quis\u00e9ssemos n\u00e3o o conseguir\u00edamos recuperar.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de crescimento do ser humano \u00e9, infelizmente, muito mais parecido com o de uma \u00e1rvore de folha caduca: O velho d\u00e1 lugar ao novo, deixando de existir. Estes dois seres, o adulto e a crian\u00e7a, v\u00e3o habitar em dois lugares distintos e estanques. Partilham o mesmo nome e documentos pessoais, mas mais nada. O que nos daria jeito, e felizes daqueles que o conseguem, \u00e9 que cresc\u00eassemos deitando fora o que n\u00e3o interessa, mas ficando com o que j\u00e1 \u00e9 bom e que nos promove o bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Este seria um superpoder<\/strong>: o de termos a capacidade de escolher manter o que j\u00e1 temos de bom e que nos ir\u00e1 ser \u00fatil pela vida fora. E atirar borda fora aquilo que nos est\u00e1 a atrasar. O que n\u00e3o interessa trocar\u00edamos por algo melhor. Por exemplo: quem me dera abra\u00e7ar os projetos novos com aquela for\u00e7a de crian\u00e7a em que tudo \u00e9 poss\u00edvel. Uma criatividade inconsciente que vai buscar a for\u00e7a ao simples facto de acreditarmos, verdadeiramente, que tudo \u00e9 poss\u00edvel at\u00e9 prova em contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que n\u00f3s fazemos no processo de crescimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos adquirir novas formas de estar para podermos sobreviver \u00e0 vida e aos seus desafios, que tanto nos assustam. Ferramentas adquiridas que nos pseudo-protegem de uma vida apresentada como dif\u00edcil. Porque n\u00f3s, que blasf\u00e9mia, deixamos de querer viver como crian\u00e7as e desejamos apressadamente a fase adulta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, j\u00e1 adultos, n\u00e3o somos nada apreciados por termos perdido a capacidade de imagina\u00e7\u00e3o. De termos deixado de aceitar as coisas como elas s\u00e3o. De termos deixado de viver com uma alegria simpl\u00f3ria para que abra\u00e7\u00e1ssemos a complexidade da vida adulta. At\u00e9 se divorciam de n\u00f3s, por n\u00e3o levarmos a vida com descontra\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos na ilus\u00e3o de sermos colecionadores, a\u00e7abarcando cada vez mais habilidades, mas seremos mais uma esp\u00e9cie de substituidores: ficamos com uma coisa por troca de outra. N\u00e3o seremos de todo acumuladores. Esses, mal ou bem, ainda mant\u00eam tudo, basta s\u00f3 procurar nesse c\u00e9rebro imenso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltando a minha aten\u00e7\u00e3o para esse per\u00edodo \u00e1ureo\u2026 ser-se crian\u00e7a \u00e9 sa\u00fade nas suas v\u00e1rias dimens\u00f5es. Um caminho por desbravar. Uma condi\u00e7\u00e3o de infinitas possibilidades. Ainda hoje procuro saber quais as coisas que eu, agora adulto, e eu, quando era crian\u00e7a, partilhamos. Quase que uma obsess\u00e3o para encontrar os restos ainda vivos em mim, daquela crian\u00e7a que fui. Um garimpeiro \u00e0 procura de encontrar a express\u00e3o: &#8220;ora aqui est\u00e1!&#8221;, numa clara alus\u00e3o ao que tinha restado dessa \u00e9poca dourada da minha exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje penso que s\u00f3 dizemos que a nossa exist\u00eancia como adultos tem coisas muito boas, porque n\u00e3o conseguimos se quer nos aproximar da recorda\u00e7\u00e3o do que foi viver em estado de crian\u00e7a. N\u00e3o nos lembramos e os nossos filhos, coitados, n\u00e3o nos sabem explicar devidamente, tamb\u00e9m eles, por falta de termo de compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurramos as crian\u00e7as para aprenderem coisas novas, cujo \u00fanico intuito \u00e9 o de sobreviver no mundo adulto. N\u00e3o estamos preocupados em respeitar como eles s\u00e3o. Nem t\u00e3o pouco interessados em avaliar se o que propomos \u00e9 de facto um ganho para as suas vidas. Estamos sempre a actualizar-lhes as lentes, para que possam ver melhor. A bem dizer, a ver melhor no mundo dos adultos. Ali\u00e1s, quantos de n\u00f3s, n\u00e3o foram j\u00e1 hospitalizados por viverem ainda acrian\u00e7ados, ou seja, por algu\u00e9m se ter esquecido de lhes trocar as lentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em que dimens\u00f5es podemos tentar perceber as diferen\u00e7as que me levam a afirmar que uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um adulto-em-ponto-pequeno? Decidi pedir ajuda \u00e0quilo que ser\u00e3o os maiores desafios da idade adulta, e olhar para as crian\u00e7as na sua forma peculiar de ver o mundo e esses mesmos desafios.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem estar obcecado com as compara\u00e7\u00f5es, deixo que cada um dos leitores sinta essas diferen\u00e7as:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na forma de crescer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a cresce aos solavancos. Nada na sua vida inicial \u00e9 linear. Nem f\u00edsica nem cognitivamente. E isso traz alguma ansiedade natural da imprevisibilidade a que est\u00e1 votada, e acrescento que manda muito pouco no ambiente \u00e0 sua volta. E, por essa raz\u00e3o, nada na sua vida pode ser muito planeado, dada a n\u00e3o linearidade de todo o processo de crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O que passa por ela (crian\u00e7a), a cada ano, n\u00e3o s\u00e3o 365 dias ou uma ruga aqui e ali. Uma prega de gordura que passou a existir. Ou at\u00e9 mesmo o sentimento de uma redu\u00e7\u00e3o constante das capacidades f\u00edsicas. O que passa por ela (crian\u00e7a), s\u00e3o uma s\u00e9rie de altera\u00e7\u00f5es que mais parecem estar de acordo com a viv\u00eancia de vidas paralelas.<\/p>\n\n\n\n<p>O carrossel de emo\u00e7\u00f5es que v\u00e3o e v\u00eam, onde quase nada pode ser feito pela pr\u00f3pria crian\u00e7a para as evitar, marcam um ritmo de instabilidade emocional, que poucos adultos conseguiriam gerir adequadamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Manter-se esse ser num corpo em constante mudan\u00e7a \u00e9, de facto, pedir demasiado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na forma de pensar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a vive em permanente objec\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia. Entendendo-se, como o direito que temos de recusar acatar uma ordem ou o cumprimento de uma lei, sempre que a achamos imoral, injusta ou inaceit\u00e1vel. A crian\u00e7a vive segundo o primado da consci\u00eancia individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Entender isto \u00e9 entender que a ingenuidade n\u00e3o \u00e9 um defeito \u00e9 uma virtude. \u00c9 algo que tem de ser acolhido. Quando muito, traduzido para &#8220;adultez&#8221;, neste sentido de ajudar a crian\u00e7a a sobreviver neste mundo de adultos.<\/p>\n\n\n\n<p>Querer que as nossas crian\u00e7as sobrevivam da melhor forma e sem traumas, \u00e9 dizer-lhes que n\u00e3o est\u00e3o erradas. Antes pelo contr\u00e1rio. Existe um poder enorme na autoestima da crian\u00e7a quando dizemos que concordamos com ela, mas \u00e9 preciso saber viver num mundo que n\u00e3o \u00e9 o dela. Mostrando-lhe a met\u00e1fora da necessidade de sabermos mais do que uma l\u00edngua, para nos entendermos com os outros povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entender os outros n\u00e3o \u00e9 convertermo-nos nos outros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na forma de aprender<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o poucas as coisas com que nascemos que nos permitam sobreviver ao mundo actual. Algumas delas est\u00e3o ainda relacionadas com a forma como os nossos ancestrais viviam e, definitivamente, tudo ferramentas de sobreviv\u00eancia ligadas \u00e0 natureza. Algo de que j\u00e1 n\u00e3o precisamos tanto&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo das crian\u00e7as tudo \u00e9 poss\u00edvel. Se, de forma rom\u00e2ntica, isso at\u00e9 pode soar bem, na vida real isso representa um risco real \u00e0 sua integridade f\u00edsica, psicol\u00f3gica e emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>A melhor forma n\u00e3o ser\u00e1 coloc\u00e1-los a ler livros ou ver filmes, sobre todos os riscos poss\u00edveis e imagin\u00e1rios. A melhor forma de lhes ensinar \u00e9 faz\u00ea-los passar pelas experi\u00eancias, de uma forma gradual, claro, para que aprendam, de prefer\u00eancia \u00e0 primeira, sobre cada uma das suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Arriscar de forma descontrolada n\u00e3o \u00e9 dem\u00eancia\u2026 \u00e9 falta de prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma enorme diferen\u00e7a entre saber como se faz e saber fazer. \u00c9 a grande luta entre a teoria e a pr\u00e1tica. A nossa ci\u00eancia est\u00e1 rodeada de coisas que em teoria funcionam. A crian\u00e7a n\u00e3o se realiza pela simples leitura de um livro. A\u00ed, reina a imagina\u00e7\u00e3o. L\u00ea hist\u00f3rias e deixa-se levar. A crian\u00e7a sente que precisa fazer, e n\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 certa!<\/p>\n\n\n\n<p>Considero que a corrida mais importante da aprendizagem \u00e9 aquela que estabelece os limites entre o mundo real e o imaginado. Ambos t\u00eam de existir, mas n\u00e3o se podem confundir. Um puxa pelo outro, mas n\u00e3o se podem atropelar. E principalmente, n\u00e3o podem colocar em causa a integridade f\u00edsica da crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a para aprender de forma satisfat\u00f3ria precisa de envolver o corpo todo na aprendizagem. E saber fazer algo \u00e9 experienciar, experimentar e operacionalizar a viv\u00eancia. S\u00f3 ent\u00e3o a crian\u00e7a verifica os seus limites e destr\u00f3i a \u00faltima sombra da aprendizagem, os medos sobre o mundo que a rodeia.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a, para aprender e sentir-se satisfeita com o que aprende, precisa de chegar ao ponto em que j\u00e1 sabe que os fantasmas desaparecem sempre que se acende a luz, no entanto acredita neles. Para a crian\u00e7a os fantasmas apenas vivem numa outra dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na forma de olhar a morte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A morte, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 o fim da vida biol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a n\u00e3o v\u00ea a morte, sente-a. N\u00e3o lhe chama morte, chama-lhe finitude. O oposto da vida n\u00e3o \u00e9 a morte, \u00e9 a finitude. Vida \u00e9 movimento e tudo a acontecer. Finito \u00e9 paragem total. Bloqueio. Nada a acontecer. A morte \u00e9 um acidente de percurso, o instante a partir do qual, se d\u00e1 a finitude.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a vive entre infinito e finito e n\u00e3o entre a vida e a morte. E como s\u00e3o tantas as coisas que ainda n\u00e3o entende, \u00e9 muito importante explicar todos &#8220;os finitos&#8221; da vida. Explicar-lhe as raz\u00f5es para que algo n\u00e3o seja poss\u00edvel, \u00e9 promover o seu crescer saud\u00e1vel. A forma da crian\u00e7a passar de um infinito para um finito \u00e9 atrav\u00e9s de uma explica\u00e7\u00e3o ou viv\u00eancia, e n\u00e3o atrav\u00e9s de um redondo e seco N\u00c3O.<\/p>\n\n\n\n<p>Os adultos, que n\u00e3o abundam em tempo, a sua (actual) maior escassez, optam por recuperar algum desse tempo sacrificando as explica\u00e7\u00f5es demoradas \u00e0s crian\u00e7as, abusando dos secos &#8220;n\u00e3o`s&#8221; e &#8220;sim`s&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a crian\u00e7a, a morte est\u00e1 mais ligada \u00e0 impossibilidade de fazer algo que quer fazer, como por exemplo, jogar mais \u00e0 bola com aquele av\u00f4, que j\u00e1 faleceu. A tal finitude. O verdadeiro oposto \u00e0 vida. O Adulto sente o abismo de deixar de estar vivo, mesmo que admita que j\u00e1 n\u00e3o estava verdadeiramente a viver.<\/p>\n\n\n\n<p>E sempre que n\u00e3o deixam a crian\u00e7a viver como sente que a vida deve ser vivida, e sem explica\u00e7\u00e3o alguma ou plaus\u00edvel, as suas emo\u00e7\u00f5es v\u00e3o para uma zona parecida, mas n\u00e3o igual, de como os adultos olham a morte. Uma emo\u00e7\u00e3o de aperto inexplic\u00e1vel. E n\u00f3s ainda nos admiramos da sua rea\u00e7\u00e3o. Do seu exagero. Da sua intransig\u00eancia perante o que sente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para uma crian\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 imposs\u00edveis. E a finitude que lhe \u00e9 muitas das vezes colocada artificialmente por quem manda\u2026 pais, professores, ou at\u00e9 pelas leis da f\u00edsica, ela sente-a como exterior a si. Sem a sua vontade declarada. Sem a sua permiss\u00e3o ou autolimita\u00e7\u00e3o. E, ao n\u00e3o ser devidamente explicada, assim que se sente sem supervis\u00e3o vai tent\u00e1-la de novo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na forma de amar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a est\u00e1 predisposta para amar. A crian\u00e7a precisa e quer amar tudo o que a rodeia. \u00c9 assim que valida o seu bem-estar. Se ama \u00e9 porque se sente bem. Se n\u00e3o ama, n\u00e3o quer ficar ali. A sua op\u00e7\u00e3o natural \u00e9 ir-se embora. Aos olhos dos adultos, aquela crian\u00e7a \u00e9 cruel e malcomportada. Quantas j\u00e1 foram as vezes de n\u00e3o querermos aturar aquela tia &#8220;chata&#8221; e distante, mas fic\u00e1mos. E fic\u00e1mos at\u00e9 ao fim.<\/p>\n\n\n\n<p>As grada\u00e7\u00f5es do &#8220;gostar&#8221; n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 muito dispon\u00edveis na crian\u00e7a. A realidade \u00e9 que n\u00e3o sabe responder \u00e0quela injusta pergunta: &#8220;gostas mais do av\u00f4 ou da av\u00f3?&#8221;. Na sua s\u00e1bia resposta interior, a crian\u00e7a sabe que ambos t\u00eam coisas boas, de que aproveita, e por isso, n\u00e3o consegue hierarquizar. Amar na diferen\u00e7a n\u00e3o se ensina, j\u00e1 est\u00e1 dentro da crian\u00e7a. E os adultos, pelo exemplo, acabam por for\u00e7ar o desaparecimento dessa sabedoria. Pelo exemplo for\u00e7amos a escolha entre este e aquele amigo. Entre o mar e o campo. Entre o branco e o azul.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a quando olha quer tudo. Esse tudo que a vai encher de vida. \u00c9 sedenta de usar tudo para ficar grande e por isso aceita tudo como seu. Amar tudo e todos n\u00e3o me parece algo que se deva querer erradicar.<\/p>\n\n\n\n<p>Amar tudo e todos \u00e9 o caminho para a compaix\u00e3o e toler\u00e2ncia plenas, planeta inclu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 quando olhamos para os nossos com este cuidado e com esta certeza de que n\u00e3o s\u00e3o, e ainda bem,&nbsp;<strong>adultos em ponto pequeno<\/strong>, \u00e9 que damos conta de como nos devemos relacionar com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez que seja melhor aprendermos a sermos os seus Gurus: estarmos dispon\u00edveis para as suas perguntas. Porque eles sabem faz\u00ea-las melhor do que ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejam atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre vivi, e ainda vivo, fascinado com a possibilidade de descobrir as tolices da vida. Aquelas ideias que damos como certas e que nos moldam a nossa forma de estar neste mundo, mas que s\u00e3o uma perfeita tolice. Coisas que, embora n\u00e3o fa\u00e7am sentido, ajudamos a perpetuar. 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