{"id":163,"date":"2026-01-09T17:01:00","date_gmt":"2026-01-09T17:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=163"},"modified":"2026-01-22T17:05:35","modified_gmt":"2026-01-22T17:05:35","slug":"o-lar-e-onde-nos-estamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=163","title":{"rendered":"O Lar, \u00e9 onde n\u00f3s estamos."},"content":{"rendered":"\n<p>O ser humano est\u00e1 impregnado da inevitabilidade de ser social. \u00c9 uma esp\u00e9cie constru\u00edda a partir desse princ\u00edpio. N\u00e3o dever\u00edamos querer gastar muito do nosso tempo a tentar fugir-lhe. Mas para quem se vangloria de o ter conseguido fazer, teve, ou ainda vai ter, de lidar com as respectivas consequ\u00eancias de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos, desde que existimos, a tentar encontrar o nosso lugar. Quer seja quanto \u00e0 nossa identidade, quer seja quanto \u00e0 nossa identidade no meio dos outros. E ainda acresce que existe uma certa preocupa\u00e7\u00e3o de querermos harmonizar as nossas sucessivas <em>personas<\/em> ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos nos orgulhar de quem fomos no passado. Queremos um bom compromisso com o presente, porque \u00e9 agora que se joga a sobreviv\u00eancia no meio dos outros. Mas, como se n\u00e3o bastasse, queremos harmonizar, atrav\u00e9s dos sonhos e dos desejos, com este outro que seremos no futuro. Um Eu idealizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o fossemos iminentemente seres sociais, por que raz\u00e3o haver\u00edamos de nos preocupar com a forma como pensamos e agimos. N\u00e3o existe prova maior de sermos sociais do que a busca por melhoria constante. E mesmo que este impulso de melhoria constante se manifeste francamente deprimida em algumas pessoas, existe sempre um certo mau estar quando sabemos o que pensam de n\u00f3s e, principalmente, quando tais opini\u00f5es n\u00e3o se aproximam da nossa consci\u00eancia sobre n\u00f3s mesmos. Em grande medida, queremos mudar porque existem os outros \u00e0 nossa volta e queremos, que a nossa vers\u00e3o seja o mais aceite poss\u00edvel. Sobreviv\u00eancia, sobreviv\u00eancia e mais sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro pertence \u00e0 nossa f\u00f3rmula humana. Est\u00e1 sempre ali na equa\u00e7\u00e3o. Podemos dar mais ou menos for\u00e7a, \u00e9 verdade, mas agimos quase sempre de acordo com a forma como encaramos a import\u00e2ncia relativa de cada um \u201coutro\u201d na nossa vida. A dist\u00e2ncia familiar, o grau de parentesco, tamb\u00e9m releva para essa gest\u00e3o. Voltando \u00e0 evid\u00eancia da prova\u2026 este \u00e9 um assunto que gerimos e ao qual damos muita aten\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem excep\u00e7\u00f5es?, claro! Mas quase todas as excep\u00e7\u00f5es ro\u00e7am numa classifica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a de natureza biol\u00f3gico-mental, psicol\u00f3gica ou social. Uma pessoa que procura e consegue viver em total isolamento, n\u00e3o poder\u00e1 demonstrar grande plenitude na sua forma de viver. Viver a vida, como ela quer ser vivida, \u00e9 uma aventura. E como sempre, a aventura de todos os tempos exige de n\u00f3s presen\u00e7a. Atira-nos com desafios que nem sempre achamos capazes de os superar. E devolve-nos um sentimento de conquista, a nossa verdadeira compensa\u00e7\u00e3o por aceitarmos o seu desafio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, muitos destes desafios caem no grupo dos desafios sociais. Desafios que existem exatamente por existirem seres humanos \u00e0 nossa volta e por estarmos organizados em sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMe, myself and I\u201d em frente a um espelho, nunca ser\u00e1 uma grande aventura.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, para o bem e para o mal, dentro desta nossa \u00fanica percep\u00e7\u00e3o do que nos rodeia, somos as pessoas mais indicadas para vivermos a nossa vida e as nossas escolhas. A nossa hist\u00f3ria interior (e n\u00e3o falo da f\u00f3rmula [nossa hist\u00f3ria = relato de feitos]) \u00e9 uma deliciosa e \u00fanica epopeia. A aventura das aventuras. Mais ningu\u00e9m A pode cantar por n\u00f3s. E essa \u00e9 a nossa primeir\u00edssima responsabilidade\u2026 cantar a nossa hist\u00f3ria at\u00e9 que a voz nos doa. Porque se n\u00e3o formos n\u00f3s a cant\u00e1-la, os que a cantarem na nossa vez, v\u00e3o esquecer-se de muitos pormenores e, essencialmente, da for\u00e7a que s\u00f3 n\u00f3s lhe podemos dar. N\u00e3o delegues nos outros algo que s\u00f3 tu podes fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 esta diversidade escondida em n\u00f3s que nos torna n\u00f3madas. Na sua defini\u00e7\u00e3o, n\u00f3mada \u201c\u00e9 aquela pessoa que pertence a um povo que se desloca permanentemente para garantir a sobreviv\u00eancia.\u201d Vou agora reformular esta defini\u00e7\u00e3o: N\u00f3mada, \u00e9 aquela pessoa que pertence a tantas hist\u00f3rias vividas e que busca permanentemente mais hist\u00f3rias, para garantir a sobreviv\u00eancia. Quando deixamos que as nossas hist\u00f3rias deixem de ter valor \u00e9 quando morremos um pouco, ainda que a vida nos pulse no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A busca constante por mais hist\u00f3rias, em nada se entalha na imaturidade. Pelo contr\u00e1rio! \u00c9 essa busca que garante a nossa maturidade como caminhantes desta vida. \u00c9 essa busca constante que nos amadurece para olharmos o que na verdade \u00e9 importante. \u00c9 essa busca constante que finta o entendimento dos outros, num resvalar de incompreens\u00e3o e acusa\u00e7\u00f5es de imaturidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E a fam\u00edlia que decidimos constituir, algures nesse tempo de vida, \u00e9 uma escolha de in\u00edcio de mais uma hist\u00f3ria. Se temos todas as certezas? N\u00e3o! Se sabemos se vamos fazer melhor do que os nossos pais? Nunca! Se temos consci\u00eancia de tudo o que nos espera? Nem teria piada se o soub\u00e9ssemos. Estamos simplesmente a entrar na aventura da vida, escolhendo ir em vez de ficar. Desconfiamos que vai ser intenso e que nem sempre vai saber bem&#8230; mas escolhemos ir nessa aventura, com tudo o que temos. Talvez que humildade e coragem, seja come\u00e7ar (ir) de onde estamos e com o que temos.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da aventura da vida. Depois da aventura das tuas \u00fanicas hist\u00f3rias, vem a aventura da fam\u00edlia. Todos temos um cheirinho de como tudo se passa num Lar. Nascemos e crescemos num! Mas esta aventura s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente minha quando as escolhas s\u00e3o minhas. Quando vou, com mais ou menos convic\u00e7\u00e3o, mas vou. E a juntar \u00e0s minhas escolhas est\u00e3o as escolhas da minha parceira(o).<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 quando se escolhe ter filhos, que a aventura vai para um outro n\u00edvel de experimenta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o seres, cada um deles, \u00fanicos e a iniciar a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. O Lar \u00e9 o Espa\u00e7o Humano que se vai construindo e que, como em n\u00f3s, tem uma cole\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria comuns e pessoais, que s\u00f3 este Lar as pode contar. \u00c9 O milagre da nossa hist\u00f3ria. Com uma influ\u00eancia brutal sobre a nossa percep\u00e7\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o das coisas que nos rodeiam. \u00c9 ali que encontramos as primeiras e variadas lentes com que vemos o mundo. E dependendo da honestidade intelectual e emocional dessas lentas, assim experienciamos a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>E apesar da aparente complexidade da fun\u00e7\u00e3o dos pais no Lar, na verdade, s\u00f3 temos de nos preocupar em sermos a melhor paisagem que consigamos ser. O que nos leva de volta \u00e0 nossa viagem pessoal. Que seja rica, honesta e empunhada com orgulho. Os nossos filhos v\u00eaem e retiram tudo o que for para retirar. Mas saber\u00e3o que ali est\u00e3o exemplos honestos do bom e do menos bom. A proximidade num lar existe sempre. Mesmo quando dizemos que as pessoas n\u00e3o se d\u00e3o bem. Podem n\u00e3o estar funcionais ou a passar por uma enorme prova\u00e7\u00e3o, mas entre todos a proximidade extrema prova-se com a compreens\u00e3o inequ\u00edvoca sobre o que se passa. Podemos n\u00e3o gostar do que estamos a ver, mas n\u00e3o h\u00e1 muitas d\u00favidas sobe o que vemos e, principalmente, sentimos.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as que mudam muitas vezes de casa, ou que vivem de lugar em lugar por causa da profiss\u00e3o dos pais, s\u00e3o as crian\u00e7as que mais cedo entendem, que a casa \u00e9 apenas o albergue de algo muito superior. Uma esp\u00e9cie de concha do caracol. Que aceitam a condi\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo familiar n\u00f3mada e que, rapidamente, interiorizam que o Lar \u00e9 onde est\u00e3o \u201cestes\u201d todos. Os seus todos. E por mais que mudem de lugar, os cheiros, os sons, os rituais, os colos\u2026 n\u00e3o mudam. Melhoram e \u00e0s vezes mudam por completo, mas mudam com o consentimento de todos. A mudan\u00e7a \u00e9, de certa forma, consensual. Claro que h\u00e1 sempre algumas lutas interiores e n\u00e3o s\u00f3, como \u00e9 o exemplo das amizades que s\u00e3o deixadas para tr\u00e1s. Amizades que precisam de cada vez mais tempo para se fixarem, e tamb\u00e9m, na medida em que se tornam cada vez mais importantes ao longo do crescimento da crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a mensagem principal e muito importante que passa para estas crian\u00e7as, que rapidamente chegam a esta sabedoria, \u00e9 a de que n\u00e3o podemos desistir de querer contribuir para que o lar funcione cada vez melhor. O nosso instinto, quando algo n\u00e3o est\u00e1 bem do nosso agrado no Lar, \u00e9 mudar qualquer coisa (como mudar de casa). Mexer na organiza\u00e7\u00e3o da vida em fam\u00edlia. Adoptar alguns rituais que tivemos conhecimento num artigo de revista, entre muitas outras iniciativas. Estes s\u00e3o impulsos de algum modo, superficiais. Mas o que provavelmente ir\u00e1 resultar, no fim-do-dia, s\u00e3o as contribui\u00e7\u00f5es genu\u00ednas que cada um consegue individualmente trazer. Por que \u00e9 s\u00f3 quando mudamos, que o mundo \u00e0 nossa volta muda. E este micro-mundo \u00e9 s\u00f3 e t\u00e3o s\u00f3, o mundo mais importante de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela proximidade em que vivemos uns com os outros no Lar, sabemos o que na nossa atitude, h\u00e1bito ou mania, chamem-lhe o que quiserem, n\u00e3o resulta com os outros. Se sabemos e se queremos continuar a acreditar que o Lar \u00e9 a mais importante paisagem do crescimento pessoal, vamos querer ser os l\u00edderes desse constante reajuste. A inevitabilidade de estarmos agarrados emocionalmente uns aos outros, tr\u00e1s esta consci\u00eancia: que <strong>o Lar \u00e9 onde estamos com os nossos<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ser humano est\u00e1 impregnado da inevitabilidade de ser social. \u00c9 uma esp\u00e9cie constru\u00edda a partir desse princ\u00edpio. N\u00e3o dever\u00edamos querer gastar muito do nosso tempo a tentar fugir-lhe. 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