{"id":167,"date":"2026-02-20T18:31:00","date_gmt":"2026-02-20T18:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=167"},"modified":"2026-02-23T18:36:43","modified_gmt":"2026-02-23T18:36:43","slug":"atencao-e-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=167","title":{"rendered":"Aten\u00e7\u00e3o \u00e9 Amor."},"content":{"rendered":"Lembro-me, em determinada fase da minha vida, que a minha maior ansiedade era a de poder estar distra\u00eddo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo para onde deveria estar a olhar\u2026 s\u00f3 que n\u00e3o. Que coisas deveria estar a considerar mudar, melhorar, mas cuja aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o se demorava o tempo suficiente.<br \/><br \/>Comecei a perceber perfeitamente que isto era algo bastante importante para mim. E comecei a colecionar muitas, demasiadas, exclama\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas descobertas: \u201cah \u00e1! Ent\u00e3o era isto que estava errado.\u201d Ou ainda \u201ccomo \u00e9 que eu n\u00e3o percebi isto antes!\u201d. Numa clara desilus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s hipot\u00e9ticas e an\u00f3nimas pessoas que tivessem estado, este tempo todo, a planear enganar-me e\u2026 tinham conseguido. Eram, claro, tudo coisas que eram importantes para mim e para os meus. Para o nosso crescimento como unidade familiar, o Lar.<br \/>Sei que a minha preocupa\u00e7\u00e3o se agudizou, quando estava a ser pai pela primeira vez. Aquela ang\u00fastia de sentir que aquilo em que eu acreditasse e seguisse, tinha de alguma maneira impacto nas minhas filhas. Seres que eu deveria de proteger. E por isso, foi uma altura de extrema aten\u00e7\u00e3o. De cometer, ainda assim muitos erros. Muitas das ratoeiras da sociedade em que vivemos (e que nos s\u00e3o propostas), guiam-se por valores economicistas ou outros, que nada t\u00eam a ver com o equil\u00edbrio das pessoas e das fam\u00edlias. <br \/><br \/>Felizmente, poucas das minhas op\u00e7\u00f5es, que se revelaram incorretas, tiveram um grande impacto nas suas vidas. Mas fez-me querer manter uma aten\u00e7\u00e3o redobrada no presente. Naquilo que aqui e agora faria maior sentido para o seu bem-estar. E isso trouxe-me alguma paz, porque aprendi a ser mais assertivo. A questionar as reais motiva\u00e7\u00f5es do que me era proposto. A tentar, vestido de detective, encontrar de entre as v\u00e1rias refer\u00eancias, aquelas que mais sentido me faziam.<br \/><br \/>Na verdade, a vida empurrava-me para ver as pulgas, a coleira o rabo e as patas do c\u00e3o, mas impedia-me de ver o c\u00e3o todo. De conseguir percepcionar a sua ra\u00e7a. O seu mood. A sua din\u00e2mica meiga para com o seu dono. A sua peculiaridade de animal de estima\u00e7\u00e3o. Treinar a aten\u00e7\u00e3o para ver a floresta quando a sociedade est\u00e1 mais interessada em direcionar-nos apenas para aquela \u00e1rvore espec\u00edfica. Isso \u00e9 o que fundamentalmente nos faz sentir perdidos. Ficamos contentes por descobrir que vamos em determinada dire\u00e7\u00e3o, para logo a seguir desconfiarmos que, afinal de contas, n\u00e3o \u00e9 o sentido que mais nos conv\u00e9m. Aquela que nos faria mais sentido seguir. E sentimo-nos enganados. Sentimos um elevado desconforto por notarmos que and\u00e1mos a viver sem nos question\u00e1mos o suficiente. Uma agenda que n\u00e3o era a nossa e que poder\u00e1 tornar-se perigosa l\u00e1 \u00e0 frente, no futuro Presente. <br \/><br \/>Treinar a aten\u00e7\u00e3o para o todo e para o que interessa agora, foi, hoje sei, um treino extraordinariamente importante para estar a cem por cento com as minhas filhas. Olhando-as e escutando-as em dedica\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o plena, fez com que errasse menos. Aos olhos dos outros talvez tenha cometido ainda mais erros do que aqueles que apontei. Talvez! Mas com hiperaten\u00e7\u00e3o, sentia sempre o que elas precisavam verdadeiramente. Quase que por obra de uma qualquer intui\u00e7\u00e3o (sabedoria interior respeitada) eu conseguisse navegar por entre ru\u00eddos, correrias, cr\u00edticas, d\u00favidas (muitas das vezes minhas) numa dire\u00e7\u00e3o que eu sabia ser aquela que melhor servia as minhas filhas e o seu bem-estar.<br \/><br \/>As grandes tochas s\u00e3o f\u00e1ceis de seguir. E o amor, na sua defini\u00e7\u00e3o \u00e9 uma delas. O amor \u00e9, sem sombra de d\u00favida, a coisa mais poderosa \u00e0 face da Terra. Ele, o amor, resolve tudo. Embebido em amor, considerando todas as coisas (como o nosso amor pr\u00f3prio, claro), qualquer coisa que se fa\u00e7a ir\u00e1 com toda a certeza estar mais perto da verdade que melhor nos serve, do que as alternativas dispon\u00edveis. Com amor, lato sensu, a vida connosco e com os outros tende a ultrapassar todo e qualquer obst\u00e1culo. Tende a ajudar a redefinir o que de menos bom nos acontece. Tende a ajudar a compreender o que os outros nos trazem de diferente e que estranhamos e ao qual reagimos, nem sempre da melhor maneira.<br \/><br \/>Mas \u00e9 urgente perceber onde andar\u00e3o todas as outras formas de amar. Existe um livro, que recomendo, que fala d`\u201dAs 5 linguagens do amor\u201d, de Gary Chapman. Apesar do que aqui falo n\u00e3o estar espelhado neste livro, n\u00e3o deixa de ser interessante perceber, que devemos entend\u00ea-las para que a nossa percep\u00e7\u00e3o de estarmos a receber ou n\u00e3o amor, fique mais assertiva. Que as colecionemos a todas, para que n\u00e3o se desperdice essa energia do amor. Detetar as express\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es do amor, \u00e9 um caminho de entendimento entre as pessoas. Gosto muito de pensar de que um gesto vale mesmo mais do que umas quantas palavras. E de que temos de aprender a detectar os gestos que nos s\u00e3o direcionados. De os aceitar, porque nos foram dados, como nossos. De mostrar gratid\u00e3o. Por exemplo, no caso do amor rom\u00e2ntico\u2026 uma pessoa que me ame, mas \u00e0 qual eu n\u00e3o correspondo com o mesmo sentimento, tem de ter da minha parte toda a considera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 \u00e9 t\u00e3o raro amarem-nos, que a \u00fanica atitude que posso ter para honrar o movimento desse outro cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 mesmo a eleg\u00e2ncia de o acolher, sem rodeios e de verbalizar a gratid\u00e3o, informando, de que n\u00e3o \u00e9 correspondido.<br \/><br \/>Aprender a detectar as manifesta\u00e7\u00f5es de amor e pass\u00e1-las aos nossos filhos, \u00e9 das melhores pr\u00e1ticas de parentalidade de que me lembro. Quando eles aprendem a detectar essas manifesta\u00e7\u00f5es, a educa\u00e7\u00e3o torna-se muito mais f\u00e1cil. At\u00e9 os castigos\u2026 o simples facto de amuarmos (como pais) ou retirarmos aquele ritual de carinho por um dia, os nossos filhos entendem logo o castigo. E o castigo \u00e9 t\u00e3o somente a aus\u00eancia tempor\u00e1ria de manifesta\u00e7\u00e3o desse amor. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, na maior parte dos casos, partir-se para castigos severo-formais-longos. As crian\u00e7as sabem que brincar com as outras \u00e9 por convite. Ningu\u00e9m obriga ningu\u00e9m a querer brincar. Pode resultar uma vez, mas da pr\u00f3xima vez, n\u00e3o v\u00e3o querer brincar connosco. Querer brincar a segunda vez, e a terceira e por a\u00ed fora, \u00e9 um gesto de amor. A seguir, vem a amizade.<br \/><br \/>Mas o que me interessa neste texto \u00e9 convencer-vos de que a Aten\u00e7\u00e3o que lhes dedicamos por per\u00edodos mais ou menos pequenos, \u00e9 amor. \u00c9 igual a amor. Eu at\u00e9 diria que a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u201cbra\u00e7o armado\u201d do amor. Por vezes, por considerarmos o amor um conceito (que tamb\u00e9m o \u00e9) muito te\u00f3rico ou at\u00e9 esot\u00e9rico, a Aten\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das mais importantes pr\u00e1ticas de amor. Gosto desta frase: A aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o amor na pr\u00e1tica. Muitas das vezes trope\u00e7amos na express\u00e3o \u201csou cat\u00f3lico n\u00e3o praticante\u201d. Independentemente da discuss\u00e3o que isto possa desde j\u00e1 gerar, eu compreendo que os Pais, na sua esmagadora maioria, amam os seus filhos. Mas isso n\u00e3o alimenta ningu\u00e9m\u2026 muito menos eles! Quando mantemos a rela\u00e7\u00e3o que temos com os nossos filhos debaixo desse grande chap\u00e9u que \u00e9 o amor, arriscamos esquecer de o executar. E eles precisam, desde muito cedo, v\u00ea-lo e abra\u00e7\u00e1-lo na pr\u00e1tica. Temos de ser praticantes do amor. Ningu\u00e9m gosta de receber apenas amor plat\u00f3nico.<br \/><br \/>O amor n\u00e3o deixa de ser um conceito e que muitas das vezes usamos para nos desculparmos, quando os filhos nos puxam as orelhas por aus\u00eancia (a nossa, claro): \u201ctu sabes que a m\u00e3e te ama, n\u00e3o sabes?\u201d Mas o que os desespera, \u00e9 que esse conceito quando n\u00e3o \u00e9 acompanhado por manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, tende a escorrer por entre os dedos. Tende a esvanecer-se. Tende para o esquecimento. Tende, a pior de todas as consequ\u00eancias, a n\u00e3o ser integrado na cavalgada do crescimento.<br \/><br \/>Escutar, \u00e9 um dos vassalos da Aten\u00e7\u00e3o. Tempo sim, mas de qualidade. Escutar \u00e9 guardar o que recebemos para mais tarde colocar nas conversas com eles. Quando nos lembramos de um pormenor recebido, seja ou n\u00e3o segredo, seja ou n\u00e3o uma coisa s\u00f3 entre n\u00f3s os dois, e o libertamos bem \u201centremeado\u201d numa conversa futura, reparem como eles se iluminam. Confirmam, sem sombra de d\u00favida, que s\u00e3o tidos em conta. Que s\u00e3o vistos, n\u00e3o interessa a idade. Que podem continuar a entregar-nos coisas que nunca ser\u00e1 em v\u00e3o a sua aposta. Muitos Pais queixam-se de que os filhos j\u00e1 n\u00e3o os consideram seus confidentes. Na verdade, podem acontecer duas coisas, de per si ou ao mesmo tempo: Com a idade, menos coisas s\u00e3o partilhadas, ou, que se cansaram de nos contar por perceberem que \u201ccaem sempre em saco roto\u201d. <br \/><br \/>Usarmos da aten\u00e7\u00e3o para nos relacionarmos com os nossos filhos \u00e9 gravar, sem sobra de d\u00favida, que os amamos sem que alguma vez tenhamos de o dizer para \u201ccompor o ramalhete\u201d. Claro que \u00e9 bom dizer e ouvir. Mas a aten\u00e7\u00e3o, assim como os gestos, falam sempre mais alto. \u00c9 que os nossos filhos s\u00e3o p\u00e9ssimos a ouvir e \u00f3ptimos a imitar.<br \/><br \/>Deixar que o amor seja uma pr\u00e1tica corrente, sem grandes explica\u00e7\u00f5es. Simplesmente com entrega.<br \/> <br \/>Sejam atentos.","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me, em determinada fase da minha vida, que a minha maior ansiedade era a de poder estar distra\u00eddo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo para onde deveria estar a olhar\u2026 s\u00f3 que n\u00e3o. Que coisas deveria estar a considerar mudar, melhorar, mas cuja aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o se demorava o tempo suficiente. 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