{"id":173,"date":"2026-05-01T17:20:48","date_gmt":"2026-05-01T17:20:48","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=173"},"modified":"2026-05-07T17:23:19","modified_gmt":"2026-05-07T17:23:19","slug":"a-sindrome-do-pai-impostor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=173","title":{"rendered":"A s\u00edndrome do Pai impostor."},"content":{"rendered":"Uma das maiores ansiedades partilhadas pelos pais prende-se com a capacidade, ou n\u00e3o, de se executarem na sua parentalidade. A paternidade parece-me um conceito menos assustador. N\u00e3o quero parecer um irrespons\u00e1vel, mas a capacidade de sermos pais biol\u00f3gicos parece n\u00e3o transportar tantas d\u00favidas ou ansiedades. Ou conseguimos ser pais ou n\u00e3o conseguimos\u2026 e fica adiado um sonho. Fim de est\u00f3ria.<br \/><br \/>Outro enquadramento completamente diferente, \u00e9 quando enfrentamos as nossas maiores d\u00favidas, sombras e pesadelos, sobre se teremos ou n\u00e3o a capacidade de entregar amor, de guiar e de educar aquele ser que agora temos nos nossos bra\u00e7os.<br \/><br \/>Num portugu\u00eas mais simples: faz\u00ea-los \u00e9 f\u00e1cil, t\u00ea-los j\u00e1 nem tanto e cri\u00e1-los \u00e9 um outro desafio completamente diferente e desassossegante. E o desassossego vem de termos alguma consci\u00eancia daquilo que aquele ser, que acabou de nascer, precisa que lhe entreguemos. Do lugar de onde devemos partir (todos os dias!) para que lhe possamos entregar o nosso melhor. E \u00e9 aqui que \u201ca porca torce o rabo\u201d. \u00c9 que o melhor de n\u00f3s, todos sabemos, nem sempre conseguimos entregar. \u00c0s vezes, n\u00e3o conseguimos entregar, porque nem sempre estamos dispon\u00edveis para o fazer. E \u00e0s vezes, n\u00e3o estamos dispon\u00edveis por longos per\u00edodos. Ora, um beb\u00e9 n\u00e3o pode ficar ali \u00e0 espera de que os seus pais sejam funcionais. Uma esp\u00e9cie de intermit\u00eancia parental que \u00e0s vezes tanto nos apetece. E o beb\u00e9, ali \u00e0 espera, que nos \u201cd\u00ea jeito\u201d assumir esta nova condi\u00e7\u00e3o. O beb\u00e9 precisa dos pais todos os minutos do seu tempo. E isso, claro, assusta.<br \/>N\u00e3o estou nada preocupado com os pais inconscientes. Sobre esses, nem d\u00e1 para escrever uma m\u00e3o cheia de linhas. Mas se fic\u00e1mos ansiosos com o que a\u00ed poder\u00e1 vir, j\u00e1 \u00e9 um excelente sinal de maturidade. \u00c9 que esta, a maturidade, n\u00e3o se ganha com a experi\u00eancia de se ter um filho. \u00c0 parte da maturidade f\u00edsica, esta outra est\u00e1 mais relacionada com a capacidade de agir com responsabilidade, equil\u00edbrio e intelig\u00eancia emocional. Estar ansioso, poder\u00e1 querer dizer que temos razoavelmente presente, que o que nos espera \u00e9 verdadeiramente desafiante. Que o que nos espera nos vai levar ao limite das nossas capacidades. E eu, n\u00e3o encontro melhor palavra para isso: coragem. Ainda que tenhamos apenas alguma consci\u00eancia do que nos espera, ainda assim decidimos ser pais. Talvez a primeira regra desta maturidade: Armamo-nos na exata medida do tamanho do desafio.<br \/><br \/>Mas o mais importante desta ansiedade latente, e que poder\u00e1 existir durante d\u00e9cadas a fio (dependendo do n\u00famero de filhos), \u00e9 a nossa capacidade de a podermos integrar na nossa forma de estar. Em alternativa, n\u00e3o acolhemos esta ansiedade e migramos para um estado de inoperacionalidade quase total. \u00c0s vezes ajuda darmos um passo em frente e abra\u00e7armos esse estado de ansiedade e de d\u00favida, como inevit\u00e1vel, para fazermos um ainda melhor trabalho.<br \/><br \/>Do outro lado da linha, a puxar para drenar esta ansiedade, poder\u00e1 estar uma s\u00e9rie de ensinamentos que nos dizem que os nossos filhos apenas precisam da nossa presen\u00e7a, em qualidade. Mas o que \u00e9 isso de Presen\u00e7a?! Temos de encontrar as respostas para esta derradeira pergunta: mas o que significa estar presente? O que devo fazer para que os meus filhos sintam essa presen\u00e7a. Beneficiem dela? Sabe-se que eles aprendem pela ret\u00f3rica (muito pouco) e pelo exemplo (a esmagadora maioria). Sabe-se que o que mais precisam \u00e9 de afeto genu\u00edno e puro. Amar e ser amado com todos os defeitos que possu\u00edmos, \u00e9, no final do dia, a entrega mais verdadeira que lhes possamos fazer. Mil vezes a nossa imperfeita humanidade que um abra\u00e7o de algu\u00e9m cheio de conhecimento e sabedoria sobre parentalidade, mas que n\u00e3o existe (est\u00e1) em conex\u00e3o.<br \/><br \/>A conex\u00e3o sente-se, n\u00e3o se ensaia. N\u00e3o se dita, \u00e0 luz das melhores pr\u00e1ticas, como se estiv\u00e9ssemos a fazer o esqui\u00e7o de uma nova rela\u00e7\u00e3o. A vida \u00e9 t\u00e3o mais rica do que a previsibilidade auxiliada pela nossa mente. A viv\u00eancia dos afetos acontece para al\u00e9m de tudo o que tenhamos previamente estudado fazer. Reagir. Premeditar. N\u00e3o digo que n\u00e3o nos devamos preparar. Por observa\u00e7\u00e3o. Pela leitura de livros. Pelas palestras a que possamos assistir. Pelas conversas que possamos incitar com os mais velhos ou com os amigos.<br \/><br \/>Conseguirmos ser, aos poucos, a nossa melhor vers\u00e3o, parece-me um excelente plano. Porque ningu\u00e9m nasce ensinado a ser pai. Porque, por mais manuais que se escrevam, cada fa\u00edsca de conex\u00e3o entre dois seres \u00e9 irrepet\u00edvel\u2026 mesmo no seio das duas pessoas que geraram aquele aprendiz de humano. Esta \u00e9 uma ideia muito importante para encorajar os pais que adotam beb\u00e9s e crian\u00e7as. O que aquele ser min\u00fasculo e indefeso espera de n\u00f3s, \u00e9 amor presente, constante, enquanto a vida acontece a seu tempo. Todos os eventos de paternidade come\u00e7am a perder as vantagens que trazem logo a partir do momento do nascimento. A partir do evento do nascimento, o que conta \u00e9 a parentalidade e, neste dom\u00ednio, que \u00e9 o futuro daquele ser, pais biol\u00f3gicos e n\u00e3o biol\u00f3gicos convergem para as mesmas e mais relevantes din\u00e2micas no dom\u00ednio da educa\u00e7\u00e3o de um ser humano.<br \/><br \/>O grande desafio \u00e9 mesmo amar acima de todas as condicionantes. Amar, apesar dos dias que nos consomem as energias todas, parecendo n\u00e3o nos deixar com algo mais para dar. Viver o amor, como uma possibilidade em constante constru\u00e7\u00e3o e deixando-nos contagiar por aquele sorriso que nada pede. Que nada esconde. Apenas existe em modo de saborear a vida e que nos espica\u00e7a com a energia necess\u00e1ria para mais um movimento de carinho partilhado. <br \/>Saber mudar fraldas, estar atento \u00e0 sa\u00fade, vacinas e rotinas m\u00e9dicas, aprende-se. Ter alguns cuidados para criar um ambiente protector para as \u201cdeambulices\u201d do beb\u00e9 e depois crian\u00e7a, \u00e9 bom senso. Tudo se aprende\u2026 Com excep\u00e7\u00e3o de sabermos Ser e sabermos Estar, para que eles nos imitem. Perd\u00e3o, desculpem! At\u00e9 isso se aprende, mas leva muito tempo. Eles crescem a uma velocidade muito superior \u00e0quela a que conseguimos mudar como Pais \u00e0 frente desta Parentalidade.<br \/>Ent\u00e3o qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o? A esta altura do texto, j\u00e1 pensaram que n\u00e3o estou a ajudar nada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da vossa ansiedade. Espero que n\u00e3o seja o caso. At\u00e9 porque poderei ter o ant\u00eddoto para esse estado que muitas das vezes nos paralisa e nos atira para n\u00e3o sermos a nossa melhor vers\u00e3o. Ent\u00e3o o que fazer?&#8230; N\u00e3o deixarmos entrar a s\u00edndrome do Pai impostor. <br \/><br \/>Todo o desenvolvimento humano passa por estas fases:<br \/><br \/>Primeiro, descobrimos o que temos de mudar em n\u00f3s e que n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito \u00fatil na cria\u00e7\u00e3o de um ser que amamos tanto. Como? Atrav\u00e9s da leitura, tert\u00falias, pensamentos, entre outros.<br \/>Segundo, desenhamos essa nova vers\u00e3o de n\u00f3s. Sonhamo-la. Vivemo-la por antecipa\u00e7\u00e3o e aceitamo-la como o melhor para a vida de todos no lar.<br \/><br \/>Terceiro, iniciamos a mudan\u00e7a. Mas como a mudan\u00e7a demora muito, antecipamos os benef\u00edcios desta sabedoria consciente, e vivemos j\u00e1, de acordo com o que queremos vir a ser, e repetimos as vezes que forem precisas, at\u00e9 que a rotina ven\u00e7a o velho Eu e se instale no nosso mais profundo ser. E quando pensarmos, ao deitar, que estamos em esfor\u00e7o, respondemos ao espelho que \u00e9 por um bem maior.<br \/><br \/>Quarto, tornamo-nos na nossa melhor vers\u00e3o, ancorados num amor irrepet\u00edvel e avassalador. A rotina consciente vence todos os obst\u00e1culos internos. <br \/><br \/>E que forma mais deliciosa para querermos mudar. <br \/>Mas \u00e9 ali, no segundo momento, que tudo se joga. Porque j\u00e1 estamos a preparar a nossa melhor vers\u00e3o. Ela ainda n\u00e3o est\u00e1 pronta, mas j\u00e1 sabemos para onde queremos ir. E muitas das vezes sentimos que ainda n\u00e3o somos verdadeiramente n\u00f3s, aquele que se apresenta perante a fam\u00edlia e perante o beb\u00e9\/crian\u00e7a. Sentimos que estamos a \u201cvender\u201d a ideia de sermos algu\u00e9m que ainda n\u00e3o somos\u2026<br \/><br \/>\u00c9 agora que n\u00e3o podem deixar que a ideia de serem uns impostores vos assole. Mas na verdade, \u00e9 quando j\u00e1 sabemos quem queremos ser, \u00e9 que se torna importante decidir entregar essa melhor vers\u00e3o\u2026 N\u00e3o faz nenhum sentido que entreguemos aquela que est\u00e1 menos certa, s\u00f3 porque a nova vers\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 totalmente nossa.<br \/><br \/>Entregar aos outros aquilo que sabemos estar mais certo, apesar de ainda n\u00e3o termos chegado l\u00e1, \u00e9 de uma maturidade a toda a prova. \u00c9 a maior prova de amor. Querer saber mais para acertar mais, \u00e9 a maior prova de amor. E, enquanto trilhamos este caminho, nada nem ningu\u00e9m nos pode dizer que somos impostores por ainda n\u00e3o vivermos dessa nova forma melhorada. Prefiro mil vezes quem se esfor\u00e7a por fazer diferente e melhor, do que aquele que repete a seguran\u00e7a do seu passado.<br \/><br \/>Temos um prov\u00e9rbio muito interessante: \u201cN\u00e3o fa\u00e7as o que eu fa\u00e7o, faz o que eu digo\u201d.<br \/> <br \/>O meu m\u00e9dico diz-me para deixar de fumar apesar de ele ser um fumador. Isto \u00e9 de um altru\u00edsmo a toda a prova. O meu m\u00e9dico sabe que \u00e9 melhor deixar de fumar. Para os dois. Para qualquer ser humano. O meu m\u00e9dico luta para deixar de fumar, mas enquanto n\u00e3o consegue, entrega-me o melhor conselho que conhece.<br \/><br \/>Aprender \u2013 iniciar a mudan\u00e7a \u2013 entregar o que se aprendeu \u2013 integrar com o tempo \u2013 tornar-se na pessoa que um dia sonhou mudar. <br \/><br \/>Eis o caminho.<br \/>Sejam atentos!","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das maiores ansiedades partilhadas pelos pais prende-se com a capacidade, ou n\u00e3o, de se executarem na sua parentalidade. A paternidade parece-me um conceito menos assustador. N\u00e3o quero parecer um irrespons\u00e1vel, mas a capacidade de sermos pais biol\u00f3gicos parece n\u00e3o transportar tantas d\u00favidas ou ansiedades. 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