{"id":93,"date":"2024-12-20T17:04:21","date_gmt":"2024-12-20T17:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=93"},"modified":"2025-12-22T17:05:06","modified_gmt":"2025-12-22T17:05:06","slug":"as-varias-personagens-do-lar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/regressoacasa.pt\/?p=93","title":{"rendered":"As v\u00e1rias Personagens do Lar"},"content":{"rendered":"\n<p>No seio de um lar fervilhante, e sempre que acordamos, ficamos em modo de &#8220;ang\u00fastia boa&#8221;. Uma ang\u00fastia que dura at\u00e9 sabermos que &#8220;artista&#8221; iremos desempenhar nesse dia. N\u00e3o acredito que nunca se sentiu um aut\u00eantico palha\u00e7o?! Ou talvez um contorcionista, quando as perguntas dos nossos filhos s\u00e3o de t\u00e3o dif\u00edcil resposta. Ou at\u00e9 mesmo um equilibrista, quando as contas para pagar pesam mais que os sal\u00e1rios. Ou de palha\u00e7o rico, tal \u00e9 a quantidade de pedidos de dinheiro para coisas mais ou menos f\u00fateis. Mas o papel de que mais gosto, \u00e9 o de M\u00e1gico. Aquela sensa\u00e7\u00e3o que se tem, quando partimos do que \u00e9 genu\u00edno em n\u00f3s e &#8220;resolvemos os mist\u00e9rios da vida&#8221; perante os seus olhos observadores e brilhantes de admira\u00e7\u00e3o. Sermos idolatrados por eles n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que o circo est\u00e1 montado todos os dias, com espet\u00e1culos regulares e sempre com o mesmo p\u00fablico. A tentativa de manter o &#8220;p\u00fablico&#8221; interessado, dia ap\u00f3s dia\u2026 \u00e9 uma tarefa herc\u00falea. Se pensar um bom bocado comigo, concordar\u00e1\u2026 que tudo o que se passa num lar \u00e9 em tudo parecido com o que se passa num circo\u2026 talvez um&nbsp;<strong>Circo de Improvisa\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas para se entender melhor o que se passa no nosso lar \u00e9 preciso conhecer todas as personagens que por l\u00e1 habitam. Pode parecer uma tarefa dif\u00edcil, mas vamos ensinar-lhe um truque. Para reduzir essa dificuldade diremos que s\u00f3 temos&nbsp;<strong>quatro tipos de personagens<\/strong>&nbsp;em nossa casa. Independentemente do n\u00famero de pessoas que coabitam o lar e desde que exista pelo menos um filho, estamos sempre a falar de uma fam\u00edlia de quatro personagens. Curioso? \u00c9 indiscut\u00edvel que a din\u00e2mica de qualquer fam\u00edlia tem a sua pr\u00f3pria m\u00fasica. A sua pr\u00f3pria dan\u00e7a. A sua pr\u00f3pria atmosfera. Mas por mais descendentes ou at\u00e9 mesmo parentes que tenhamos a coabitarem na nossa casa, tudo anda sempre \u00e0 volta destes quatro tipos de personagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos l\u00e1 ent\u00e3o desvendar todo este mist\u00e9rio. As quatro personagens do lar s\u00e3o: Eu; N\u00f3s; Tu; e, Eles. Destas quatro, umas s\u00e3o \u00f3bvias, mas outras nem por isso. O nosso lar \u00e9 um lugar muito especial. Para al\u00e9m de ser tamb\u00e9m o nosso ninho, \u00e9 um lugar onde cada um de n\u00f3s desempenha um papel muito importante e recebe dos outros quase todas as igni\u00e7\u00f5es de que precisa para se sentir frequentemente confort\u00e1vel e preenchido por um bem-estar generalizado. Sentir o que cada uma destas personagens representa para o lar \u00e9 &#8220;meio caminho andado&#8221; para se entender esse espa\u00e7o e podermos (todos) acrescentar sempre alguma coisa para o melhorar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A personagem Eu<\/strong>&nbsp;\u2013 \u00c9 cada um de n\u00f3s quando olha para os outros &#8220;residentes&#8221; e enquanto &#8220;residente&#8221;. \u00c9 a personagem principal para que um lar seja um lar e n\u00e3o apenas uma casa de tijolos, telhas e cimento. Antes de o leitor evocar o seu pensamento de disc\u00f3rdia, dizendo que \u00e9 o N\u00f3s o mais importante, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Se n\u00e3o estiver bem consigo mesmo, acha que consegue trazer harmonia para o seu lar? Ou melhor dizendo\u2026 ao n\u00e3o estar bem consigo mesmo ir\u00e1 faltar-lhe sempre qualquer coisa. E isso que lhe falta, faz falta aos outros que habitam consigo. E aqui a partilha desempenha um papel nuclear. Um Eu que est\u00e1 bem consigo mesmo, n\u00e3o se subjugando ao N\u00f3s nem subjugando os outros, \u00e9 um Eu que mant\u00e9m a sua identidade. A identidade de cada Eu \u00e9 o tesouro que se leva para o Lar. Todos esperam isso de n\u00f3s. Se n\u00e3o acrescentarmos nada com o nosso Eu, a\u00ed sim, ficamos numa posi\u00e7\u00e3o fragilizada. E \u00e9 por isso que nomeio o Eu, como personagem principal para que tudo d\u00ea certo. Se todos os &#8220;Eu&#8217;s&#8221; l\u00e1 do lar estiverem bem consigo pr\u00f3prios, estamos muito perto de atingir a verdadeira defini\u00e7\u00e3o de lar &#8211; Um lugar onde podemos ser quem somos. Um lugar, de onde podemos almejar conquistar o mundo l\u00e1 fora. Por isso\u2026 n\u00e3o perca o seu &#8220;Eu&#8221; de vista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A personagem N\u00f3s<\/strong>&nbsp;\u2013 \u00c9 a personagem que engloba toda a fam\u00edlia que se &#8220;executa&#8221; no mesmo espa\u00e7o. Podemos encontrar uma fam\u00edlia em que todos os &#8220;Eu&#8217;s&#8221; se sentem bem, mas, quando em grupo, as coisas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o o &#8220;C\u00e9u na Terra&#8221;. Em grupo nada \u00e9 garantido. Em grupo todos os equil\u00edbrios s\u00e3o conquistados diariamente. Mas tamb\u00e9m s\u00e3o postos \u00e0 prova. Porque existe uma grande diferen\u00e7a entre funcionarmos sozinhos e termos de fazer imediatas ced\u00eancias para que possamos funcionar em grupo. E ceder \u00e9 dos exerc\u00edcios humanos mais dif\u00edceis de concretizar. Mas dir\u00e1 &#8220;como \u00e9 poss\u00edvel, se est\u00e3o todos individualmente bem?!&#8221; Claro que \u00e9 poss\u00edvel. Basta que os alicerces do lar n\u00e3o estejam bem fundados. E a discuss\u00e3o, principalmente dos adultos, sobre que Lar queremos para n\u00f3s, resolve uma boa parte disto.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado desta hist\u00f3ria, teremos um lar bem &#8220;constru\u00eddo&#8221; se todos apostarem nas qualidades: neutralidade e dignidade. Neutralidade, no sentido em que todos podem ser o que quiserem, porque h\u00e1 respeito pela individualidade. E dignidade, no sentido do que chamamos do &#8220;Equil\u00edbrio de Dignidades&#8221; \u00e0 escala de cada um. Num exemplo: apesar de todos terem experi\u00eancias diferenciadas em rela\u00e7\u00e3o a um assunto que se discuta no seio da fam\u00edlia, todas as opini\u00f5es contam e ningu\u00e9m \u00e9 &#8220;vaiado&#8221;. Um lar forte como este fomenta &#8220;Eu&#8217;s&#8221; de qualidade e satisfeitos com a vida. Mas, como j\u00e1 disse, n\u00e3o \u00e9 ant\u00eddoto para que, como &#8220;equipa&#8221;, as coisas n\u00e3o se descontrolem. O destino desta pessoa &#8220;N\u00f3s&#8221; n\u00e3o existe. N\u00e3o existe no sentido de uma inevitabilidade. O destino do &#8220;N\u00f3s&#8221; \u00e9 mais como uma receita. Carregue-se com os certos e bons ingredientes e sai uma prazerosa refei\u00e7\u00e3o. A personagem &#8220;N\u00f3s&#8221; tamb\u00e9m se perde temporariamente quando um filho sai de casa para seguir a sua vida independente. A fam\u00edlia tende a precisar de algum tempo para se reencontrar. Algum tempo para voltar a sentir esta personagem comum e, at\u00e9 mesmo, voltar a verbalizar este &#8220;N\u00f3s&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A personagem Tu<\/strong>&nbsp;\u2013 Esta personagem \u00e9 a que provoca mais desafios a cada um de n\u00f3s. Temos pela frente cada uma das personagens que connosco habitam. Cada uma delas com as suas especificidades, manias e amuos\u2026 bem, j\u00e1 perceberam. O mais dif\u00edcil \u00e9 que cada um dos &#8220;Eu&#8217;s&#8221; tem de tentar entender-se o melhor poss\u00edvel com cada um dos &#8220;Tu&#8217;s&#8221;, ou seja, os outros. Em matem\u00e1tica chama-se &#8220;<em>combina\u00e7\u00f5es de n a n<\/em>&#8220;. Numa fam\u00edlia de 4 elementos, temos 6 relacionamentos diferentes entre cada duas pessoas. Ensinar que cada um dos &#8220;Tu&#8217;s&#8221; tem de se conectar com cada um dos outros, numa proximidade intimista e sem a &#8220;ajuda do p\u00fablico&#8221;. Ou seja, funcionarem uns com os outros sem passar pela personagem N\u00f3s. Diga-se de passagem, que \u00e9 um desafio enorme adequar a nossa conduta com cada um dos outros. Numa fam\u00edlia de v\u00e1rios filhos, o que a um ofende, a um outro \u00e9 ignorado, e por fim, a um terceiro soa a uma piada. N\u00e3o h\u00e1 paci\u00eancia! Como cuidadores, que se preocupam em ser catalisadores do seu bem-estar, as diferenciadas atitudes t\u00eam, tamb\u00e9m elas, diferentes impactos. O segredo \u00e9 estar atento para poder captar as singularidades de cada filho e depois usar da sensibilidade para estabelecer rela\u00e7\u00f5es \u00fanicas e irrepet\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A personagem Eles<\/strong>&nbsp;\u2013 Esta \u00e9, sem d\u00favida, a mais dolorosa de todas as personagens. A personagem &#8220;Eles&#8221; representa toda a fam\u00edlia, mas sem a nossa presen\u00e7a. Ou seja, representa a forma como a fam\u00edlia existe quando n\u00e3o estamos em casa. Poder\u00e1 perguntar: &#8220;de que serve esta personagem se eu nem estou l\u00e1 para observar?!&#8221; Acredite, \u00e9 muito importante e \u00e9 muito \u00fatil. Se n\u00f3s soubermos que quando n\u00e3o estamos, a fam\u00edlia age de forma diferente, podemos conseguir aprender o que n\u00f3s acrescentamos ou diminu\u00edmos com a nossa presen\u00e7a. Mas como podemos ficar a saber sobre o que aconteceu se n\u00e3o estamos presentes?! Atrav\u00e9s das suas hist\u00f3rias. O normal \u00e9 perguntarmos pelo que aconteceu, sempre que regressamos. Por exemplo: Imagine que, sempre que eu estou fora durante uns dias, a minha fam\u00edlia faz mais actividades ao ar livre. Neste caso, duas conclus\u00f5es \u00f3bvias que posso tirar: a de que sou um influenciador da fam\u00edlia (isso \u00e9 bom nas coisas boas e mau nas coisas m\u00e1s); e que, n\u00e3o sou uma pessoa dada a actividades ao ar livre. Afinal, a minha fam\u00edlia at\u00e9 tem propens\u00e3o para este tipo de actividade, mas deixa-se influenciar negativamente por mim. N\u00f3s gostamos de nos ver como os her\u00f3is l\u00e1 de casa. E desse pedestal, muitas das vezes ignoramos estes pormenores que a personagem &#8220;Eles&#8221; revela. Neste caso, se soubermos como \u00e9 que a personagem &#8220;Eles&#8221; funciona, podemos perceber as coisas em que podemos melhorar, se realmente queremos ser uma melhor vers\u00e3o de n\u00f3s. Perceber o que a fam\u00edlia ganha ou perde aquando das nossas aus\u00eancias, d\u00e1 excelentes pistas para crescermos como pessoa e, com isso, ajudar a fazer crescer o lar. Depois, resta a cada um dos Eu&#8217;s, e na posse de esta informa\u00e7\u00e3o que a personagem &#8220;Eles&#8221; revela, tomar a consci\u00eancia da mudan\u00e7a que quer e est\u00e1 disposto a operar em si.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, j\u00e1 conhecem todas as personagens que habitam as nossas casas e as transformam todos os dias num Lar. Agora j\u00e1 sabemos que esta se parece realmente com um aut\u00eantico Circo de Improvisa\u00e7\u00e3o. Apesar de tudo, s\u00e3o os pais que mandam e no fim de contas, essa hierarquia \u00e9 bem vista como o normal da organiza\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No seio de um lar fervilhante, e sempre que acordamos, ficamos em modo de &#8220;ang\u00fastia boa&#8221;. Uma ang\u00fastia que dura at\u00e9 sabermos que &#8220;artista&#8221; iremos desempenhar nesse dia. N\u00e3o acredito que nunca se sentiu um aut\u00eantico palha\u00e7o?! Ou talvez um contorcionista, quando as perguntas dos nossos filhos s\u00e3o de t\u00e3o dif\u00edcil resposta. 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