O ser humano está impregnado da inevitabilidade de ser social. É uma espécie construída a partir desse princípio. Não deveríamos querer gastar muito do nosso tempo a tentar fugir-lhe. Mas para quem se vangloria de o ter conseguido fazer, teve, ou ainda vai ter, de lidar com as respectivas consequências de longo prazo.
Começamos, desde que existimos, a tentar encontrar o nosso lugar. Quer seja quanto à nossa identidade, quer seja quanto à nossa identidade no meio dos outros. E ainda acresce que existe uma certa preocupação de querermos harmonizar as nossas sucessivas personas ao longo da vida.
Queremos nos orgulhar de quem fomos no passado. Queremos um bom compromisso com o presente, porque é agora que se joga a sobrevivência no meio dos outros. Mas, como se não bastasse, queremos harmonizar, através dos sonhos e dos desejos, com este outro que seremos no futuro. Um Eu idealizado.
Se não fossemos iminentemente seres sociais, por que razão haveríamos de nos preocupar com a forma como pensamos e agimos. Não existe prova maior de sermos sociais do que a busca por melhoria constante. E mesmo que este impulso de melhoria constante se manifeste francamente deprimida em algumas pessoas, existe sempre um certo mau estar quando sabemos o que pensam de nós e, principalmente, quando tais opiniões não se aproximam da nossa consciência sobre nós mesmos. Em grande medida, queremos mudar porque existem os outros à nossa volta e queremos, que a nossa versão seja o mais aceite possível. Sobrevivência, sobrevivência e mais sobrevivência.
O outro pertence à nossa fórmula humana. Está sempre ali na equação. Podemos dar mais ou menos força, é verdade, mas agimos quase sempre de acordo com a forma como encaramos a importância relativa de cada um “outro” na nossa vida. A distância familiar, o grau de parentesco, também releva para essa gestão. Voltando à evidência da prova… este é um assunto que gerimos e ao qual damos muita atenção e importância.
Existem excepções?, claro! Mas quase todas as excepções roçam numa classificação de doença de natureza biológico-mental, psicológica ou social. Uma pessoa que procura e consegue viver em total isolamento, não poderá demonstrar grande plenitude na sua forma de viver. Viver a vida, como ela quer ser vivida, é uma aventura. E como sempre, a aventura de todos os tempos exige de nós presença. Atira-nos com desafios que nem sempre achamos capazes de os superar. E devolve-nos um sentimento de conquista, a nossa verdadeira compensação por aceitarmos o seu desafio.
Ora, muitos destes desafios caem no grupo dos desafios sociais. Desafios que existem exatamente por existirem seres humanos à nossa volta e por estarmos organizados em sociedade.
“Me, myself and I” em frente a um espelho, nunca será uma grande aventura.
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Nós, para o bem e para o mal, dentro desta nossa única percepção do que nos rodeia, somos as pessoas mais indicadas para vivermos a nossa vida e as nossas escolhas. A nossa história interior (e não falo da fórmula [nossa história = relato de feitos]) é uma deliciosa e única epopeia. A aventura das aventuras. Mais ninguém A pode cantar por nós. E essa é a nossa primeiríssima responsabilidade… cantar a nossa história até que a voz nos doa. Porque se não formos nós a cantá-la, os que a cantarem na nossa vez, vão esquecer-se de muitos pormenores e, essencialmente, da força que só nós lhe podemos dar. Não delegues nos outros algo que só tu podes fazer.
E é esta diversidade escondida em nós que nos torna nómadas. Na sua definição, nómada “é aquela pessoa que pertence a um povo que se desloca permanentemente para garantir a sobrevivência.” Vou agora reformular esta definição: Nómada, é aquela pessoa que pertence a tantas histórias vividas e que busca permanentemente mais histórias, para garantir a sobrevivência. Quando deixamos que as nossas histórias deixem de ter valor é quando morremos um pouco, ainda que a vida nos pulse no coração.
A busca constante por mais histórias, em nada se entalha na imaturidade. Pelo contrário! É essa busca que garante a nossa maturidade como caminhantes desta vida. É essa busca constante que nos amadurece para olharmos o que na verdade é importante. É essa busca constante que finta o entendimento dos outros, num resvalar de incompreensão e acusações de imaturidade.
E a família que decidimos constituir, algures nesse tempo de vida, é uma escolha de início de mais uma história. Se temos todas as certezas? Não! Se sabemos se vamos fazer melhor do que os nossos pais? Nunca! Se temos consciência de tudo o que nos espera? Nem teria piada se o soubéssemos. Estamos simplesmente a entrar na aventura da vida, escolhendo ir em vez de ficar. Desconfiamos que vai ser intenso e que nem sempre vai saber bem… mas escolhemos ir nessa aventura, com tudo o que temos. Talvez que humildade e coragem, seja começar (ir) de onde estamos e com o que temos.
Depois da aventura da vida. Depois da aventura das tuas únicas histórias, vem a aventura da família. Todos temos um cheirinho de como tudo se passa num Lar. Nascemos e crescemos num! Mas esta aventura só é verdadeiramente minha quando as escolhas são minhas. Quando vou, com mais ou menos convicção, mas vou. E a juntar às minhas escolhas estão as escolhas da minha parceira(o).
E é quando se escolhe ter filhos, que a aventura vai para um outro nível de experimentação. São seres, cada um deles, únicos e a iniciar a sua própria história. O Lar é o Espaço Humano que se vai construindo e que, como em nós, tem uma coleção de história comuns e pessoais, que só este Lar as pode contar. É O milagre da nossa história. Com uma influência brutal sobre a nossa percepção e apreciação das coisas que nos rodeiam. É ali que encontramos as primeiras e variadas lentes com que vemos o mundo. E dependendo da honestidade intelectual e emocional dessas lentas, assim experienciamos a vida.
E apesar da aparente complexidade da função dos pais no Lar, na verdade, só temos de nos preocupar em sermos a melhor paisagem que consigamos ser. O que nos leva de volta à nossa viagem pessoal. Que seja rica, honesta e empunhada com orgulho. Os nossos filhos vêem e retiram tudo o que for para retirar. Mas saberão que ali estão exemplos honestos do bom e do menos bom. A proximidade num lar existe sempre. Mesmo quando dizemos que as pessoas não se dão bem. Podem não estar funcionais ou a passar por uma enorme provação, mas entre todos a proximidade extrema prova-se com a compreensão inequívoca sobre o que se passa. Podemos não gostar do que estamos a ver, mas não há muitas dúvidas sobe o que vemos e, principalmente, sentimos.
As crianças que mudam muitas vezes de casa, ou que vivem de lugar em lugar por causa da profissão dos pais, são as crianças que mais cedo entendem, que a casa é apenas o albergue de algo muito superior. Uma espécie de concha do caracol. Que aceitam a condição de um núcleo familiar nómada e que, rapidamente, interiorizam que o Lar é onde estão “estes” todos. Os seus todos. E por mais que mudem de lugar, os cheiros, os sons, os rituais, os colos… não mudam. Melhoram e às vezes mudam por completo, mas mudam com o consentimento de todos. A mudança é, de certa forma, consensual. Claro que há sempre algumas lutas interiores e não só, como é o exemplo das amizades que são deixadas para trás. Amizades que precisam de cada vez mais tempo para se fixarem, e também, na medida em que se tornam cada vez mais importantes ao longo do crescimento da criança.
Mas a mensagem principal e muito importante que passa para estas crianças, que rapidamente chegam a esta sabedoria, é a de que não podemos desistir de querer contribuir para que o lar funcione cada vez melhor. O nosso instinto, quando algo não está bem do nosso agrado no Lar, é mudar qualquer coisa (como mudar de casa). Mexer na organização da vida em família. Adoptar alguns rituais que tivemos conhecimento num artigo de revista, entre muitas outras iniciativas. Estes são impulsos de algum modo, superficiais. Mas o que provavelmente irá resultar, no fim-do-dia, são as contribuições genuínas que cada um consegue individualmente trazer. Por que é só quando mudamos, que o mundo à nossa volta muda. E este micro-mundo é só e tão só, o mundo mais importante de todos.
Pela proximidade em que vivemos uns com os outros no Lar, sabemos o que na nossa atitude, hábito ou mania, chamem-lhe o que quiserem, não resulta com os outros. Se sabemos e se queremos continuar a acreditar que o Lar é a mais importante paisagem do crescimento pessoal, vamos querer ser os líderes desse constante reajuste. A inevitabilidade de estarmos agarrados emocionalmente uns aos outros, trás esta consciência: que o Lar é onde estamos com os nossos.
