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Os filhos como pombos correios.

Posted on Janeiro 23, 2026Janeiro 27, 2026 by Rui Melo

A energia e a atenção que colocamos em cada evento ou experiência, molda-nos a vida e para a vida. Acabamos por ser, ao fim dos muitos anos que cada um de nós vive, a soma dessa força com que olhamos as coisas e para onde olhamos. Somos, devagarinho, sem nós mesmos darmos por isso, um ser em construção, montado por todas as nossas escolhas, muitas delas sem serem conscientes. E por isso mesmo, dependentes fortemente das sucessivas paisagens a que nos vemos votados, mas que por alguma razão, nos aparecem no radar. Por alguma razão lhes prestamos atenção. Por alguma força omnisciente lá vamos construindo um caminho feito de múltiplas e sucessivas escolhas.

Sempre senti uma pergunta muito forte dentro de mim, enquanto me desenvolvia como pessoa: “estarei mesmo a crescer ou só a mudar?” Chegar ao fim do dia cheio de conquistas, nada dizia sobre a resposta a esta pergunta constante. O que dizia, isso sim, é que tinha conseguido reagir, corresponder e até inventado respostas, em relação aos desafios do dia-a-dia. A minha família, os meus amigos, a escola, os vizinhos, a comunidade em geral, tinha-me provocado e eu tinha correspondido de uma maneira bastante aceitável. E aceitável, sentia eu, quereria dizer que: não fui preso, multado, enxovalhado, sovado, maltratado, castigado até ao ponto em que não haveria jantar para mim, lá em casa. E o relativo sucesso do meu dia era avaliado desta forma grosseira. O que eu queria era ter uma semana inteira assim. E se a vida estivesse a correr mesmo bem, um mês inteiro e depois, um ano inteiro já com o sucesso escolar incluído. De fora, vinham elogios, mas nada rasgados, de que estaria no caminho certo. Mas o caminho não parecia nada ser o meu.

A inquietação não desaparecia ainda que no meio deste relativo sucesso. Os anos passavam. E a mesma inquietação: Quanta desta sobrevivência imediata estará a comprometer o meu crescimento mais importante. Aquele que se assemelha a evolução? E eu, lembro-me tão bem, não tinha linhas de orientação para sentir uma resposta a isto. Tive uma grande ajuda inconsciente, até para mim, por parte do meu irmão, três anos mais velho que eu (e já falecido). É que o meu irmão Tomané nunca se encontrou em paz. Nunca soube resolver todos os exageros do nosso pai. Nunca soube usar aquilo que melhor o definia, para seu proveito. Pelo contrário, destruiu e refutou aos poucos aquilo que nele era inato, extraordinário e que lhe poderia render os tais elogios que eu lá ia recebendo. E as únicas pistas que tinha sobre como levar uma vida em crescendo, eram dadas pela antítese aos comportamentos do meu irmão. Quando ele fazia uma coisa ou tinha uma atitude, eu estava muito atento às reações que as pessoas à nossa volta tinham. E, nuns sólidos e esmagadores 90% das vezes, as reações não eram boas e nada amigas. O que poderiam ter sido conversas com um jovem que precisava desesperadamente de alguém que o ensinasse a ser melhor, tornavam-se em acusação, crítica e raiva.

E assim, o meu irmão cresceu a gostar de ser o maior rufia da sala. Talvez assim tivesse a atenção de todos. Talvez assim estivesse preparado para a próxima atitude que iria chocar ainda mais os seus espectadores. Mas por que isto tudo me ajudou? Ao ver que determinada decisão do meu irmão não resultava perante os outros, eu fazia o oposto. Candeia que vai à frente… o meu mérito foi estar atento. O do meu irmão, sem ele saber, foi ajudar a moldar a minha visão sobre o mundo e sobre a forma como as pessoas pensavam. Transformei-me num mestre em sobrevivência social e familiar. Fui claramente ganhando tempo. Aquele tempo que fica só para nós quando tudo à volta está apaziguado. O meu irmão, não teve essa sorte. Tudo nele e no seu dia, era luta. Contestação. Defesa. Contra-argumentação. Nada no dia do meu irmão Tomané era paz, tempo em solitude ou até energia, para procurar essa paz. E quando não temos uma pausa que seja, não conseguimos resolver as nossas lutas mais importantes. Não conseguimos olhar os grandes enigmas da vida. Aqueles que interiormente nos lançamos e que, se demorarem muito tempo a resolver, vão ganhando a força de uma doença infecciosa.

E lá cresci evoluindo. Com a sorte de ter encontrado um mecanismo para me deixarem em paz. Já de forma semiconsciente, eu entregava o que as pessoas à minha volta estavam à espera e seguia com a minha vida. Com tempo para a solitude. Com tempo para testar as minhas centenas de ideias por dia, e com energia para implementar aquelas que eu achava serem dignas da pessoa que eu queria ser. Sempre me dividi entre o Presente e a formulação do meu futuro Presente. E tendo muito materializadas estas duas vidas. Estas duas realidades simultâneas. Foi, hoje sei, relativamente fácil, não deixar entrar o que constituiriam abusos a este futuro Presente. Mas a dúvida permaneceu até ao fim: este futuro que agora projecto constituirá uma evolução? Só muito mais tarde, quando as minhas opções, em contrariedade com as opiniões de quem me rodeava, começam a dar excelentes resultados, é que pude inaugurar o pilar da confiança. Aquele pilar que se vai fortalecendo na exata medida em que escolhes por ti e o resultado dessa escolha foi, no fim do dia, a que também te serviu melhor. Teria sido mais fácil ter crescido rodeado de gurus. Que me apontavam os caminhos e que estavam lá para as minhas maiores dúvidas existenciais. Claro! Conversar sobre a vida e discutir sobre os seus desafios é das melhores coisinhas que este convite para vivermos, possui. Um luxo que nem todos têm a sorte de usufruir. Mas não ter esse luxo não nos castra na evolução possível a que todos temos a hipóteses de almejar. Tive, muito mais tarde, os meus gurus: o meu tio Jorge. O meu tio Zé. Alguns amigos com quem tive a sorte de conseguir pactuar, para que crescêssemos juntos e ao mesmo tempo. Ensaiávamos centenas de parvoíces, criávamos estes lugares seguros onde tudo nos é permitido ser e dizer. Dizer asneiras e estupidezes, só é mau quando atirado aos outros. Talvez a única diferença para os dias de hoje: Nós éramos apenas asneirentos e estúpidos. Mas o grupo auto regulava-se e não permitia sermos crueis.

A energia e a atenção que colocamos em cada evento diz mais de nós do que outro qualquer mecanismo de aferição. Define-nos internamente e define-nos perante os outros… o que já não terá tanto interesse. Existirmos por nós, é a verdadeira cenoura. Aprender a visualizar, como se estivéssemos fora do nosso corpo e da nossa vida, aquilo que são os gatilhos que nos picam o rabo e que nos impelem a “correr”. Que nos impelem a mergulhar nos desafios, de os abraçar, de os cheirar, e de outras actividades mais ou menos eróticas, essas sim são As pistas sagradas da vida. São essas que não podem ser contidas. A curiosidade que decorre desses gatilhos, não deve ser mandada esperar. E numa criança, isso resolve-se com menos agenda e mais flexibilidade por parte da nossa vida. No crescimento infantil isso resolve-se com atenção pura, ainda que por um par de dezenas de minutos, dos pais para com os filhos. A agenda das actividades dos filhos com os pais, tem de ter a mesma importância (já para não dizer que tem mais importância) do que qualquer outra agenda da família. Quando um dos pais brinca ou presta atenção às necessidades do filho e o outro pai nunca o faz, também coloca em desequilíbrio e apela ao conflito interno da criança. Pois que a pergunta que começa a crescer no nosso filho é: “por que razão sou amado por um e não por outro?”. Estou a simplificar de propósito o problema. Mas atenção é igual a amor. “Se não tenho a atenção dos meus pais, o que devo pensar?!” E não devemos, como pais, cometer um dos maiores erros da parentalidade: obrigar os nossos filhos a seguirem o que explicamos com palavras medidas versus, o que sentem. O que sentem é o que fica dentro, a marinar, a crescer no sentido da sua interpretação e não da nossa (adultos).

As actividades com os nossos filhos, onde se envolva toda a família nuclear, são essenciais, de preferência, integrando de vez em quando os irmãos mais velhos. É fundamental para a criança harmonizar e construir um sentimento de pertença energética. Ao ver toda a família envolvida e sabendo a criança que é a mais nova do clã, confirma, de forma natural, que a actividade que estão a fazer faz sentido para o seu crescimento. Quando irmãos mais velhos, numa tentativa de afirmação de que já são muito crescidos para “certas brincadeiras”, se recusam a brincar ou a entrar em certos jogos, passam várias mensagens: que querer brincar é um estado temporário; que brincar não é algo saudável e muito sério para a nossa vida e crescimento; que os pais o fazem por obrigação e não por escolha e divertimento; que é melhor querer crescer rápido, para deixar de brincar e assim mostrar que já é crescido também. Actividades em conjunto são o melhor bálsamo para a união da família e para a aceitação das diferentes dinâmicas que cada um traz e em que cada um se revê e tira maior prazer. Não vamos estar só a fazer aquilo que nos dá gozo. Estamos a fazer aquilo que consegue dar gozo a todos, num compromisso alargado.

A comunicação num lar, pela proximidade de todos e pela intimidade a que todos estão votados, processa-se esmagadoramente em surdina. A retórica é muitas das vezes usada para relatar os nossos dias. Os nossos desejos. As nossas agendas. Os nossos desafios. Apesar de um Lar cheio dessas liberdades ser muito bom, a verdadeira comunicação opera-se subliminarmente. Quando os pais não comunicam entre si, estes níveis de abertura e de verdade caem a pique. E não estou a falar de palavras. Estou realmente a falar da energia que não comunica entre todos. Que não é entendida. Que é, muitas das vezes, vetada. Vetar a energia do outro é voltar as costas a essa energia que o outro traz. Se eu não tenho tempo ou paciência ou estou exausto para lidar com o que eu desconfio ser um estado problemático do meu filho, eu vou evitar lidar com isso. E sempre que existir uma tentativa ou leve aproximação do meu filho para desabafar, ou de pedido de ajuda para conversar, eu fujo. Boicoto. Reprimo… até que passe. O mesmo se passa no casal, como é óbvio.

Quando os filhos notam que os pais não comunicam, mas ao mesmo tempo, eles precisam que a vida em família saiba bem, começam a servir de intermediários energéticos. Vão iniciar um processo de leva e traz de mensagens e energias e, mais preocupante, acabam por perceber que é assim que funciona. Ou que pelo menos funciona melhor. Mas os custos para esta criança são elevadíssimos se não for reposto o equilíbrio energético. Este leva e traz para compor a família, consome energia e atenção em “doses cavalares”. Não apenas enquanto esta criança está em casa, essa parte até representa a menor parte do seu dia-a-dia, mas em especial fora de casa, nos seus pensamentos enquanto está na escola e nas actividades desportivas. Esta criança vai continuar pelo dia fora a maquinar estratégias para servir os pais e a família, para que esta funcione e se aproxime o mais possível da sua idealização de um Lar. O terrível no meio disto tudo, é que a criança está deslocada no que podemos considerar ser o eixo da sua vida. O natural no seu crescimento é estar voltada para a vida, a caminhar determinada, com os seus pais atrás, a darem-lhe força. Secundados pelas suas ancestralidades, ainda vivas ou não. Este batalhão de gente atrás da criança, é o que faz sentir de que tudo está no seu lugar. Claro que ninguém no seu perfeito juízo pensa que a nossa herança geracional foi e é toda boa, positiva e a reforçar as nossas capacidades para enfrentar os desafios da vida. Nada disso. Sabemos que recebemos muita coisas, que a seu tempo, vamos ter de resolver. Mas no geral, se tudo estiver no lugar certo, o conforto subconsciente existe.

Quando a criança tem de ir em socorro dos pais e da energia do Lar, volta-se para trás para resolver ou ajudar a resolver. Ora, ao voltar-se para trás, volta-se automaticamente de costas para a vida. De costas para o futuro. Sem estar atento ao caminho que trilha. Ao tal futuro Presente que, quando chegar, exige que a criança esteja forte. E ele chega todos os dias. Não espera. E se já é bastante desafiante para uma criança, ainda que use todas as suas habilidades, energia e atenção, singrar, imaginem quando uma boa parte dela está ao serviço de algo que não lhe pertence. Está ao serviço dos pais.

Toda esta dinâmica agudiza-se ainda mais em tempos de elevadas taxas de separação entre os casais. A criança passa a viver sempre ligada ao problema, ainda que, alternadamente viva uma semana com o pai e uma semana com a mãe. Muitas das vezes os pais separaram-se sem resolverem as coisas entre eles. E a única forma mais ou menos decente ou civilizada de comunicarem, é através dos filhos, com o envio de recados de um para o outro. Só o simples facto de um pai dizer ao filho “diz à mãe que na próxima sexta-feira vai ter de ser ela a levar-te ao futebol, porque o pai vai em viagem de trabalho”, é suficiente para cumprir todos os requisitos de Filho-do-tipo-de-Pombo-Correio. À luz do seu coraçãozinho, se os adultos não se entendem, ainda que eu seja a inspiração para se entenderem, então não me parece nada bem. O que é que impede esta criança de sentir que não é A razão suficiente para que os pais (que o amam) se entendam? O que acham que isto faz pela autoestima? E não só…

A criança pombo-correio tende a ter baixa autoestima, falta de empreendedorismo para com a sua vida, mais ansioso, mais permeável às ideias dos outros, mais conciliador do que às vezes deveria ser, mais subtrator ao que serão os seus melhores interesses. Como é que isto se poderá resolver? Com pais que aceitam deixar de ser crianças relacionais. Imaturas emocionais. Que enfrentam as diferenças que existem no casal. Que promovem as iniciativas que estejam ao serviço de algo superior a eles – os seus filhos. Pais que têm de ir urgentemente para o seu lugar de maiores e deixar que os seus filhos possam usar as reservas energéticas e de tempo, para ir com força e dedicação, para as suas vidas. Pais que voltem a usar o maior dos incentivos: o amor que têm aos seus filhos.

Brincar à parentalidade, normalmente, tem custos muito elevados para quem não tem responsabilidade alguma no processo. 

Sejam atentos!

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Autor

Rui Melo
Escritor

Sou um produtor de pensamentos muito atento. Sei que a família e o Lar ocupam um lugar muito especial no crescimentos de qualquer pessoa, mas em especial, na formação das crianças.

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