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A síndrome do Pai impostor.

Posted on Maio 1, 2026Maio 7, 2026 by Rui Melo
Uma das maiores ansiedades partilhadas pelos pais prende-se com a capacidade, ou não, de se executarem na sua parentalidade. A paternidade parece-me um conceito menos assustador. Não quero parecer um irresponsável, mas a capacidade de sermos pais biológicos parece não transportar tantas dúvidas ou ansiedades. Ou conseguimos ser pais ou não conseguimos… e fica adiado um sonho. Fim de estória.

Outro enquadramento completamente diferente, é quando enfrentamos as nossas maiores dúvidas, sombras e pesadelos, sobre se teremos ou não a capacidade de entregar amor, de guiar e de educar aquele ser que agora temos nos nossos braços.

Num português mais simples: fazê-los é fácil, tê-los já nem tanto e criá-los é um outro desafio completamente diferente e desassossegante. E o desassossego vem de termos alguma consciência daquilo que aquele ser, que acabou de nascer, precisa que lhe entreguemos. Do lugar de onde devemos partir (todos os dias!) para que lhe possamos entregar o nosso melhor. E é aqui que “a porca torce o rabo”. É que o melhor de nós, todos sabemos, nem sempre conseguimos entregar. Às vezes, não conseguimos entregar, porque nem sempre estamos disponíveis para o fazer. E às vezes, não estamos disponíveis por longos períodos. Ora, um bebé não pode ficar ali à espera de que os seus pais sejam funcionais. Uma espécie de intermitência parental que às vezes tanto nos apetece. E o bebé, ali à espera, que nos “dê jeito” assumir esta nova condição. O bebé precisa dos pais todos os minutos do seu tempo. E isso, claro, assusta.
Não estou nada preocupado com os pais inconscientes. Sobre esses, nem dá para escrever uma mão cheia de linhas. Mas se ficámos ansiosos com o que aí poderá vir, já é um excelente sinal de maturidade. É que esta, a maturidade, não se ganha com a experiência de se ter um filho. À parte da maturidade física, esta outra está mais relacionada com a capacidade de agir com responsabilidade, equilíbrio e inteligência emocional. Estar ansioso, poderá querer dizer que temos razoavelmente presente, que o que nos espera é verdadeiramente desafiante. Que o que nos espera nos vai levar ao limite das nossas capacidades. E eu, não encontro melhor palavra para isso: coragem. Ainda que tenhamos apenas alguma consciência do que nos espera, ainda assim decidimos ser pais. Talvez a primeira regra desta maturidade: Armamo-nos na exata medida do tamanho do desafio.

Mas o mais importante desta ansiedade latente, e que poderá existir durante décadas a fio (dependendo do número de filhos), é a nossa capacidade de a podermos integrar na nossa forma de estar. Em alternativa, não acolhemos esta ansiedade e migramos para um estado de inoperacionalidade quase total. Às vezes ajuda darmos um passo em frente e abraçarmos esse estado de ansiedade e de dúvida, como inevitável, para fazermos um ainda melhor trabalho.

Do outro lado da linha, a puxar para drenar esta ansiedade, poderá estar uma série de ensinamentos que nos dizem que os nossos filhos apenas precisam da nossa presença, em qualidade. Mas o que é isso de Presença?! Temos de encontrar as respostas para esta derradeira pergunta: mas o que significa estar presente? O que devo fazer para que os meus filhos sintam essa presença. Beneficiem dela? Sabe-se que eles aprendem pela retórica (muito pouco) e pelo exemplo (a esmagadora maioria). Sabe-se que o que mais precisam é de afeto genuíno e puro. Amar e ser amado com todos os defeitos que possuímos, é, no final do dia, a entrega mais verdadeira que lhes possamos fazer. Mil vezes a nossa imperfeita humanidade que um abraço de alguém cheio de conhecimento e sabedoria sobre parentalidade, mas que não existe (está) em conexão.

A conexão sente-se, não se ensaia. Não se dita, à luz das melhores práticas, como se estivéssemos a fazer o esquiço de uma nova relação. A vida é tão mais rica do que a previsibilidade auxiliada pela nossa mente. A vivência dos afetos acontece para além de tudo o que tenhamos previamente estudado fazer. Reagir. Premeditar. Não digo que não nos devamos preparar. Por observação. Pela leitura de livros. Pelas palestras a que possamos assistir. Pelas conversas que possamos incitar com os mais velhos ou com os amigos.

Conseguirmos ser, aos poucos, a nossa melhor versão, parece-me um excelente plano. Porque ninguém nasce ensinado a ser pai. Porque, por mais manuais que se escrevam, cada faísca de conexão entre dois seres é irrepetível… mesmo no seio das duas pessoas que geraram aquele aprendiz de humano. Esta é uma ideia muito importante para encorajar os pais que adotam bebés e crianças. O que aquele ser minúsculo e indefeso espera de nós, é amor presente, constante, enquanto a vida acontece a seu tempo. Todos os eventos de paternidade começam a perder as vantagens que trazem logo a partir do momento do nascimento. A partir do evento do nascimento, o que conta é a parentalidade e, neste domínio, que é o futuro daquele ser, pais biológicos e não biológicos convergem para as mesmas e mais relevantes dinâmicas no domínio da educação de um ser humano.

O grande desafio é mesmo amar acima de todas as condicionantes. Amar, apesar dos dias que nos consomem as energias todas, parecendo não nos deixar com algo mais para dar. Viver o amor, como uma possibilidade em constante construção e deixando-nos contagiar por aquele sorriso que nada pede. Que nada esconde. Apenas existe em modo de saborear a vida e que nos espicaça com a energia necessária para mais um movimento de carinho partilhado.
Saber mudar fraldas, estar atento à saúde, vacinas e rotinas médicas, aprende-se. Ter alguns cuidados para criar um ambiente protector para as “deambulices” do bebé e depois criança, é bom senso. Tudo se aprende… Com excepção de sabermos Ser e sabermos Estar, para que eles nos imitem. Perdão, desculpem! Até isso se aprende, mas leva muito tempo. Eles crescem a uma velocidade muito superior àquela a que conseguimos mudar como Pais à frente desta Parentalidade.
Então qual é a solução? A esta altura do texto, já pensaram que não estou a ajudar nada em relação à diminuição da vossa ansiedade. Espero que não seja o caso. Até porque poderei ter o antídoto para esse estado que muitas das vezes nos paralisa e nos atira para não sermos a nossa melhor versão. Então o que fazer?… Não deixarmos entrar a síndrome do Pai impostor.

Todo o desenvolvimento humano passa por estas fases:

Primeiro, descobrimos o que temos de mudar em nós e que não é lá muito útil na criação de um ser que amamos tanto. Como? Através da leitura, tertúlias, pensamentos, entre outros.
Segundo, desenhamos essa nova versão de nós. Sonhamo-la. Vivemo-la por antecipação e aceitamo-la como o melhor para a vida de todos no lar.

Terceiro, iniciamos a mudança. Mas como a mudança demora muito, antecipamos os benefícios desta sabedoria consciente, e vivemos já, de acordo com o que queremos vir a ser, e repetimos as vezes que forem precisas, até que a rotina vença o velho Eu e se instale no nosso mais profundo ser. E quando pensarmos, ao deitar, que estamos em esforço, respondemos ao espelho que é por um bem maior.

Quarto, tornamo-nos na nossa melhor versão, ancorados num amor irrepetível e avassalador. A rotina consciente vence todos os obstáculos internos.

E que forma mais deliciosa para querermos mudar.
Mas é ali, no segundo momento, que tudo se joga. Porque já estamos a preparar a nossa melhor versão. Ela ainda não está pronta, mas já sabemos para onde queremos ir. E muitas das vezes sentimos que ainda não somos verdadeiramente nós, aquele que se apresenta perante a família e perante o bebé/criança. Sentimos que estamos a “vender” a ideia de sermos alguém que ainda não somos…

É agora que não podem deixar que a ideia de serem uns impostores vos assole. Mas na verdade, é quando já sabemos quem queremos ser, é que se torna importante decidir entregar essa melhor versão… Não faz nenhum sentido que entreguemos aquela que está menos certa, só porque a nova versão ainda não é totalmente nossa.

Entregar aos outros aquilo que sabemos estar mais certo, apesar de ainda não termos chegado lá, é de uma maturidade a toda a prova. É a maior prova de amor. Querer saber mais para acertar mais, é a maior prova de amor. E, enquanto trilhamos este caminho, nada nem ninguém nos pode dizer que somos impostores por ainda não vivermos dessa nova forma melhorada. Prefiro mil vezes quem se esforça por fazer diferente e melhor, do que aquele que repete a segurança do seu passado.

Temos um provérbio muito interessante: “Não faças o que eu faço, faz o que eu digo”.

O meu médico diz-me para deixar de fumar apesar de ele ser um fumador. Isto é de um altruísmo a toda a prova. O meu médico sabe que é melhor deixar de fumar. Para os dois. Para qualquer ser humano. O meu médico luta para deixar de fumar, mas enquanto não consegue, entrega-me o melhor conselho que conhece.

Aprender – iniciar a mudança – entregar o que se aprendeu – integrar com o tempo – tornar-se na pessoa que um dia sonhou mudar.

Eis o caminho.
Sejam atentos!

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Autor

Rui Melo
Escritor

Sou um produtor de pensamentos muito atento. Sei que a família e o Lar ocupam um lugar muito especial no crescimentos de qualquer pessoa, mas em especial, na formação das crianças.

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