Já estou fartinho de evangelizar esta ideia sobre a profunda diferença entre a Paternidade e a Parentalidade. E parece que nunca serão as vezes suficientes para que as pessoas acabem por mudar e eduquem os seus filhos neste novo sentido que quero defender. “Mas para quê mudar se é apenas uma questão de linguística?”, poderão dizer!
Como vão perceber não é apenas linguística, vocabulário, discurso, ou outras que tais. As palavras carregam significado, que, sem darmos por isso, entranham-se na nossa forma de pensar e sentir. Por isso, é muito importante que se acertem as agulhas para que tenhamos cada vez mais crianças saídas de Pais esclarecidos. Estes sim, já vão ser adultos e futuros Pais imersos de uma nova postura. A esperança de viverem a partir de uma melhor parentalidade, para que tenhamos seres humanos melhores.
Comecemos pelo princípio. A paternidade é mesmo o início de tudo. Mas essa condição dura muito pouco. Vejamos. Certos orgulhos de se ter filhos estão encravados naquilo que se herdou da nossa ancestralidade. Da cultura da nossa família. De uma certa forma subliminar de se ser e de se estar na vida. Um legado que convém perpetuar… tudo frases dos tais “orgulhosos” de serem Pais. Mas, e se o que se quer perpetuar não presta, veio cheio de erros ao nível da expressão emocional e educacional?
A paternidade arrasta este conceito de posse. “Tu és meu filho tens de me respeitar. Tens de ouvir o(a) teu pai(tua mãe)!”
Apesar dos desafios actuais ao nível da fertilidade humana, ser Pai ainda é relativamente fácil. Não porque a questão da fertilidade não seja crítica, e podemos agradecer ao ser humano por isso, mas pela simples razão de que tudo tende a correr bem depois da fecundação se efectivar. A Paternidade é fácil porque segue um Protocolo Biológico, patrocinado pela Natureza. Quero acreditar que um dos segredos mais bem guardados na natureza seja este mesmo: Duas pessoas juntaram-se e quiseram ter um filho. Fizeram sexo ou amor, escolham, e agora: saiam da frente e deixem a natureza fazer o seu trabalho.
Já na Parentalidade, o Protocolo que é activado é o do Ser Humano. E esse, aparentemente, não vem escrito em lado algum. Entende-se porquê… é que até agora não existem quaisquer consensos sobre como deveria ser esse Protocolo. Ainda se torna mais complicado, quando cada vez somos mais únicos e por isso, deu-se uma certa privatização da razão de cada um. É urgente encontrar algumas regras universais para que o Protocolo para a Parentalidade, o do Ser Humano, possa servir para alguma coisa.
Estes dois factos, que passo a mencionar, acrescentam uma enorme dificuldade para a construção desse hipotético Protocolo: Um, não vimos com instruções sobre ser Pai, que seriam reveladas aquando da nossa passagem a adultos; Dois, e os bebés, também eles, não vêm com instruções acopladas, para que as possamos ler.
E é desta forma singela que levamos o maior estalo (de mão bem aberta e os dedos cheios de anéis com caveiras) da nossa vida. O estalo da Paternidade, o do Protocolo Biológico, que na sua última instrução, reza assim: “já fiz a minha parte e correu tudo bem. Agora vê lá se me consegues igualar!”. E nós, a tremer das pernas, lá seguimos sem aceitarmos muito bem este desafio.
Mas vou equilibrar um poucos as coisas para o lado da Parentalidade. Aquele que é da responsabilidade do Ser Humano. É que o Protocolo Biológico tem estado a ser melhorado e refinado ao longo dos milénios e concentra-se apenas nos 9 meses de vida. Já o Protocolo do Ser Humano tem variado constantemente e os ensinamentos entre Pais não têm circulado da melhor forma que se poderia desejar. Vai nos valendo algumas investigações recentes (menos de 200 anos) sobre a importância da parentalidade. Agora pensem comigo, onde é que Nós tínhamos a cabeça para só agora termos chegado lá?! E não me respondam que a tínhamos no meio das pernas de outrem. Isso é baixar muito o nível deste texto, mas acho piada à maneira como estão a pensar. (risos)
A execução do Protocolo do Ser Humano, vulgo, parentalidade, estende-se por décadas. Somos a espécie a viver no Planeta com maior período de cuidados parentais iniciais. Nenhuma outra espécie está este tempo todo para concluir que a cria/filho já se encontra com todos os ensinamentos e apto a sobreviver à vida lá fora. O que não prevíamos é que a “vida lá fora” tem-se tornado cada vez mais complexa, colecionando incontáveis riscos. Estimo, por isso, que a idade a que um jovem adulto estará em condições de sair de casa dos seus Pais, aumente para uns crescentes e incomportáveis números.
Parentalidade é O desafio mais difícil que alguma vez vamos encontrar ao longo da nossa vida. Mas também o mais compensador.
Mas a idade artificialmente alta (culpem o modo de vida actual) a que os filhos abandonam a casa dos pais está a trazer muito mais desafios à educação e ao convívio entre Pais e Filhos. Vejamos: um jovem adulto já quer expressar a sua independência na forma de pensar, viver, estilo de vida, entre outras. Estando ainda em casa dos pais, ainda que já se encontre a trabalhar, as regras que existem naquela casa acabam por não ter mudado assim tanto. E os donos das regras continuam os mesmos, desde aquele primeiro dia, em que só trocavam fraldas, alimentavam, vestiam e andavam com eles ao colo. Mas o filho, agora já com o seu emprego, mudou bastante, e o seu pensamento, por se encontrar em convivência com outras realidades só para adultos, está-se a transmutar.
E é desta forma natural que todos nos encontramos, em certo momento da nossa vida, numa relação de stress entre pais e filhos. Por esta altura da relação, tudo, ou quase tudo, é anti natura. Pais e filhos já não se encontram na fase da educação. Da Parentalidade. A relação veio agora, novamente, para a Paternidade. Apenas isso. Ambos sabem de onde vêm. E é agora o momento de os filhos clamarem pela sua vez. Mostrarem do que são capazes. Sem a sombra da Parentalidade. E tudo o que se intrometa no curso normal da vida – fase de adulto, é vista à lupa da hostilidade.
Já perceberam?! A Parentalidade é o que verdadeiramente nos liga nos valores entre seres humanos. Sem imposição. Uma Parentalidade saudável é aquela que cria condições para que todos se executem, da melhor maneira, nas várias fases em que cruzam as suas vidas. Somos todos temporários uns nos outros. E o que se torna mais difícil na vida é sabermos ser na exata medida do que o outro precisa, revelando o amor incondicional que é suposto suportar as relações entre pais e filhos. Teoricamente seria muito fácil: eu crio o meu filho ensinando-o a ser a pessoa que no futuro me vai amar, respeitar e tratar bem. E já agora, fazer o mesmo com os seus filhos, meus netos. Mas não!
Existe sempre este flagrante exemplo que cala a boca dos “puristas” e daqueles que não se querem esforçar na parentalidade: O caso da adoção. Aqui reside, verdadeiramente, o exemplo para se explicar aquilo que a Vida espera de nós e o que devemos fazer a partir do momento em que temos um bebé ou uma criança à nossa responsabilidade. Da Paternidade podemos fugir, da Parentalidade não. A Parentalidade aceita-se. Podemos cometer erros (e já lá iremos), mas continuamos ali, a fazer parte da vida daquela criança. Quem, por variadas razões, fugiu após a nascença de um filho nunca poderá dizer que é ou foi Pai. Não tem esse direito.
Voltando à adopção, todos conhecemos histórias de sucesso de Parentalidade sem uma paternidade biológica associada. “É Pai quem cria”, ouve-se vulgarmente por aí, mas reconheço nesta expressão popular, uma imensa sabedoria. Eu esticava ainda mais a corda dizendo que, só nos sentimos verdadeiramente Pais quando somos reconhecidos pelos nossos filhos. E para uma criança adoptada, aquelas duas pessoas (ou apenas uma) são tudo o que precisa de saber acerca das suas origens.
Nós vimos de uma construção familiar, educacional e social. E quem nela participou é que faz parte das nossas origens. E também é isso que nos faz portugueses, espanhóis ou italianos. Esta narrativa sobre pessoas juntas em determinado momento, torna-se incontornável. Somos uma história que acaba por ser desenhada por quem “estava”.
Sabiam que muito do stress latente (geracional) na Parentalidade deve-se ao facto de até há uns 100 anos a esta parte, os Pais escolhiam não se afeiçoar muito aos seus filhos até à idade dos seus 6 anos, pela alta probabilidade de morte infantil? Quereria isto dizer, que o amor era escasso nesta Parentalidade? Que os cuidados estavam essencialmente ligados à sobrevivência física? Que esta era uma escolha para uma certa proteção emocional dos Pais, em relação há sempre presente catástrofe da mortalidade infantil?
E também sabiam, que até há bem pouco tempo (menos de 30 anos) ainda se perguntava (nos hospitais e maternidades portuguesas) aos pais biológicos de um bebé com deficiência, se o queriam levar ou deixar para trás para adopação ou institucionalização?
… e chamam a isto uma civilização evoluída? Temos tanto caminho a fazer que, da minha parte, apenas tento pensar pela minha cabeça e não pelas regras desta sociedade.
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É verdade! Não nascemos ensinados a ser pais, mas o “mundo moderno” tem conseguido produzir literatura que nos vem ajudando a integrar mais amor e a procurar uma maior conexão com os nossos filhos. Mas o meu olhar já se prendeu numa questão que tem vindo a ser negligenciada: E como é que aprendemos a ser irmãos? Todos sabemos que os irmãos se relacionam por inspiração do que observam à sua volta. Primeiro, olhando e imitando, o que será a relação entre duas pessoas adultas: os pais. As crianças não sabem descontar o facto de aquela ser uma relação amoroso-romântica. Esta cópia de comportamentos, também se dá através das relações entre irmãos-amigos, irmãos-vizinhos (cada vez menos) e irmãos na escola. Escusado será dizer que toda esta observação de irmãos tem uma pré-influência dos respectivos Pais.
Infelizmente o número de famílias com dois ou mais filhos tem vindo a decrescer gravemente.
E é aqui que ainda vejo os maiores atrasos na Parentalidade. A ausência desta componente de se ensinar a ser irmão. E como somos cada vez mais filhos-únicos, porque não, ensinar a ser amigo. E abandonar um pouco a força que se faz para educar para a sobrevivência. Sendo útil em alguns aspectos, noutros, menos bem explicados, chocam com os valores da partilha e da convivência pacífica com os outros. Todos temos amigos que são como irmãos. Os fundamentos são os mesmos.
No caso em que um dos irmãos é portador de uma deficiência física ou cognitiva, ainda mais urgente é produzir-se conhecimento acerca da forma como queremos influenciar pela positiva um relacionamento entre irmãos. Temos de ter consciência do quão desafiante é para um irmão sem deficiência, ter de aprender sozinho a lidar com a experiência única que é crescer com um irmão portador de deficiência.
Nada do que observa nos outros pares de irmãos, sem que sejam portadores de deficiência, o ajudará neste caminho. E quando pensamos no flagelo que é o bullying nas escolas e não só, imaginamos o factor multiplicativo de dificuldade na vida destes irmãos. Não podemos varrer este assunto para debaixo do tapete: se os respectivos Pais não sabem lidar perante familiares, amigos, colegas de trabalho, entre outros ambientes, deixando escorregar rapidamente para o baú dos assuntos tabu. Agora imaginem o exemplo de fraqueza e desamparo que estes Pais estão a ser para o filho sem deficiência…
Se reduzirmos todas as relações humanas a uma fórmula surpreendentemente simples que é: somos todos seres únicos à procura de amar e ser amados. A ênfase nas diferenças não contribui em nada para a experiência humana da vida. E se queremos aproveitar ao máximo esta experiência humana, devemos integrar, sem restrições ou atritos, tudo o que nos rodeia.
Estranhar é apenas um estado temporário de pré-integração e sabedoria maior. Não deve ser contornado ou evitado. É urgente que o nosso bem-estar deixe de depender tanto da normalidade. Do que é conhecido. Daquilo que, ou nos oferece dopamina ou abandonamos como não fazendo parte da nossa “ascensão”.
Pessoas, coisas, lugares… não são maus de per si. São o que a nossa relação com eles assim o ditar. Até a nossa relação com uma memória influencia o nosso bem-estar. Ensinemos os nossos filhos a relacionarem-se de forma positiva e construtiva com tudo o que os rodeia. No topo desta lista, estão, como é óbvio, os irmãos portadores de deficiência e depois os outros irmãos. É preciso deixar de promover a relação entre irmãos através dos Pais.
Os Pais morrem e os irmãos ficam. E são estes que vão ser o verdadeiro legado de uma família.
Sejam atentos!
