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Sermos Paisagem Uns dos Outros

Posted on Janeiro 3, 2025Dezembro 22, 2025 by Rui Melo

O que mais me entusiasma na produção de pensamento é a descoberta de novas formas de olhar a vida. E sendo a vida rodeada de pessoas, como olhar de forma critica para quem nos rodeia?

Gosto de pensar de que somos vítimas de uma certa biologia que nos afeta a todos. Quando passamos diariamente por um sítio, transformamo-nos, instantaneamente, nuns incompetentes para criticar esses sítios. Perdemos esse olhar de curiosidade que ainda mantemos em relação às paisagens que nos são novas. Por esses recantos familiares, já não conseguiremos descobrir pormenores, falhas, feitios e outras quicadas. Tudo se mesclou numa só paisagem, chata e sem pormenores de interesse a salientar. Estamos habituados a essa paisagem e já fazemos parte dela. Se queremos mudar, temos de pedir ajuda. Temos de pedir emprestado um outro olhar. Ou então, fazermos nós o esforço de olhar com redobrada atenção e dispêndio de tempo (que não temos).

Essas paisagens a que nos habituamos, moldam-nos. Influenciam-nos de tal maneira que deixamos de perceber onde começamos nós e acaba a paisagem, humana, bem-dito seja. Eu, já há muito tempo que aceitei que sou influenciado pelas pessoas à minha volta. Já desisti de o negar. Principalmente, depois de ver tanto dessas pessoas, dessa paisagem, em mim. E, quando nos apercebemos dessa marca deixada, já é tarde. Já se tornou hábito. Feitio. Personalidade. Já nem conseguimos provar que aquilo que agora os outros veem em nós, não é nosso. Nunca foi nosso, que foi adquirido “sem querer”.

“Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

Antoine de Saint-Exupery

Como humanista, ainda bem que assim é. Somos paisagem uns dos outros. Uma maravilhosa condição desta humanidade. Mas então como fazer para estar vigilante?! Para que não entre em mim aquilo que não quero que me mude para pior. Se por um lado o que me fortalece e engrandece é bem-vindo, por outro, a mediocridade que paira como um abutre, já não a quero misturar com o que são os meus princípios e valores. Mas, depois do mal feito, feito está!

Gosto de pensar que podemos prevenir agora em vez de curar mais tarde. Ter a necessidade de curar, significa que o mal já está feito. Torna-se depois um caminho mais longo e pouco seguro. Prevenir, já me entusiasma mais. Encontrar formas de evitar que fiquemos “pior” por contágio com os outros. A tal paisagem que nos engole. Prevenir é a oportunidade de vivermos mais despreocupados. Mais soltos. Mais leves. Se sabemos que estamos a prevenir o colesterol com exercício físico regular, o entupimento das veias passa a não ser um tema que nos assombre. Gosto de pensar que prevenindo, acabo por libertar mais espaço no meu cérebro, aquele espaço dedicado às ansiedades, para me preocupar com outras coisas, quiçá, mais importantes.

Neste caso, prevenir, é estar atento à paisagem humana que nos rodeia e, se for preciso, ter a coragem de a trocar… as vezes que forem precisas.

Quem, de entre nós, está mais fragilmente exposto à paisagem humana? As crianças, claro! E nós, pais, encabeçamos essa lista de importância nas suas vidas. Estou a falar do nosso exemplo perante os nossos filhos. De sermos a sua Primeira paisagem. Somos de facto a sua mais importante e constante paisagem. Somos os seus primeiros influencers e eles os nossos mais fervorosos seguidores. Ocupamos esse papel de destaque nas suas vidas e devemos querer honrar o palco que temos à nossa disposição, por essa via. A responsabilidade é muita, pela simples razão de termos a oportunidade de falar e eles de nos ouvirem, e sempre em prime time.

Um exemplo que gosto de dar, mas que promove o divórcio… vou ser excomungado! Se o casal já tentou de tudo para se dar bem e mesmo assim não consegue manter uma relação saudável, o que os filhos estão a aprender é até muito simples. “O amor é…”: discutir a toda a hora; ausência de carinho; ausência de palavras de afeto e de encorajamento; não cuidar do outro quando este está frágil; não querer o melhor para o outro; etc… Até podem contestar-me, mas nestas duas coisas penso que não: Que é isto que está a acontecer e que estão a ensinar o que o amor é e que eles vão levar para as suas relações.

Nós não nos podemos subtrair às suas vidas. Não é um lugar de onde nos possamos demitir. Mas façam as vossas contas: Não são assim tantas as horas que passamos com eles. Eles também têm vida própria… e ainda bem. Dizem que, eles só precisam de meia hora diária do nosso tempo e da nossa atenção. A partir disto, estamos “despedidos”, e vão às suas vidas. É preciso relaxar e assumir esta posição privilegiada de responsabilidade, assumindo a minha segunda regra de prevenção, na parentalidade. Se eu entrar em modo de querer saber mais para acertar mais, nenhum erro (que vou cometer na mesma) me assombra, porque estou a tentar o meu melhor. E isso dá-me um poder enorme como ser humano.

Temos mesmo de querer ser uma boa influência para os nossos filhos, mas, ao mesmo tempo, encontrar estratégias para que isso não nos esmague, ao ponto da inação total. Ainda assim é mais fácil prepará-los para o seu caminho, do que preparar o caminho para eles (como parece ser a vontade actual da maioria dos Pais). Nesta segunda escolha, além de ser uma missão quase impossível, não os prepara para a vida adulta. Sabemos que eles têm a “câmara de vigilância” sempre ligada, mas até os nossos erros lhes são úteis.

Isso leva-me a pensar que existem outras paisagens humanas também muito importantes. E para essas, até porque raramente estou presente, tenho de conseguir tirar algumas conclusões e de agir sobre elas, se for preciso. Mas em que sentido? Por exemplo, se essas outras paisagens se alinham com os meus valores e princípios. Com a minha forma de estar e com a forma de estar que a minha família quer seguir. Se desta reflexão resultarem inquietações, então devo promover a mudança. Não, no sentido de mudar essas pessoas ou instituições, que são a tal paisagem, mas que levariam a discussões sem fim à vista, mas mudarmos nós para outros lugares que se adequem melhor ao que queremos para os nossos filhos.

Raramente os outros são iguais a nós e por isso, uma escola que servirá a uma família não servirá a outra. O mesmo com as actividades desportivas, artísticas ou de outra natureza, que são as mais importantes logo a seguir à escola.

Mas, não queria deixar de ainda mencionar uma outra paisagem, também ela muito importante: As famílias amigas que visitamos e que nos visitam. Neste caso estamos presentes, mas não deixa de ser extremamente difícil de intervir com coragem e determinação. Se, em qualquer momento, encontrarem razões para ficarem desconfortáveis com alguma conversa, atitude ou gesto que não cole com aquilo que são os vossos valores, mudem de paisagem. E aqui, como é óbvio, é ter a coragem de deixarem de visitar esses amigos e de reduzirem as vezes que os convidam para vossa casa.

Só me fica bem sugerir que tentem falar com esses pais (amigos) e os chamem à “razão”. Que tentem provocar uma discussão saudável sobre o tema. Mas todos sabemos que esses são assuntos tabu e que mesmo que a conversa aconteça, de forma saudável, as mudanças tardam a acontecer ou nunca se operam de todo. Mas deixo aqui um voto de coragem para as inúmeras tentativas.

Uma das coisas que convém que aconteça, independentemente do cenário que escolherem, é a conversa com os vossos filhos sobre esse “algo” que aconteceu, que eles presenciaram e que não é do vosso agrado. Se nada for dito, os nossos filhos ficam com a ideia de que aquilo a que assistiram é normal. Que é aceite pelos seus pais. Que só não lhes acontece por uma questão de sorte ou, então, que ainda não aconteceu, mas que é uma questão de tempo até que aconteça. Ora, isto é educar pelo silêncio. E isso é que não convém nada promover. Falem sobre o que aconteceu e vão, com tempo, acabando com estas paisagens que teimam em repetir a forma “errada” de estar e que tanto influenciam os vossos filhos.

Só nós temos esse poder. Não o podemos delegar.

Sejam atentos.

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Autor

Rui Melo
Escritor

Sou um produtor de pensamentos muito atento. Sei que a família e o Lar ocupam um lugar muito especial no crescimentos de qualquer pessoa, mas em especial, na formação das crianças.

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