Como ser humano que sou e bom representante desta espécie, com uma capacidade imensa para ser espiritual, sempre me inquietou saber se estamos desenhados para não ter mais do que um determinado número de filhos. Não eu, em particular, mas os pais em geral. A figura de cuidador na nossa espécie humana. Um porco poderá ter várias ninhadas. Os cães também. Nestes dois exemplos, como noutros, as suas crias estão pouco tempo com os seus progenitores. Mas nestes casos, ainda que sendo ninhadas grandes, estas raramente se cruzam umas com as outras.
No exemplo da humanidade, somos a espécie que tem a mais longa preparação para a vida adulta. E não tem melhorado. Em média, estamos a sair muito tarde de casa dos nossos pais. Justificações sociológicas à parte, a média do dito primeiro mundo é de pouco mais de 25 anos. Ora, as “nossas ninhadas”, e imaginando que às vezes são gémeos ou mais, cruzam-se umas com as outras. E nós, seres finitos nas nossas capacidades, vivemos nesta circunstância de sermos educadores para todas as ninhadas, que coincidem no tempo.
Resultado, temos os filhos debaixo da nossa asa por décadas. E os irmãos, por mais que tenham muitos anos de diferença entre eles, cruzam-se demasiado tempo na família. Uma alongada convivência no mesmo Lar que me atira para esta sensação de não “ser lá uma grande coisa!” Estarmos com os nossos filhos não tem, aparentemente contraindicação alguma para nós. Já para eles, estarem em nossa casa, adiando-se na sua vida adulta, quando o que lhes faria bem era estarem a trabalhar na sua autonomia, já me levanta muitas reservas.
Eu entendo que a parentalidade tem uma enorme e importante missão: estar presente com o que, a cada momento, cada um dos nossos filhos precisa. Nem mais, nem menos. Mas na verdade, nem sempre têm as condições para saírem de casa… enfim. Faz parte do nosso crescimento como educadores, sabermos equilibrar isso. Será fácil? Não, de todo. Mas é nesses desafios constantes que nos tornamos outra pessoa. Mais madura e completa. Mais preparada para os desafios da vida, da nossa, que não param de nos chegar até deixarmos de estar neste plano. Não sei se virei a saber o que é ser-se pai de um filho com mais de 30 anos de idade e ainda a viver em nossa casa? Nem imagino as disfunções que isso me poderia provocar. Por um lado, temos de os apoiar sempre, por outro, a tendência para os criticarmos quanto às suas escolhas, quando estas colidem aparentemente com a “solução” das suas vidas.
Por outro lado, consigo antecipar uma série de outros problemas. É que chega a uma fase na vida de ambos, pais e filhos em “idade avançada”, em que a palavra educador já não se aplica, ainda que exista um Lar, pais e filhos. Esta relação já não é a mesma. Estamos perante adultos, que têm direto à liberdade de tomada de decisão. À escolha de fazer asneiras e aprender com os erros. Alguns até já trabalham. Mas, no entanto, continuam numa casa onde as regras, por respeito, são de uns outros adultos, que por um acaso, são os pais, mas que já não querem estar (principalmente) nessa função, e prefeririam estar a ser avós e a divertirem-se a “estragar” os seus netos.
E é aqui que os meus dois sobressaltos persistem e que este texto ainda não resolveu:
- Será que haverá um número de filhos a partir do qual os pais já não conseguem dar o que cada um deles precisa? e, o outro sobressalto,
- será que haverá uma idade limite para se continuar em casa dos pais, ao ponto de estes já estarem a ser uma influência negativa para os seus filhos adultos?
Prefiro, agora, demorar-me no primeiro dos meus sobressaltos. Quanto ao outro, deixo para um outro ensaio.
Sejamos pragmáticos. A atenção que dois adultos conseguem dedicar a dois filhos é completamente diferente da disponibilidade para quatro filhos. A conta parece ser fácil. Mas parece haver tantos fatores ainda a ter em consideração, que eu prefiro ser precavido em vez de saltar para conclusões precipitadas. O que é isso de darmos atenção suficiente aos nossos filhos? É um conceito nosso, dos psicólogos ou dos nossos filhos.
Vejamos:
Segundo o nosso conceito
Se formos nós a classificar este conceito, colocamos muitas variáveis em jogo. Podemos não dar a atenção suficiente, mas, e há sempre um mas, damos-lhes tudo o que precisam: um lar, roupa, comida, escola… “e isso não conta?!”. Temos tantos dias no ano em que os podemos compensar dos nossos outros tantos dias em que… não temos tempo, ou não estamos com energia, ou porque a nossa vida também conta, ou porque agora não é boa altura por estar mal comigo mesmo.
Acresce ainda, que cada adulto tem uma certa capacidade ou inclinação para lidar com a parentalidade. O tal “jeito”. O que a um pai custará educar 6 filhos, a um outro bastará apenas um filho para se encontrar ao mesmo nível de apneia. Aqui conta muito vivermos em abundância. Estarmos bem connosco. Talvez assim a nossa capacidade de entrega aumente para níveis em que sentimos que damos o suficiente e que ficamos com o suficiente também para nós. É um bom sinal, termos a sensação que resta tempo e energia para nós.
Segundo os psicólogos
Se for a ciência a classificar este conceito, haverão milhentos estudos que apontam para uma escassez de oferta da nossa parte, assim que tendemos para ter muitos filhos. Existe até uma corrente que afirma que o equilíbrio será de dois para um. Querendo isto dizer, suponho, que a cada adulto, dois filhos. Claro que aqui é deixada a porta aberta para as famílias que têm os avós por perto. Neste sentido, estamos já a falar de oito filhos a serem equilibradamente educados por quatro adultos ou até mais, dependendo do número de avós.
Outra corrente diz, que bastará meia hora de qualidade, por dia, com cada um dos nossos, para eles já não serem futuros sociopatas ou coisa ainda pior. Mas e os desencontros de agenda? Quando essa meia hora de qualidade tem de acontecer num momento em que não podemos de todo? “Eu tenho meia hora de tempo de qualidade para ti, mas não pode ser agora!”… Mas não nos esqueçamos da capacidade dos pais em se organizarem, em terem regras sãs para todos, em serem eficazes em relação às distrações todas que a vida nos oferece, em, e nos tempos que correm é um flagelo, não darem aos filhos tudo o que eles pedem e tornam urgente nesses seus constantes pedidos.
Segundo os filhos
Esta é a minha preferida. Segundo as minhas filhas, nunca fiz, não estou a fazer e nunca hei-de conseguir fazer o suficiente por elas. O suficiente, bem-dito, até ao exato ponto em que lhes arranco uma confirmação que me faria dormir mais descansado: “és um excelente pai!” O primeiro curso que os nossos filhos tiraram na escola da vida, hoje tenho a certeza disso, foi: “como viver de mão estendida para que se consiga obter metade do que se pediu” Dando vida a um provérbio bem português: “quem não chora não mama!”. Como seres ego centrados que são, esta é a ideia passada constantemente aos pobres pais.
Ainda assim, esta é uma atitude que felizmente vai sendo abandonada à medida que eles crescem. Se não vos acontecer esta espécie de abandono progressivo de personalidade “tóxica”, então é bom que estejam atentos e operem urgentemente algumas mudanças. Governar é descontentar e por isso, não vão atrás do que o “povo” vos reivindica. O risco é aceitarmos esta constante rebelião sem a colocarmos em causa. Se deixarmos que o nosso dia-a-dia assente nesta ideia de sermos constantemente insuficientes, não vamos ficar bem.
Conheço pessoas que conseguem gerir muito bem a sua vida, no meio de uma enorme ninhada. Conseguem ter tempo de qualidade para eles, ainda que também o entreguem aos filhos todos. Um por um. As regras administrativas de uma família numerosa, são muito importantes. Não que eu pense que um regime militar, no seio de uma família numerosa, seja a única forma de sobreviver. Antes esta ideia de que, se houver regras bem vincadas e seguidas por todos, os filhos crescem em disciplina para a vida. Mas a grande boleia deste “regime” é a saudável oportunidade de sobrar mais tempo para o Lar, para a atenção em relação às emoções e sentimentos, para se poder atender às necessidades de cada um dos que vivem em comunhão desse espaço.
Este é para mim o Santo Graal das famílias numerosas. Não se distraírem de cada um dos filhos ao mesmo tempo que não se podem distrair da relação conjugal, do seu parceiro de Lar e deles próprios. Tenho duas razões para saber que não é fácil e que me nutre uma profunda admiração por estas famílias. Quantos de nós sabe o quanto é fácil de nos distrairmos da nossa própria e singular vida. Ou porque andamos a correr ou porque estamos focados em tudo o que não interessa ou não é saudável. Com ou sem filhos essa é uma constante ameaça a uma vida saudável. Por outro lado, quantas vezes não damos mais atenção a quem por ela solicita. O risco de nos esquecermos de um amigo ou familiar que não pedindo nada ou não se ouvindo, por preferir estar no seu canto, está em profundo sofrimento interior e a precisar da nossa ajuda.
Tudo numa família numerosa tende a provocar estardalhaço. E no meio do barulho é muito mais difícil estarmos centrados no que é mais importante e urgente resolver. No meio do estardalhaço, qualquer pai bem preparado pode falhar. Pode esquecer-se de estar no exato momento em que um dos filhos precisa que ele esteja.
Gosto muito do Princípio de Revezamento. Esta é uma atitude muito mais forte do que a da reciprocidade. Tendemos a achar que está tudo bem, quando fazemos bem ao outro e esperamos que nos façam bem de volta. Não deixa de ser uma boa verdade e o mundo é logo um lugar melhor para se estar, enquanto acharmos que esta regra se aplica a toda a gente. Eu olho por ti e tu olhas por mim. Se eu cuidar de ti, sei que vais cuidar de mim, quando precisar. Não tendo mal algum, este princípio não apela ao altruísmo. Existe fundamentalmente um interesse objectivo nesta troca. É que no Lar, não se cuida bem dos filhos à espera que cuidem bem de nós quando formos velhinhos. Pelo menos quero acreditar que serão muito poucos os casos em que isso é assim… brutalmente premeditado. Nós cuidamos dos nossos filhos por ser essa a nossa e inalienável responsabilidade. O lugar que mais ninguém pode ocupar. Porque sentimos um prazer imenso em fazê-lo. E este é que é o grande exemplo e a grande arma num lar de uma família numerosa.
Família que percebe que quando um ajuda um outro, sem esperar nada em troca, sabe que, se todos perceberem isto, o ensinamento que estão a passar é o de que, todos se inspiram a ajudar quem precisa, numa roda de mútuo exemplo, que trará de volta, com toda a certeza, o suporte que cada um vier a precisar a cada momento. Só assim, passamos de um grupo de pessoas com relações de negociação bilateral, as chamadas alianças, para um grupo unido, em forma de rede de proteção. E é aqui que se encontra o mais puro altruísmo. E também é assim que se ensina o altruísmo aos nossos filhos.
Por sermos um país (ainda) muito religioso, não quero deixar de dar este extraordinário exemplo. Existe, no seio da Igreja, uma divisão entre a religiosidade ritualista e formal e uma outra mais ligada aos princípios do Grande Livro. Diz, esta última, que Deus não estará interessado em ligações diretas com ele. Deus ama-nos nas nossas acções. Não na acção de rezar o terço todos os dias, mas na atitude para com o próximo. Ver-nos a tratar bem aquele que também é Seu filho, faz com que caiamos nas suas boas graças.
Sejam atentos.
