Uma das grandes questões que me assola, foi se poderia ter feito alguma coisa para que as minhas filhas, quando nasceram, tivessem encontrado um Lar mais bem preparado para as receber. Como só agora penso nisso, já não vou a tempo para os primeiros anos das suas vidas. Mas ainda estarei a tempo para o que ainda falta viverem neste Lar, “patrocinado” por estes pais.
Mudar o que quer que seja depois do que quer que seja já estar feito, é contranatura. Em bom português, «chorar sobre o leite derramado». Mudar, depois de decidido e entranhado nas nossas rotinas, requer um esforço hercúleo da nossa parte. Nós tendemos naturalmente para o conforto do que conhecemos. Nada contra. Mas é exatamente por isso que se deve pensar nas coisas importantes hoje para que não seja preciso mudá-las já amanhã. Existe um princípio na produção de pensamento a que eu chamo de engenharia robusta. Este princípio defende que: até onde as minhas capacidades actuais e imaginação alcancem, devo recrutá-las.
Ora, para recrutar tudo o que temos disponível, é preciso parar. Até defendo uma certa e constante dose de puro ócio nas nossas vidas. Nada fará mais por nós do que horas a fio de puro nada. Será neste estado, dizem, que nos conseguimos encontrar. Que após o frenesim exterior se calar e a poeira do barulho interior assentar, é que estaremos em condições de nos vermos como realmente somos. E é nesse estado de reconhecimento que podemos escolher ser outra coisa que não aquela que estamos a ser. Que escolhemos dar prioridade a outras coisas que não aquelas a que estamos a dar. É neste estado que enxergamos com maior clareza a nossa natureza única e decidimos manter as coisas em que acreditamos apesar de algumas pessoas à nossa volta nos estarem a persuadir para as abandonarmos ou para as substituirmos por outras.
Mudar é mesmo difícil. E enquanto não acreditarmos nisto continuamos a romancear o nosso poder sobre nós mesmos. Como aquela atitude que colocamos nos desejos de fim de ano e início do outro, que, por estarem rodeadas de autênticos buracos negros, prontos a sugar o nosso desejo para o infinito e mais além, não vão muito provavelmente resultar. Para atingir a concretização de um desejo, sabemos que precisamos de um caminho. Ora, se esse caminho está pejado de obstáculos que são abomináveis para nós e que nos assustam e que nos tiram a vontade de continuar, o tal desejo dissolve-se. Puf! Desaparece sem a nossa intervenção. Ou, o que nos dá muito jeito, desparece com a “intervenção” dos tais obstáculos. E nós, ficamos satisfeitos pelo simples facto de não nos confrontarmos com a desilusão e a frustração de mais um desejo por realizar. E é por isso que desejamos o que já sabemos que não vai ser atingido porque o caminho necessário, que já sabíamos só poder ser aquele, está cheio de buracos sugadores que irão impedir a sua concretização. Somos os nossos maiores “boicotadores”: «Quero perder 10 kilos este ano». Mas alimento-me mal e sempre à pressa, muito trabalho. Não vou fazer desporto, porque chove, porque tenho as compras do fim do dia, porque os filhos, porque não me apetece, porque tudo é melhor programa do que ir treinar, e umas quantas mil desculpas.
O meu conselho, se é que o querem, é fácil: Já se conhecem, então não formulem esse desejo.
Mas por que me estou a demorar neste tema? Claramente para vos sensibilizar para a necessidade de nos levarmos a sério, sempre que o que está em causa para a nossa vida é game changing.
Defendo um ambiente à nossa volta tendente a permitir uma total liberdade de escolha. Este tem sido o caminho das sociedades mais avançadas. Mas eu gosto de a colocar paredes-meias com a responsabilidade perante os outros. Uma velha ideia com uma lógica imbatível. Se eu não respeito o outro, estou a dizer ao outro que tem a liberdade de não me respeitar. O meu caminho, aquele que eu escolho fazer, não será possível trilhar se tiver milhares de pessoas a boicotarem-me. Um exemplo simples: em algumas sociedades persiste o facto de só se poder casar com uma pessoa da mesma comunidade. Tenho a liberdade de casar com quem quiser, desde que seja com uma pessoa de entre estas deste grupo. Ora, se a pessoa que está “destinada” para mim está fora da minha comunidade e se eu aceito esta regra então a liberdade não é plena. Os outros não me estão a respeitar e isso vai ter uma consequência tremenda… não irei casar por amor.
Todas as nossas escolhas, se não forem no seio desta liberdade individual respeitadora da liberdade dos outros, vão ter consequências no tempo. Uma dinâmica que nos faz lembrar o “efeito borboleta“. O que escolho agora infere em muito o que vou viver lá à frente, em consequência dessa escolha. Dramatismos à parte, apenas realço a necessidade de o assumirmos honestamente. Esta é talvez a primeira das verdades a ser assimilada. Como é óbvio, válida para quem aceitar que esta é uma verdade pela qual vale a pena lutar. Vale a pena interiorizar. Vale a pena viver através de…
Depois, é perceber que este “efeito borboleta” não explica apenas o caos, mas também o encadeamento das coisas boas que advêm das nossas escolhas. Se (e quando) aceitarmos que isto é verdade, a nossa forma de estar hoje responsabiliza-se automaticamente com a vida que aí vem. Assumir que a pessoa que estou a escolher experimentar uma vida a dois trará muito impacto à minha vida. Apesar de saber da liberdade que tenho para acabar com todas as relações que não dão certo, este é um enorme e grandessíssimo engano sobre levar a vida para afrente. Voltamos ao início. Nós temos uma enorme inércia à mudança. Depois de nos aninharmos ao outro e à rotina que trazemos um ao outro, e quando esta relação já não nos satisfaz, a nossa escolha de continuar no mesmo sítio ficará por umas 9 em 10 vezes.
Não é o facto de poder facilmente sair de uma relação (liberdade), que me permite não amadurecer as minhas escolhas. É minha obrigação para comigo mesmo, “perder” o tempo e esperar o tempo que for preciso, até ter uma maior certeza sobre se é esta A minha pessoa.
A vida corre como nunca. Conseguir abrandar? Talvez com a idade. Em novos e com tanta coisa para fazer, desacelerar pode não ser uma opção que nos tranquilize. Mas podemos conseguir conviver com isso de uma maneira saudável. Podemos, por exemplo, parar para pensar e refletir apenas nas fazes mais importantes. Fazer a lista do que é enorme na nossa vida e que, por isso mesmo, ocupa uma importância tão grande que não a podemos negligenciar com a nossa pressa de viver. Façam essa lista. De todas as coisas que lá vão colocar, uma delas é transversal: A relação amorosa. A pessoa que convidamos para a nossa intimidade.
Sem amor, sem termos a quem dar o nosso e ter quem nos dê o deles, a vida saberá a pouco e roça a ausência de sentido. Podemos ignorar esta pedra no nosso caminho para a felicidade, mas mais vale enfrentá-la. Aceitar, frente ao espelho, que isto é importante para mim. Matutar e exigir uns mínimos “olímpicos” que deverão estar presentes para que esta relação amorosa, que agora começa, fique com uma probabilidade de resultar maior do que a de acabar ao fim de pouco tempo. Mas não é bem isso que me interessa. O que eu quero é evitar uma outra probabilidade… a de continuar a viver a rotina de uma relação que não me acrescenta nada a esse caminho que quero fazer em direção à felicidade. Ver-me enredado numa história que a única coisa que me traz é, e apenas, ficar encravado no meio do nada.
Parar. Matutar. Eleger as nossas principais coisas. Escrevê-las no coração para não mais esquecer.
Não é que se vá fazer entrevistas as todas as pessoas “candidatas”. Mas se o pensarmos com tempo, melhor o interiorizamos e vai ser-nos natural detectar tudo o que nos é importante que essa pessoa possua. Depois de matutar sobre o que queremos, passamos a confiar no processo de sentir que devemos dizer sim a esse alguém. Porque quem está a dizer esse sim, é, agora, uma pessoa madura. Emocionalmente madura. E esse processo natural, não é mais do que eu ter a certeza do que quero. Do que me faz bem. Do que me acrescenta. Do que me traz momentos de alegria sem qualquer esforço. Ninguém tem momentos de felicidade sem primeiro experimentar momentos de alegria.
Esta pessoa que agora escolhi para dentro da minha intimidade vai ser quem vai construir um Lar comigo e com quem eu vou escolher os amigos que nos visitam e os amigos que iremos visitar. Esta comunidade construída a dois é de enorme importância e influência. Mais uma vez, não é depois de conviver com estes amigos anos a fio, que vou achar que vai ser fácil de acabar com as relações. Posso, é verdade, tenho toda a liberdade para o fazer, mas não confio que esta seja a minha tendência para o fazer. O tal conforto da repetição corta em muito a minha predisposição para rever estas relações humanas.
Interessa-me falar desta fase. Aquela em que, já a dois, devemos parar e matutar. Adoro esta palavra de um português mais antigo. Matutar significa, para mim, pensar (o que fazemos constantemente) muitas vezes até chegar a uma conclusão. Foi assim que o meu pai me a entregou sempre que a usava. Fazer a lista do que vos é importante, agora a dois. Tomar resoluções em relação a isso. Escrevê-las. Ver o que já têm e o que não tendo querem ter. Não é um processo fácil, mas pode ser facilmente prazeroso. Divirtam-se a simular o que querem para o vosso Lar. Que dinâmica querem transparecer como prova dessas escolhas. Imaginem que são visitados por outros casais e que sensações gostariam de inspirar nos outros.
Mais uma palavra importante para mim. A palavra inspirar contém a palavra inspirar-se. Já o contrário não é verdade. Eu posso inspirar-me, numa óptica de consumidor e nunca sentir que deva inspirar os outros. No entanto, assim que escolhes e aceitas a responsabilidade de inspirar os outros, como por exemplo os teus filhos, tudo muda na forma como buscas o conhecimento e a sabedoria. É a diferença entre acreditar no que te dizem e ir à procura da verdade sobre o que te dizem. É a mesma coisa nas palestras. Quando sobes a um palco, tens de saber o que vais dizer. Não aceitas dizer as coisas de uma forma leviana. Ou leste e citas alguém ou, se estás a inovar e a desbravar caminhos nunca antes desbravados, tens de investigar vezes sem conta, usando da introspeção para o fazer. Mas, como disse, se a pegada que queremos deixar é inspirar os outros, sabemos, lá bem no fundo, que temos de merecer esse palco. Esse tempo de antena. E isso só é possível de se fazer, com honestidade, se procurarmos, primeiro, ficar inspirados. Temos de nos (in)cansar até ao ponto em que sentimos que já conseguimos inspirar os outros.
Agora que já sabem ao que o vosso Lar vai saber e como este vai inspirar todos os que vos visitam, estão preparados para o grande desafio que é a vinda dos filhos e já não precisam de mais conselhos meus. Mas antes de terminar este texto, vou deixar-vos com algumas dicas sobre como promover essa discussão saudável e animada no seio do casal, sem que se torne uma discussão amarga e, principalmente, sem que cheguem a lado algum.
Herança geracional
Vejam entre os dois aquilo que são as coisas que admiraram na casa dos vossos pais e o que não gostaram assim tanto. Depois, com a ajuda um do outro, tentem detectar aquilo que, sem querer, trouxeram convosco ainda que não desejassem e o que não trouxeram ainda que agora afirmem que gostassem de ter trazido. Estas são as afinações à lista das coisas que vos ligam a esta herança geracional.
Deixem-se inspirar
Outra dica é tornarem-se mais atentos quando visitam os outros lares. Pode ainda justificar-se que um olhar mais atento ainda refine a vossa percepção em relação ao Lar de cada um dos vossos pais, mas, e principalmente, estou agora a falar dos Lares da vossa família alargada e dos vossos amigos. Coisas que admirem e que essas famílias fazem e que, muito importante, pensam que pode resultar convosco. Por exemplo, admirar que o jantar seja um ritual onde todos falam e contam a suas histórias, recolhidas durante o dia que acabou de ser vivido, quando um de vocês trabalha por turnos. Isto não será algo exequível… pelo menos para já.
O ar que se respira
Eu, em especial, gosto muito deste desafio. Porque ainda faltará conversar sobre o que ninguém ainda está a trazer, apesar de terem trabalhado nas duas dicas anteriores, e que ainda não está escrito e aceite pelos dois e que pode ser muito importante.
Quem visita a casa de amigos e está minimamente atento, e não estou a falar da decoração da casa, da desarrumação, da falta da manutenção, e outros exemplos meio óbvios, estou a falar daquele ambiente humano que se respira e que apanhamos no ar e que, ou gostamos ou não gostamos. Quase que um sexto sentido a ser activado. Não se explica e muitas das vezes nem conseguimos colocar por palavras, tal é a leveza do conceito com que estamos a lidar e que se nos escapa por entre os dedos.
A isso que esta leve sensação apanha, eu chamo de Ingredientes do Lar. Ou existem ou não existem, mas sabemos que influenciam em muito a dinâmica daquela família. Existem ingredientes para todos os gostos, claro, mas uns vão ocupar um lugar de destaque. Lá está, cada família é única e vai sendo cada vez mais única na exata medida dos ingredientes que escolhe, acolhe e lhes dá importância. Mais uma vez, não existe universalidade nesta escolha. Não existem Os ingredientes certos. Mas isso é o que é divertido de se fazer a dois: escolher o que poderá ser o vosso cabaz de ingredientes que vocês acham absolutamente imprescindíveis. Primeiro escolham um ingrediente. Depois vejam o seu nível actual de utilização e se esse nível é satisfatório ou não. Se não for, escrevam coisas que podem fazer para aumentar a sua presença ou o tornar num hábito/ritual da vossa casa.
Deixo aqui alguns exemplos que me são muito caros:
- Intimidade;
- afetividade;
- igualdade;
- respeito;
- amizade;
- fraternidade (civismo).
Vão, divirtam-se e multiplicai-vos. Onde é que eu já ouvi isto!
Sejam atentos.
