O amor, entre os humanos, transmutou-se constantemente ao longo dos tempos. Ou será que não?! Ou será… que o que foi mudando foi o maior ou menor peso de alguns dos seus ingredientes?
Hoje, teremos muito mais romantismo e muito mais ternura no seio das relações amorosas. Teremos muito mais atenção um pelo outro. Teremos muito mais, quem sabe se um dia ficará provado, um amor que se tornou num mecanismo de salvação.
Não me sai da cabeça o facto de termos colocado tanta pressão na importância do amor e da paixão nas nossas vidas, que virou um factor de frustração. Uma frustração que nos assola, quando, já numa certa idade, ainda não encontrámos uma relação de amor correspondida. Ou até, quando voltamos a ficar “sozinhos” por um valente desamor. O amor não deveria ser uma espera. Não deveria ser uma busca. O amor deveria ser, simplesmente, um acontecimento. E o que nos restaria fazer, era trabalharmos em nós mesmos, humanamente, mantendo-nos interessantes para os outros. Um florescimento de dentro para fora.
«Mas o amor é tudo», dirão…
Estamos cada vez mais narcisistas. E isto tem levado a que a função que queremos que o amor desempenhe nas nossas vidas seja injusta para o próprio amor. E ouço muitas pessoas verbalizarem que estão satisfeitas com os seus parceiros de coração porque estes as valorizam. Ora, isto empurra o amor para uma função serviçal de uma certa relação de ídolo-seguidor. O amor, imaginando-o uma divindade, prefere muito mais, admito eu, ser considerado um sentimento que inspira cada um dos protagonistas a acrescentarem-se mutuamente, numa fórmula matemática do género, 2+2=7. Eu quererei a meu lado quem contribua para eu me tornar melhor, maior, mais feliz, uma melhor versão de mim, entre outras coisas.
Numa relação dita saudável, quem é que não quer um amor para a vida? Mas o truque não estará em manter o nosso interesse por aquela pessoa durante uma vida, mas sim o oposto. Pensar que fizemos alguma coisa de extraordinário, só por termos venerado aquela pessoa uma vida inteira, é um engano. É viver à beira de uma ravina. É que este também é o lugar onde muitas das vezes existimos apenas para procurar o erro e o defeito.
Mas, se pelo contrário, procurarmos manter o interesse daquela pessoa em nós, teremos forçosamente de encontrar caminhos para nos tornarmos ou mantermos interessantes. E isso sim, contém o Santo Graal das relações. É de facto a diferença entre as palavras inspirar e inspirar-se. Quando me inspiro nos outros esgoto-me no modo de consumidor. Mas é quando quero inspirar os outros, que faço de tudo para, primeiro inspirar-me, o que leva também ao consumo de tudo o que me rodeia, mas obriga-me a transformar, de forma inventiva, tudo o que aterra em mim para que o ofereça ao outro.
Inspirar os outros é de uma responsabilidade enorme. Sejam os nossos filhos, seja o/a nosso/a parceiro/a, seja no trabalho por sermos líderes de equipas, seja a sociedade em geral quando observa o nosso comportamento. E é nessa responsabilidade que nos achamos a tentar dar o nosso melhor. Podemos sim, erguer a taça quando ao fim de 50 anos de um relacionamento, aquela pessoa, que sempre foi livre para se ir embora, manteve-se ao nosso lado. E não da mesma maneira, pois esse é um erro de julgamento que pode custar caro à relação, mas nas suas múltiplas transformações, naturalmente adequadas ao envelhecimento (no caso da idade) e à maturidade (no caso do próprio relacionamento).
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Nas dadas múltiplas formas de amor, o ângulo que mais me interessa é a tentativa de encontrar algumas universalidades. Ou seja, os tais ingredientes que, imagine-se, não estando presentes, já não estaremos a falar de amor, mas sim de uma outra coisa qualquer que os tempos modernos decidiram redenominar. E encontro uma certa missão nesta perseguição: imaginem que consigo elencar uns 3 ou 4 ingredientes, aceites por todos. A minha demanda de educador tornar-se-ia super-facilitada. «Olha, filha, isso que tu dizes que ele sente por ti, não é amor. Tenho pena, mas falta-lhe isto, isto e isto…»
Para além desta vantagem, também daria dicas às pessoas sobre como lá chegar, dando-se o caso de lhes faltar algum destes ingredientes, «falta-me isto, eu sei, mas vou aprender». Na verdade, nascemos com tudo o que precisamos para sentir tudo o que existe. O que nos aconteceu então? Aconteceu-nos a vida, vivida. Desde que nascemos, fomos colecionando percepções que transformámos em obstáculos que usamos para impedir que sejamos plenos naquilo que sentimos.
Temo que nunca lá chegue, nessa definição dos ingredientes chave, mas há um deles que me mantém fascinado por este tema. A intimidade. Algo que se apresenta transversal não apenas ao amor, mas a outros sentimentos, como o da amizade. Com contornos diferenciados, mas no amor, a intimidade ocupa um lugar de destaque. E tememos, como num estalar de dedos, por uma relação que não a tenha presente. E não estou a falar da intimidade estar ausente temporariamente da relação. Estou a falar de uma variável que não está presente na fórmula de um determinado casal. É que o amor precisa do sussurro, da comunicação sem se dizer uma palavra, da imediata resposta ao que o outro precisa, mesmo que ainda não se tenha dado conta. A intimidade é o filtro que tira o ruído à comunicação.
Mas quando se fala de amor, queremos mais do que simplesmente nos sentirmos muito próximos do outro. Queremos mais porque a vida nos diz que quer ser vivida intensamente. E a intensidade no amor é patrocinada pelo erotismo. Por exemplo, e fugindo ao erotismo óbvio, um sentido de humor apurado, oportuno e elegante, faz muito por esse carrossel de emoções que mantém uma relação acima do interessante. Uma dança a dois, calma e intencional, faz muito por este lado picante da relação. Se estivermos bem como casal, isso nota-se no Lar e os nossos filhos são (também) os maiores beneficiados.
O Lar, esse espaço onde uma família vive, construída de coisas materiais e imateriais, é, na realidade, uma arena muito apertadinha, quando comparada com o mundo lá fora. E essa proximidade, ao mesmo tempo imposta e desejada, torna-se na maior dádiva e no maior desafio. Com o tempo, as pessoas que fazem parte de um Lar, vibram numa frequência que mais ninguém entende e isso, temo que, também não contribua para uma definição assertiva de intimidade.
Será por isso, mas não só, que quando os filhos que “chegam de fora”, para mais uma semana nestas famílias tentaculares (com filhos de outras relações e com filhos já próprios. Numa frase: Os meus | os teus | e os nossos) são testados para além do imaginável sobre conseguirem sentir-se íntimos no seio desta família. Para o filho “intermitente”, o desafio é enorme e os únicos bálsamos são a tolerância e muito amor.
Porque o que lá se passa, na semana em que este filho está ausente, é um aprofundamento dessa intimidade. É que essa intimidade não pára de crescer para os que nunca deixam de lá viver. E a emoção que esse filho periga ter é a de desamor. A de ostracização e de não sintonia. Facilmente este filho migrante se vê a abraçar o isolamento e a criar uma história, só sua, ao nível dos afectos.
Mas voltando à tal arena apertadinha. É lá, nesse caldeirão de intimidade que notamos uma coisa muito bizarra. No meio daqueles cheiros todos de um Lar reconhecido, encontramos os mais detestáveis de entre todos, como o do chulé, o do sovaco, o da flatulência, que só neste enquadramento aceitamos. Uma coisa incrível! É que, assim que assisto, fora do Lar, a essas mesmas manifestações, torno-me intolerante.
O lar é esta arena que tudo liga e que tudo interpreta e acomoda. Arrisco-me a dizer que o nosso Lar cria uma certa frequência de vibração que nos “fala” ao corpo, de uma forma avassaladora, inquestionável e incompreensível, que se aproxima do que será a presença do Divino em nós.
Arrisco dizer, que o Lar é a maior aproximação que alguma vez teremos, de uma vivência do divino com os outros.
Sejam atentos.
