Sempre vivi, e ainda vivo, fascinado com a possibilidade de descobrir as tolices da vida. Aquelas ideias que damos como certas e que nos moldam a nossa forma de estar neste mundo, mas que são uma perfeita tolice. Coisas que, embora não façam sentido, ajudamos a perpetuar.
A nossa conduta, ao insistir nessas ideias, ajudará de forma permanente e constante a disseminar e a dar força a algo que, se pensarmos melhor, não concordamos e até desconfiamos que nos têm atrapalhado a vivermos a vida de acordo com os nossos princípios e valores.
E que ideia tola é essa, que vos trago hoje?
A maioria de nós ainda pensa que somos uma versão adulta daquela criança que fomos na altura em que essa história, a nossa história, se desenrolou. Vivemos convictos de que ainda somos essa criança, num modelo melhorado pelos anos e pelas experiências por que passámos.
Nesta linha de pensamento, quando atingirmos os 100 anos de idade, seremos Sábios. Mas está a escapar-nos, porque nos convém, que as mudanças nem sempre são para melhor. Mudança, claramente, não garante melhoria.
Piaget disse que uma das coisas que mais o intrigava, antes de ter iniciado as suas investigações, era a ideia vulgarmente distribuída, de que uma criança é um adulto em miniatura. Esta ideia não poderia estar mais longe do que se passa na nossa evolução.
—————————–
Arrisco dizer que a evolução do ser humano é bastante perceptível aos nossos olhos. Para além de termos a ajuda da História, que guarda e nos relata os eventos mais importantes, existe uma outra percepção que nos acontece: Vemos os outros, os que nos rodeiam, a envelhecerem. E isso, essa observação, coloca-nos numa zona de conforto – “Então a vida que dizem tão complexa, afinal é isto?!”, numa fórmula que assumimos: Nascemos-evelhecemos-morremos.
O que a maioria de nós não possui, e que nos daria tanto jeito, é de um historiador privado. Uma pessoa, dedicada à nossa história pessoal, e que nos escrevesse, em jeito de biografia, aquilo porque passámos ao longos dos tempos até sermos adultos. Ainda faltaria o relato emocional a cada instante, mas, digo-vos, resolveria muitos dos nossos problemas e seria de uma utilidade tremenda.
Existem alguns iluminados que escreveram e mantêm, um diário de escrita permanente e que lhes permite guardar aquilo que são em cada fase de vida. Os diários são um testemunho da nossa evolução como ser humano interior.
Mas porque estou eu a demorar-me tanto nesta introdução?
É que cada um de nós está mesmo convencido de que é uma versão evoluída daquela criança que foi. Mas a realidade, infelizmente, anda longe desta ternurenta sensação. Não só já não somos aquela criança, como não trouxemos connosco quase nada dessa altura a não ser uma série de memórias e de aprendizagens ao longo da vida. A forma como pensávamos. A forma como víamos o mundo. A forma como nos relacionávamos com esse mundo e com os outros da nossa espécie, deixou de existir. Mesmo que quiséssemos não o conseguiríamos recuperar.
O processo de crescimento do ser humano é, infelizmente, muito mais parecido com o de uma árvore de folha caduca: O velho dá lugar ao novo, deixando de existir. Estes dois seres, o adulto e a criança, vão habitar em dois lugares distintos e estanques. Partilham o mesmo nome e documentos pessoais, mas mais nada. O que nos daria jeito, e felizes daqueles que o conseguem, é que crescêssemos deitando fora o que não interessa, mas ficando com o que já é bom e que nos promove o bem-estar.
Este seria um superpoder: o de termos a capacidade de escolher manter o que já temos de bom e que nos irá ser útil pela vida fora. E atirar borda fora aquilo que nos está a atrasar. O que não interessa trocaríamos por algo melhor. Por exemplo: quem me dera abraçar os projetos novos com aquela força de criança em que tudo é possível. Uma criatividade inconsciente que vai buscar a força ao simples facto de acreditarmos, verdadeiramente, que tudo é possível até prova em contrário.
E o que nós fazemos no processo de crescimento?
Vamos adquirir novas formas de estar para podermos sobreviver à vida e aos seus desafios, que tanto nos assustam. Ferramentas adquiridas que nos pseudo-protegem de uma vida apresentada como difícil. Porque nós, que blasfémia, deixamos de querer viver como crianças e desejamos apressadamente a fase adulta.
Mais tarde, já adultos, não somos nada apreciados por termos perdido a capacidade de imaginação. De termos deixado de aceitar as coisas como elas são. De termos deixado de viver com uma alegria simplória para que abraçássemos a complexidade da vida adulta. Até se divorciam de nós, por não levarmos a vida com descontração!
Vivemos na ilusão de sermos colecionadores, açabarcando cada vez mais habilidades, mas seremos mais uma espécie de substituidores: ficamos com uma coisa por troca de outra. Não seremos de todo acumuladores. Esses, mal ou bem, ainda mantêm tudo, basta só procurar nesse cérebro imenso.
—————————-
Mas voltando a minha atenção para esse período áureo… ser-se criança é saúde nas suas várias dimensões. Um caminho por desbravar. Uma condição de infinitas possibilidades. Ainda hoje procuro saber quais as coisas que eu, agora adulto, e eu, quando era criança, partilhamos. Quase que uma obsessão para encontrar os restos ainda vivos em mim, daquela criança que fui. Um garimpeiro à procura de encontrar a expressão: “ora aqui está!”, numa clara alusão ao que tinha restado dessa época dourada da minha existência.
Ainda hoje penso que só dizemos que a nossa existência como adultos tem coisas muito boas, porque não conseguimos se quer nos aproximar da recordação do que foi viver em estado de criança. Não nos lembramos e os nossos filhos, coitados, não nos sabem explicar devidamente, também eles, por falta de termo de comparação.
Empurramos as crianças para aprenderem coisas novas, cujo único intuito é o de sobreviver no mundo adulto. Não estamos preocupados em respeitar como eles são. Nem tão pouco interessados em avaliar se o que propomos é de facto um ganho para as suas vidas. Estamos sempre a actualizar-lhes as lentes, para que possam ver melhor. A bem dizer, a ver melhor no mundo dos adultos. Aliás, quantos de nós, não foram já hospitalizados por viverem ainda acriançados, ou seja, por alguém se ter esquecido de lhes trocar as lentes.
Mas em que dimensões podemos tentar perceber as diferenças que me levam a afirmar que uma criança não é um adulto-em-ponto-pequeno? Decidi pedir ajuda àquilo que serão os maiores desafios da idade adulta, e olhar para as crianças na sua forma peculiar de ver o mundo e esses mesmos desafios.
Sem estar obcecado com as comparações, deixo que cada um dos leitores sinta essas diferenças:
Na forma de crescer
A criança cresce aos solavancos. Nada na sua vida inicial é linear. Nem física nem cognitivamente. E isso traz alguma ansiedade natural da imprevisibilidade a que está votada, e acrescento que manda muito pouco no ambiente à sua volta. E, por essa razão, nada na sua vida pode ser muito planeado, dada a não linearidade de todo o processo de crescimento.
O que passa por ela (criança), a cada ano, não são 365 dias ou uma ruga aqui e ali. Uma prega de gordura que passou a existir. Ou até mesmo o sentimento de uma redução constante das capacidades físicas. O que passa por ela (criança), são uma série de alterações que mais parecem estar de acordo com a vivência de vidas paralelas.
O carrossel de emoções que vão e vêm, onde quase nada pode ser feito pela própria criança para as evitar, marcam um ritmo de instabilidade emocional, que poucos adultos conseguiriam gerir adequadamente.
Manter-se esse ser num corpo em constante mudança é, de facto, pedir demasiado.
Na forma de pensar
A criança vive em permanente objecção de consciência. Entendendo-se, como o direito que temos de recusar acatar uma ordem ou o cumprimento de uma lei, sempre que a achamos imoral, injusta ou inaceitável. A criança vive segundo o primado da consciência individual.
Entender isto é entender que a ingenuidade não é um defeito é uma virtude. É algo que tem de ser acolhido. Quando muito, traduzido para “adultez”, neste sentido de ajudar a criança a sobreviver neste mundo de adultos.
Querer que as nossas crianças sobrevivam da melhor forma e sem traumas, é dizer-lhes que não estão erradas. Antes pelo contrário. Existe um poder enorme na autoestima da criança quando dizemos que concordamos com ela, mas é preciso saber viver num mundo que não é o dela. Mostrando-lhe a metáfora da necessidade de sabermos mais do que uma língua, para nos entendermos com os outros povos.
Entender os outros não é convertermo-nos nos outros.
Na forma de aprender
São poucas as coisas com que nascemos que nos permitam sobreviver ao mundo actual. Algumas delas estão ainda relacionadas com a forma como os nossos ancestrais viviam e, definitivamente, tudo ferramentas de sobrevivência ligadas à natureza. Algo de que já não precisamos tanto…
No mundo das crianças tudo é possível. Se, de forma romântica, isso até pode soar bem, na vida real isso representa um risco real à sua integridade física, psicológica e emocional.
A melhor forma não será colocá-los a ler livros ou ver filmes, sobre todos os riscos possíveis e imaginários. A melhor forma de lhes ensinar é fazê-los passar pelas experiências, de uma forma gradual, claro, para que aprendam, de preferência à primeira, sobre cada uma das suas limitações.
Arriscar de forma descontrolada não é demência… é falta de preparação.
Existe uma enorme diferença entre saber como se faz e saber fazer. É a grande luta entre a teoria e a prática. A nossa ciência está rodeada de coisas que em teoria funcionam. A criança não se realiza pela simples leitura de um livro. Aí, reina a imaginação. Lê histórias e deixa-se levar. A criança sente que precisa fazer, e não é que está certa!
Considero que a corrida mais importante da aprendizagem é aquela que estabelece os limites entre o mundo real e o imaginado. Ambos têm de existir, mas não se podem confundir. Um puxa pelo outro, mas não se podem atropelar. E principalmente, não podem colocar em causa a integridade física da criança.
A criança para aprender de forma satisfatória precisa de envolver o corpo todo na aprendizagem. E saber fazer algo é experienciar, experimentar e operacionalizar a vivência. Só então a criança verifica os seus limites e destrói a última sombra da aprendizagem, os medos sobre o mundo que a rodeia.
A criança, para aprender e sentir-se satisfeita com o que aprende, precisa de chegar ao ponto em que já sabe que os fantasmas desaparecem sempre que se acende a luz, no entanto acredita neles. Para a criança os fantasmas apenas vivem numa outra dimensão.
Na forma de olhar a morte
A morte, por definição, é o fim da vida biológica.
A criança não vê a morte, sente-a. Não lhe chama morte, chama-lhe finitude. O oposto da vida não é a morte, é a finitude. Vida é movimento e tudo a acontecer. Finito é paragem total. Bloqueio. Nada a acontecer. A morte é um acidente de percurso, o instante a partir do qual, se dá a finitude.
A criança vive entre infinito e finito e não entre a vida e a morte. E como são tantas as coisas que ainda não entende, é muito importante explicar todos “os finitos” da vida. Explicar-lhe as razões para que algo não seja possível, é promover o seu crescer saudável. A forma da criança passar de um infinito para um finito é através de uma explicação ou vivência, e não através de um redondo e seco NÃO.
Os adultos, que não abundam em tempo, a sua (actual) maior escassez, optam por recuperar algum desse tempo sacrificando as explicações demoradas às crianças, abusando dos secos “não`s” e “sim`s”.
Para a criança, a morte está mais ligada à impossibilidade de fazer algo que quer fazer, como por exemplo, jogar mais à bola com aquele avô, que já faleceu. A tal finitude. O verdadeiro oposto à vida. O Adulto sente o abismo de deixar de estar vivo, mesmo que admita que já não estava verdadeiramente a viver.
E sempre que não deixam a criança viver como sente que a vida deve ser vivida, e sem explicação alguma ou plausível, as suas emoções vão para uma zona parecida, mas não igual, de como os adultos olham a morte. Uma emoção de aperto inexplicável. E nós ainda nos admiramos da sua reação. Do seu exagero. Da sua intransigência perante o que sente.
Para uma criança não há impossíveis. E a finitude que lhe é muitas das vezes colocada artificialmente por quem manda… pais, professores, ou até pelas leis da física, ela sente-a como exterior a si. Sem a sua vontade declarada. Sem a sua permissão ou autolimitação. E, ao não ser devidamente explicada, assim que se sente sem supervisão vai tentá-la de novo.
Na forma de amar
A criança está predisposta para amar. A criança precisa e quer amar tudo o que a rodeia. É assim que valida o seu bem-estar. Se ama é porque se sente bem. Se não ama, não quer ficar ali. A sua opção natural é ir-se embora. Aos olhos dos adultos, aquela criança é cruel e malcomportada. Quantas já foram as vezes de não querermos aturar aquela tia “chata” e distante, mas ficámos. E ficámos até ao fim.
As gradações do “gostar” não estão lá muito disponíveis na criança. A realidade é que não sabe responder àquela injusta pergunta: “gostas mais do avô ou da avó?”. Na sua sábia resposta interior, a criança sabe que ambos têm coisas boas, de que aproveita, e por isso, não consegue hierarquizar. Amar na diferença não se ensina, já está dentro da criança. E os adultos, pelo exemplo, acabam por forçar o desaparecimento dessa sabedoria. Pelo exemplo forçamos a escolha entre este e aquele amigo. Entre o mar e o campo. Entre o branco e o azul.
A criança quando olha quer tudo. Esse tudo que a vai encher de vida. É sedenta de usar tudo para ficar grande e por isso aceita tudo como seu. Amar tudo e todos não me parece algo que se deva querer erradicar.
Amar tudo e todos é o caminho para a compaixão e tolerância plenas, planeta incluído.
E é quando olhamos para os nossos com este cuidado e com esta certeza de que não são, e ainda bem, adultos em ponto pequeno, é que damos conta de como nos devemos relacionar com eles.
Talvez que seja melhor aprendermos a sermos os seus Gurus: estarmos disponíveis para as suas perguntas. Porque eles sabem fazê-las melhor do que ninguém.
Sejam atentos.
