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Eles não precisam de muito

Posted on Fevereiro 28, 2025Dezembro 23, 2025 by Rui Melo

Um dos maiores desafios dos Pais é o controlo da ansiedade. Quando nós estávamos “grávidos”, pela primeira vez, dei por mim, variadas vezes, a tentar erradicar a ansiedade que sentia em relação àquele frágil ser e para o qual sentia uma tremenda responsabilidade. O truque está em conseguir baixar os níveis. Não vale a pena querer mais do que isso. Pensem comigo… não acham estranho voltarem a achar piada à segunda-feira de manhã e ao facto de irem trabalhar? Na verdade, passa a ser à segunda que iniciamos o nosso descanso semanal. Mas também experimentamos um alívio dessa tensão provocada pela ansiedade.

“Coitadas das mães!”, que têm o desafio gigantesco de tentar desconectar de-vez-em-quando com aquele bebé, oferecem a segunda melhor prenda do parceiro… um sorriso enorme de boas-vindas àquele outro adulto que agora vai rendê-la neste sentimento de exaustão.

Na verdade, nunca vi a minha mulher querer tanto assistir a mais um episódio da sua novela mexicana, onde, depois de 100 episódios, o enredo ainda se encontra onde o deixámos.

Os primeiros anos de vida são mesmo muito cruciais para todos e por variadíssimas razões. Não me vou alongar com as questões dos adultos, ou dos irmãos mais velhos. Vamos falar do bebé que acabou de nascer.

Parece-me que salta à vista o simples facto de tudo no bebé crescer a um ritmo assustador. Mas há uma parte do seu corpo a que devemos dar ainda mais atenção. O seu cérebro. Sabiam que ao nascer, o cérebro de um bebé contém 100 mil milhões de neurónios? Este é o número de estrelas que existe em toda a via láctea? Aos 3 anos de idade o seu cérebro é já do tamanho de 80% do cérebro de um adulto. E não me parece que este crescimento todo se opere apenas do lado biológico. O lado cognitivo está em franca ebulição.

Poderíamos pensar que nestes primeiros meses de vida o bebé só come, faz cocó, chora e dorme. Mas os estudos demonstram que não é mesmo nada assim. São autênticas esponjas de aprendizagem e tudo em seu redor já está a ser absorvido, analisado e retido. E é por isso que se diz que os pais são os arquitectos dos seus cérebros. A cada segundo que passa, um novo crescimento ocorre. São novas conexões entre neurónios que se formam, em resposta ao ambiente e aos estímulos que nele habitam e que rodeiam o bebé. Através dessa estimulação sensorial (todos os sentidos estão a ser recrutados em carga máxima) ajudamos a que essas conexões neuronais se tornem mais fortes e em maior número.

Ao contrário dos outros órgãos, que já nascem maduros, o cérebro de um bebé precisa de qualidade nas interacções com os seus cuidadores primários. Este é um dos principais factores que influenciam o desenvolvimento da rede neuronal. Ou seja, o desenvolvimento do seu cérebro. Ainda dentro da barriga, o bebé já está em desenvolvimento afetivo. As conversas que se têm, as músicas que se lhe dedicam, a qualidade do ambiente familiar em que se vive, tudo, mas tudo, já está a entrar na sua vida, no seu quotidiano e no seu crescimento.

Mas apesar do que se diz, e das longas discussões que se tem à volta do tema “tudo é importante na vida do bebé/criança”, gosto desta ideia mais tranquila de pensar: “que afinal tudo se pode resumir a um punhado de coisas“. E quando um assunto importante se resume a um punhado de coisas, nós já nos consideramos suficientes para lidar com ele. Gosto de diminuir os desafios para tamanhos mais adequados à minha estatura. Para que não perca a coragem de os enfrentar. Se é fazer batota? Um pouco. Mas muitas das nossas mais brilhantes conquistas, foram sendo realizadas aos poucos. Passo a passo. Sem que a ansiedade tomasse conta de nós. E depois, olhamos para trás e até parece que estamos a contemplar a jornada de uma outra pessoa.

Na parentalidade, como na vida, é a mesma coisa. Gosto de manter a ansiedade e todos os seus primos, bem controlados e sempre debaixo de olho. Se isto tudo já é um enorme desafio, então não vou querer estar diminuído para o enfrentar. Mas não retiro a importância às coisas. Apenas as coloco no seu lugar, não lhes emprestando um tamanho e uma agressividade que não têm. E é por isso que gosto de pensar que me realizo como pai se me preocupar apenas com cinco coisas. Mas sim, são cinco coisas muito importantes para o bebé, na medida em que o seu edifício cognitivo e afetivo vai-se construindo e os pais são a sua mais importante paisagem. São os principais co-escritores do que é o início de uma grande história de aventuras, que só eles vão poder contar em toda a sua grandeza. É a vida de um bebé, que depois vira criança, que depois vira adolescente, que depois vira adulto… e que nada disto se repete à passagem do tempo.

E então quais são essas cinco coisas principais:

Conectar

Devemos construir uma conexão com o bebé. Somos seres que precisam, pelo menos, de estar conectados com os da sua espécie. Somos também a espécie animal com o maior período de parentalidade até à idade adulta. Precisamos de uma ligação entre pessoas e não estamos a falar de umas pessoas quaisquer. E esta satisfação do bebé não ficará suficiente, ou completa, enquanto for apenas estabelecida com a mãe. Pai e irmãos são essenciais para que o bebé se sinta equilibrado. Não digo que seja obrigatório que existam dois seres adultos que desempenham a função parental. O que digo é que o bebé precisa de se conectar com todos os que habitam o seu Lar. Se é apenas um, que seja. Se são 5, por viver com os avós, que seja também. Porque a necessidade de conexão só é satisfeita com a paisagem humana que exista. Ninguém pode ficar de fora, mostrando distância com aquele inexperiente ser, que é o bebé.

A rejeição, ou a distração completa, por parte de um dos membros da família, bastará para que o bebé nutra um sentimento de algum abandono. Estamos a falar de tempo de qualidade. De disponibilidade emocional para o bebé. De intimidade com este ser. Se, por exemplo, o pai estiver apenas com o bebé aquando dos momentos de constante rebuliço, visitas de família, caminho para escola, em suma, em ambiente de confusão, barulho e ausência de proximidade a dois, o bebé vai assumir que aquela pessoa, tão importante na sua vida, o rejeita por alguma razão que desconhece. E é por isso que a mãe, que naturalmente está nestes primeiros meses quase 24 horas conectada, crie ou deixe criar espaço para que todos os de lá de casa possam experimentar esta conexão.

Conversar

A nossa tendência, como adultos, é aborrecermo-nos com os monólogos. Ninguém aguenta muito tempo a falar “para o boneco”. Precisamos de interação. Precisamos que nos respondam, que nos confirmem as nossas ideias. Precisamos que nos entreguem linguagem corporal de reação ao que acabamos de dizer. Os nossos sentidos precisam que os outros, que nos ouvem, emitam sons, para continuarmos a validar se a relação que estamos a ter com aquela pessoa, é segura. Se é prazerosa para ambos. Se estamos a construir alguma coisa em conjunto.

É verdade que não existem, ainda, muitas reações possíveis por parte do nosso bebé. Eu diria, ainda não é complexa para aquilo a que nós estamos habituados como uma conversa elaborada e engrandecedora. Mas é normal assistir aos relatos de pais que, com o passar do tempo, conseguem interpretar cada minúsculo movimento facial do bebé. Cada movimento mais brusco ou acelerado dos braços e pernas. O bebé está a comunicar. Está a devolver reações àquilo que estamos a dizer ou a fazer. A interação já acontece.

Os sons, mas em especial a nossa voz, são muito importantes para o bebé. Aliás, é exatamente esta voz que ele recorda, e agora o tranquiliza, desde os tempos em que ainda era estagiário na barriga da mãe. Conversar é uma das formas mais potentes de estabelecer a tal conexão. A nossa voz começa por ser um dos seus maiores pontos de interesse. Não apenas porque é um processo de aprendizagem de linguagem, mas, e acima de tudo, uma conexão com a vibração das vozes que já decorou e que o fazem sentir-se seguro. A voz das suas pessoas.

Brincar

São as brincadeiras que permitem simular o mundo. A vida. São as brincadeiras que permitem estabelecer limites. Também são as brincadeiras que nos permitem vincar os limites do que é real e do que é um mundo ficcionado. Onde podemos fingir que voamos. Onde um pai passa a ser o filho e, com isso, demonstrar o que poderá ser o comportamento de um filho, aceite pelos dois. Brincar, é um assunto muito sério, já diz o Prof. Carlos Neto.

E é no desenvolvimento da brincadeira que o sonho se insere. Sonhar é uma das mais maravilhosas capacidades do ser humano. E não estou a falar de sonhar enquanto dormimos. Gosto muito de dizer: “Quando eu era criança, parava de sonhar quando me deitava“. Este sonhar acordado, confabulando todo o tipo de possibilidade, faz com que se viva numa realidade aumentada. Porque o sonho é o desejo de se viver a vida, não como ela é, mas como nós queremos que ela seja para nós. Sonhar é negar a realidade, sabendo os limites dessa audácia e ficando de coração aumentado nesta capacidade que temos de ajeitar a vida, colocando-a ao nosso jeito. Inventá-la.

Lar

Não me canso de dizer que o Lar é tão somente a sua principal paisagem. Humana e não só, é no Lar que tudo, nestas idades, se ensaia pela primeira vez. Desde a segurança de que precisam sentir, aos desafios de que precisam enfrentar. O Lar é a rede dos nossos primeiros ensaios do circo da vida. Só arriscamos fazer novas coisas se sentirmos alguma segurança a rodear-nos. E, por contraponto, os nossos receios falarão mais alto, se o que arriscamos se apresenta maior do que nós.

Um Lar saudável (sendo que saudável será um lar que promove uma dinâmica onde todos sintam que podem ser aquilo para que foram “desenhados” ser), promove esse palco onde nos sentimos confortáveis para ensaiar tudo aquilo que ainda não experimentamos. A nossa evolução cognitiva baseia-se muito na experimentação. Mas reduzimos o número das coisas que queremos fazer, sempre que o risco não compensa. Mesmo mais crescidos, se uma humilhação está no campo das possibilidades para o que ensaiamos fazer, então não corremos esse risco.

Comunidade

Já falei que o Lar é a nossa principal paisagem. Mas o crescimento pressupõe diversidade. E ninguém estará a crescer completamente no seu potencial se estiver exposto a uma única paisagem. A diversidade é quase uma lei universal da vida. Todos nós precisamos de um género de cabaz com várias coisas. E, para além de estarmos perante cabazes únicos, cada cabaz vai evoluindo ao longo do tempo. Vamos tirando umas coisas e colocando lá outras. Deixamos de querer uma coisa, ou porque já estamos satisfeitos ou porque já não faz sentido querê-la. Mas, apesar de ser universal a presença deste cabaz nas nossas vidas, o nosso não se compara a nenhum outro. E essas coisas de que precisamos a cada momento, vão sendo nutridas por variadas experiências, pessoas e paisagens. Precisamos dessa diversidade para nos sentirmos saciados.

E é por isso que o Lar é insuficiente, apesar de muito importante. E é por isso que nós queremos mundo. E é por isso que um Lar saudável é aquele que se deixa visitar por outros lares e visita outros lares. Essa diversidade pertence a este mundo equilibrado da educação. Da parentalidade. A criança precisa muito de ir buscar essas outras coisas que não vivem neste lugar restrito. A comunidade, no início ainda pequena, é a representação de um mundo desconhecido. A necessidade de a criança perceber que existem tantos outros seres, iguais a si nas suas inseguranças, vontades e dinâmicas. Outros seres que também têm família. Também eles com amor para dar, ainda que sejam perfeitos desconhecidos. Uma ideia da existência de afetos e de indiferenças que comparam com o que temos garantido no nosso Lar.

E para terminar deixo um voto de confiança para a geração de Pais que agora se iniciam nestas andanças. Olhem-se com as imperfeições que têm. Que todos temos. Mas tendo sempre presente que nenhum outro ser pode ocupar esse lugar que estão prestes a ter. Lembrem-se… os nossos filhos não precisam assim de tanta coisa. Escolham as vossas cinco coisas mais importantes.

Sonhem-se heróis desta linda história e “arranquem!”.

Vai correr bem. Afinal, são só cinco coisas.

Sejam atentos.

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Autor

Rui Melo
Escritor

Sou um produtor de pensamentos muito atento. Sei que a família e o Lar ocupam um lugar muito especial no crescimentos de qualquer pessoa, mas em especial, na formação das crianças.

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