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Travar a fundo

Posted on Março 21, 2025Dezembro 23, 2025 by Rui Melo

Sei de muitas mentes brilhantes que se perderam a discutir acerca do ovo e da galinha, e de quem é que apareceu primeiro. Perderei a minha vida também, mas em algo muito mais interessante: o de virar do avesso, repetidas vezes, a anatomia do amor. Essa compreensão, que uma vez descoberta talvez me salve. Que nos salve, que eu não sou egoísta. Mesmo que não nos salve por completo, talvez nos ilumine o caminho para nos entendermos. Afinal, e sintetizando à ínfima partícula, somos apenas amor, o que já não é pouca coisa. Mas também somos a ausência dele. Mas não seremos muito mais do que isto, por mais que nos esforcemos. Temo que a discussão, tão antiga, entre céu e inferno, se explique afinal pela existência destes dois seres humanos: os que São amor e os que São ausência dele. Está fechado, boa noite e até amanhã…

Claro que algo tão importante nunca poderia caber num só parágrafo.

Mas o amor é estático. E é preciso dar-lhe movimento para fazer sentido e ser prazeroso. O amor executa-se através dos relacionamentos. Na verdade, viver a vida confunde-se com a palavra relacionamento. Tudo são relacionamentos. Relacionamo-nos com o planeta. Com os outros. Com os animais. Com a paisagem. Relacionamo-nos connosco, com o nosso passado. Relacionamo-nos com o que pensamos ser o nosso futuro, com os nossos sonhos e desejos. E o Nó que cresce no fluído de cada um desses relacionamentos, é o que sentimos como um problema por resolver. E lá vem o nosso terapeuta dizer que temos um problema com o dinheiro, ou com a rejeição ou com outra coisa qualquer. Um inferno!

Mas o que eu falei foi do meu interesse na anatomia do amor. Esse que sendo tão poderoso e transversal revela, ao mesmo tempo, que a ausência dele é terrível e um exemplo demonstrativo das piores paisagens a que a humanidade já assistiu. Uma dança perigosa entre o poder (o Amor) e a responsabilidade de o usar (os relacionamentos). Claro que o amor alberga várias vivências, mas é universal e algo passível de ser sentido por todo o ser humano. Eu cresci e fui educado para um amor romântico. Não que tenha sido uma boa coisa, antes pelo contrário. Quando se diz a uma criança que a palavra amor só pode ser usada num contexto de relações amorosas, o seu universo de sentimentos desenvolve-se aquém de tudo o que podemos usufruir nos relacionamentos. E foi o que me aconteceu. Só muito mais tarde percebi que no amor cabiam muitos mais e diferenciados relacionamentos, a começar pelo que descobri e nutri pela minha primeira filha.

O amor romântico é o mais engraçado e o mais cantado na história recente da humanidade. Um amor descoberto há cerca de 300 anos, quando a sociedade finalmente evoluiu e “permitiu” que as pessoas se escolhessem por critérios de atração (ou alteração) física. Um coração que agora palpitava mais forte. Um rosto que ruborescia. Abandonou-se aos poucos a primazia dos relacionamentos por interesse, fossem eles quais fossem. Poder, segurança, genética, sobrevivência, entre outros. Mas é um amor que não se pode descurar pois encerra em si o pináculo do exemplo de poder. Quando se ama desta forma, entregamos ao outro o poder sobre o nosso bem-estar. O nosso coração fica tomado. E esperamos que o outro faça bom uso desse poder que agora tem sobre nós. Estamos vulneráveis. E é por isso que é mais importante desejar uma pessoa íntegra do que um “Adónis”. Mas todos sabemos que não funcionamos assim. Somos mais complexos do que isso.

Apesar do seu poder quase absoluto, este não deixa de ser um amor condicional. Ou seja, existe à condição. À condição de sermos bem tratados, por exemplo. De nos sentirmos bem nessa relação amorosa. Na verdade, o amor romântico só dura enquanto uma ou várias condições persistirem. Diria, enquanto valer a pena. Enquanto a balança pender mais para o lado das coisas boas que obtemos. Relações tóxicas à parte, em que os dois estão doentes, o amor romântico existe sob ameaça constante. E por mais intenso que tenha sido e vivido, pode acabar a qualquer momento sem que depois reste a mais pequena evidência da sua existência… a não ser uma fotos, uns vídeos e um punhado de pessoas que se voluntariam para testemunhar, ainda que contra a nossa vontade.

Muitos destes amores tornam-se em lugares épicos de rancor. E é por isso que não o acho particularmente forte, no sentido de indestrutível, mas tem a sua piada pelas emoções intensas e inimitáveis a que convida viver. Mas, faça-se justiça, dele brota um outro amor, muito mais interessante. A ele se atribui a responsabilidade, embora em regime de não exclusividade, pela existência dos nossos filhos. Esse sim um amor incondicional. Esse sim um amor para a vida toda ainda que, como em tudo na vida que não é matemática, com altos e baixos. O amor que pais e filhos experimentam, e volto a ressalvar a doença, não tem explicação, limite ou morte.

Consideramos amiúde a ausência deste amor sempre que nos chateamos uns com os outros. Um engano que nos presta a maior prova de amor. Entendendo que prova é sinónimo de evidência, nós nunca nos aborreceríamos desta maneira com alguém que nos é distante. Indiferente. Nunca!… está na nossa engenharia.

Existe sempre uma primeira fase em que nos aborrecemos, em que doi o que nos fizeram, em que reagimos de uma forma que não é a nossa ou que gostaríamos que não fosse a nossa. E afastamo-nos por tempo indeterminado. Às vezes, até que a morte nos separe. Mas isto só acontece com familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos, colegas do desporto, e por aí em diante. Mas nunca, nunca, acontece entre Pai e Filho (saudáveis). O amor entre pais e filhos dança constantemente entre a Lua de Mel e um choque de 220 volts. Não há como evitar! Uma das danças embala-nos suavemente, cravando um sorriso parvo nos lábios e a outra, acorda-te para a existência de alguém que afinal tem vida própria. E nessa feira de opiniões, acorda-nos para a crua verdade de que não controlamos o nosso bem-estar a partir do momento em que somos pais.

E este também é um amor incondicionalmente desequilibrado. Injusto. Luciferiano. É que o amor dos pais para os filhos não tem a mesma intensidade do amor dos filhos para os pais. É que no caso descendente (de pais para filhos), a história da relação é muito mais rica em ingredientes: tem um cunho biológico; vimos nascer e crescer; ensinámos muitas das coisas que sabem; perdemos constantemente um pouco de paz por estarmos sempre em alerta; cuidamos deles como nossas crias e não como um programa de engorda com sete etapas; vemos neles um pouco de nós. Ao contrário do caso ascendente, ou seja, de filhos para pais, onde o seu amor é sentido como algo ligado a esta perigosa ideia da inevitabilidade: quando dizem “Eu não escolhi para nascer!” e com esta expressão desculpam-se para com a intensidade do amor que não estão dispostos a entregar. Mas penso que é mesmo neste ponto onde reside o seu equilíbrio. Qual de nós gostaria de ver os filhos constantemente preocupados, dias a fio, com o nosso bem-estar?

Quem é que aceitaria, sem que numa profunda tristeza mergulhasse, olhar para os filhos e perceber que não viviam em leveza. Sempre preocupados com alguma coisa que nunca saberiam o que era. Sempre preocupados apesar da resposta à pergunta, “mas o que é que tens?” fosse “não sei!” ou “está tudo bem”. O amor deles para nós não é, nunca será e é assim que deve continuar, um amor mais forte do que o nosso. O amor dos nossos filhos é um amor mais leve, mais despreocupado e até mais partilhado com o resto do mundo. De uma certa forma, quero eu romanticamente acreditar, um amor que se anda a poupar para que, chegada a sua vez de parentalidade, consiga ir buscar toda a força necessária. Chegada a sua vez de ser Pai, tenha as reservas de amor necessárias para acalmar a dúvida sobre se algum dia iria ser capaz de amar tanto. Essa é a verdadeira e necessária diferença. E não é assim tão pequena.

Mas esta reflexão não se esgotará por aqui. Porque é exatamente nessa utilização de diferentes escalas, a dos pais e a dos filhos, que reside o segredo para o apaziguamento. Se entendermos que este é um desequilíbrio saudável, entendemos o que é suposto dar e o que é suposto receber. Nem mais nem menos. E não iremos entrar, salvo uma ou outra recaída, em modo de cobrança. Cobrar, esse verbo que nos enruga o coração. Cobrar é não partir do princípio de que andamos todos a tentar dar o nosso melhor. Se eu penso que o outro dá tudo o que tem, ou que pode, ou que julga ser suficiente, então percebo, do meu lado, que estou a receber exatamente o que era suposto receber. É urgente, numa relação parental, que cheguemos rapidamente a esta arena onde não se vive na escassez de estarmos à espera de sempre mais, só porque nos sabe tão bem.

E como o amor manifestado de um filho nos preenche tanto, ficamos viciados nesta dopamina. Uma espécie de shot de felicidade que todos queremos repetir ao longo da semana. Ao longo da vida.

Mas é este tipo de amor que resiste ao tempo e que é de uma anatomia a toda a prova. Um amor que nos coloca em perspectiva. Um amor que contraria os ensinamentos do desenvolvimento pessoal, em que estes nos recordam constantemente que precisamos de nos colocar em prioridade. Que temos primeiro de estar bem, de nos cuidarmos, para poder a seguir cuidar dos outros. Mas a parentalidade fala mais alto e somos autênticos “bombeiros” em prontidão e de pavio curto para socorrer os nossos filhos. Cuidar, cuidar e cuidar.

E é quando largamos tudo, sem pensar em mais nada, para garantir que chegamos a tempo de os salvar, quando eles nem precisam de ser salvos, é que vemos o inexplicável, incondicional e irracional descontrolo de todo o nosso ser em relação a um outro.

Sejam atentos.

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Autor

Rui Melo
Escritor

Sou um produtor de pensamentos muito atento. Sei que a família e o Lar ocupam um lugar muito especial no crescimentos de qualquer pessoa, mas em especial, na formação das crianças.

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