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O Lar como último reduto

Posted on Abril 4, 2025Dezembro 23, 2025 by Rui Melo

Um dia ouvi esta frase: “A lente que escolhemos interfere com a paisagem.” Apesar de ter gostado imediatamente da frase, assaltou-me uma inquietação. Então, isto quer dizer que… aquilo que eu achava que era estável e que nunca me iria falhar, a paisagem onde eu estivesse, afinal não seria bem assim. Que essa mesma paisagem iria estar diferente conforme a agitação ou a calma que habitasse em mim?! E essa é a vulnerabilidade da vida. A mesma paisagem pode ser visitada e saboreada de múltiplas maneiras.

E é por isso que dar importância às coisas não tem de ser sinónimo de as tornar pesadas. Se colocamos muito peso nas coisas, atrapalhamos a nossa vida. Andamos sempre cansados. Sem predisposição para a beleza das várias paisagens. Mas se dermos a importância que as várias coisas merecem, ficamos centrados com a vida e ela flui. Escolhemos o tal olhar com que olhamos cada coisa e não gastamos a energia que às vezes nem temos para gastar.

Centrar-me na vida, para mim, sempre foi hierarquizar a importância das várias coisas. Cada um terá a sua lista, e é isso que importa, porque não tê-la é que levará ao desnorte. E para mim, umas dessas coisas, colocadas no topo da pirâmide, é o Lar. Entenda-se, a minha família direta a coabitar numa casa e a que chamamos de família nuclear.

O Lar, ao ser o último reduto, tem duas, e ambas verdadeiras, interpretações. E é preciso escolher em qual delas queremos colocar maior atenção. Ou melhor dizendo, em qual delas queremos emprestar masi vezes o nosso olhar:

  • Reduto, como o ninho de onde saímos todos os dias e para onde voltamos todos os dias. Um lugar para nos sentirmos seguros. Onde nos construímos e reconstruímos a cada dia, num sentimento de conquista da vida e do mundo lá fora. Um lugar onde amadurecemos e nos preparamos para abandonar e criar a nossa própria família. Dizermos com orgulho “agora é a minha vez!”… coisa que nos dias de hoje acontece cada vez mais tarde. Só por curiosidade, em média, os nossos filhos só estão a sair de casa aos 25 e qualquer coisa, anos. Se considerarmos esta estatística apenas para Portugal, chegamos a uns impressionantes 30 anos. E,
  • reduto, numa questão às vezes muito menos positiva. No sentido da última proteção. A última barreira de resistência. Que aponta para o nosso Lar ser, muitas das vezes, onde se erguem a barreiras com o exterior. Erguemos essas barreiras para não deixar que de fora venham ideias diferentes das nossas. Um lugar onde as nossas crianças, e os pais também, não evoluem e não se livram tão facilmente da herança geracional e de, às vezes, alguns dos hábitos familiares pouco saudáveis. Todos herdamos, e se não nos abrirmos aos outros lares e à comunidade, mais difícil se torna de os perder, erradicar, para assim vivermos uma melhor parentalidade.

Ou seja, ou vemos o nosso Lar como um lugar aberto ao mundo ou como um lugar de proteção em relação ao mundo. Claro que alternamos ao longo da vida entre estas duas predisposições, mas o que interessa discernir, é em qual dos dois modos queremos primariamente operar.

Mas hoje, principalmente, quero falar-vos do ambiente de confiança que é preciso construir dentro das nossas casas. A coisa mais estranha que pode acontecer dentro de um lar é termos uma convivência tão próxima que só pode dar em confiança, só que não. Se nem a intimidade e a confiança crescerem com o passar dos óbvios anos pela frente, então algo se passa em nossa casa. Antes que façam aquela expressão de “Como é óbvio!”, deixem que vos diga uma coisa. Confiança não é a mesma coisa que intimidade. Confiar, é, por exemplo, eu saber que mesmo estando a ter um dia ou uma semana difícil, vou ter o apoio da minha família lá em casa, no meu ninho. Vou ter, apesar de tudo, quem vai tentar respeitar o momento ideal para eu pedir ajuda. E mesmo quando não quero pedir ajuda, que venha para o meu lado em silêncio, comer porcaria e ver um filme que não lembra-o-Diabo, e ficar, nem que por momentos, na merda comigo.

Confiar também é algo que surge com o tempo. É um processo que ninguém consegue acelerar. E agora estou a pensar muito nas relações de enteados e padrastos e madrastas. Nestes casos, muito cuidado com o que se tenta fazer à pressa, embora com as melhores das intenções. São os filhos do outro, num processo de uma certa adoção, e que acabaram de chegar a este lar. Ou então são os nossos filhos, que connosco estão a chegar a um outro lar. Confiança?, ainda não existe e muito menos intimidade, que virá a seguir.

Construir confiança, é perceber que não devemos correr para os salvar das emoções negativas por que estão a passar. Como se fosse uma doença. Pressionamos para resolver com urgência o seu dia de merda, porque não nos sentimos bem com aquele filho a sofrer. Eles sofrem nós sofremos. E nós queremos evitar o sofrimento. A determinado ponto do processo de assistirmos a este sofrimento, a única coisa válida a fazer é passarmos a ideia de que estamos lá para eles. Que estamos ali e não vamos a lado nenhum e estamos disponíveis para quando eles nos quiserem.

Ao sentirem-se cuidados, vão com toda a certeza querer cuidar das outras pessoas. Das pessoas mais importantes das suas vidas. Onde nos incluímos, claro. Mas antes disso, vão querer cuidar deles próprios. E essa é a melhor e mais rápida forma de resolver um dia de merda. Se os filhos não se sentem cuidados pelos pais, não se vão sentir valorizados. E vão pensar: “se eu não valho nada para quem mais gosta de mim, é porque sou uma merda a mereço ter um dia de merda.” O que se segue é que essa criança nem pensa que merece cuidar dela própria. Quem é que se consegue levantar disto?

Então, como é que cuidamos dos nossos filhos, todos os dias, para que possamos construir uma relação de confiança? A tal confiança que vai servir de rede para um dia de merda? É uma regra da vida no mar. Só podemos salvar os outros depois de estarmos em segurança e a salvo. Se há só um colete de salvação, veste-o e vai salvar os outros que não têm colete. No caso dos pais, precisam de estar bem num dos pilares das suas vidas: o trabalho. É que estando bem, lá fora, não vão trazer lixo para dentro de casa. Esse lixo emocional. Têm de estar bem nos seus empregos. Mas sim, claro, quem nunca esteve em conflito no trabalho ou consigo mesmo por causa do trabalho?!

Os pais precisam mesmo de não desistir até encontrarem o emprego que lhes permita estabilidade emocional. Não apenas a estabilidade emocional, mas e acima de tudo, sentirem-se realizados. Muitos dirão que é muito difícil. Não contesto. Mas devemos tentar, por aproximação, convergir para aí. Saber para onde ir, é já uma boa parte da solução.

É como aquela falácia de se dizer que é sempre melhor os filhos terem os pais juntos, debaixo do mesmo teto. E eu digo que é sempre melhor separarem-se se o ambiente que lhes estão a oferecer já os prejudica mais do que os favorece. Nós somos a sua primeira e principal paisagem.

Foi realizado um estudo que ajudou a concluir isto: chegar tarde do trabalho não afeta tanto como chegar cedo a casa, mas derrotado. Chegarmos a casa empoderados de vida vai fazer com que cuidemos dos nossos. Faz com que tenhamos aquela folga para nos permitirmos cuidar dos outros que habitam connosco o nosso lar. E esse é o caminho da construção de um ambiente de confiança. Se os nossos filhos sentem que, se se forem abaixo ninguém lá estará para eles, então não vão arriscar serem eles. Porque é quando tentamos fazer diferente que a frustração nos visita. Porque não conseguimos ou porque não atingimos o que estávamos à espera. Numa frase “soube a pouco” e não vale o confronto. Não vale a pena arriscar a instabilidade. Mais vale deixar como está. Por que no confronto quase sempre há cacos por todo o lado. E se acrescentarmos o facto de não estar ninguém à nossa volta para nos amparar, então não arrisco ir para essa situação de vulnerabilidade.

E o lar pode ser esse lugar. Onde um ambiente de confiança permite que cada um de nós possa mostrar quem é, e quem quer ser. Onde podemos ensaiar as nossas dúvidas. Dizer o que pensamos. Construirmos a nossa personalidade de forma livre e cimentada. Um lugar onde sabemos que a vulnerabilidade estará sempre à espreita, mas que não nos irá derrubar. Porque sei que a vulnerabilidade me é permitida. Se pudermos olhar a vulnerabilidade de frente, ela não nos assusta ou atrapalha ou congela as nossas acções.

Mas existe um outro lar, já falámos num outro episódio, em que os pais não participam. Quer dizer, não diretamente. A relação dentro do Lar entre irmãos. E esse Lar construído pela geração abaixo, não pode nem deve ser imposto pelos pais. Mas pode ser incentivado pelos pais. Vigiado de longe, se assim preferirem, com as nossas sãs regras a forrar todas as paredes. Porque, ainda que cultivemos esta confiança entre todos, não conseguiremos impor aos irmãos que confiem uns nos outros. Isso não vai resultar. Confiança é uma construção que leva o seu tempo. Portanto a única forma de obter esta confiança é através das vivências em que se tiveram de ajudar uns aos outros. E é aqui que os pais podem patrocinar este caminho através de lhes pedirem tarefas que envolvam os irmãos na sua realização.

O pior que os pais podem fazer é incentivar um filho a “entregar” um irmão, para tentar descobrir o culpado ou como aconteceu isto ou aquilo. Essa manipulação destrói rapidamente a confiança que já se tenha granjeado. Eu acho muito honrado quando, mesmo apertados por todos os lados, os nossos filhos protegem-se uns aos outros. Se há limites? Com certeza. Principalmente o limite de se estar a encobrir algo de muito grave com a saúde, justiça ou outras.

Confiarmos uns nos outros e no ambiente do nosso lar, é tudo o que precisamos para que o lar também cuide de nós. Se o lar estiver forte, quando vacilamos vamos ter lá este elemento para nos ajudar a levantar.

Sejam atentos

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Autor

Rui Melo
Escritor

Sou um produtor de pensamentos muito atento. Sei que a família e o Lar ocupam um lugar muito especial no crescimentos de qualquer pessoa, mas em especial, na formação das crianças.

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