Continuo, empolgado, na venda desta ideia de que existem quatro personagens no nosso Lar: Eu, Nós, Tu e Eles. Mas não nos podemos esquecer da Personagem que todos ajudamos a criar e que ganha a sua vida própria. Uma personagem tão independente como cada um de nós. Essa Quinta Personagem é o Lar. E é mesmo preciso ver o nosso Lar como uma entidade à parte. Esta quinta personagem, que está ali no meio de todos e para a qual todos contribuímos com o que temos e de onde tiramos aquilo de que precisamos.
Mas se este lar não estiver com um mínimo de equilíbrio, o que vou obter dele, quando precisar, também não vai ser equilibrado. Talvez se aplique aqui uma das regras universais: se cuidares, mais tarde vais ser cuidado. Este é, no final do dia, um equilíbrio inquestionável. E em equilíbrio, vocês já sabem, as coisas perduram.
Mas comecemos pelo início. O nosso lar, para se tornar num lugar que potencia todos os seres que por lá habitam, tem de possuir algumas características. Não necessariamente as minhas, ou as dos meus vizinhos, mas as que cada um de nós, adultos, escolher para o lar. E, como é óbvio, o que cada filho vier trazer com a sua unicidade.
O lar antes dos filhos
Já aqui falamos da importância de o casal discutir os ingredientes que acham mais valiosos para se sentir um bom ambiente no lar. Não podem ser muitos, eu diria num máximo de sete (isto não é nada científico), mas o interesse desta regra vai desde ser gerível, baixando os níveis de ansiedade, até à escolha dos ingredientes best-off, que ambos trazem e que é preciso escolher e concordar. Não pensem que é fácil! Mas vale todo o tempo que dedicarem a esta discussão.
Existem algumas dicas para vos guiar:
- Vão recuperar o que trouxeram de bom, de casa dos vossos pais, e que o outro reconhece como positivo;
- Perguntem-se sobre o que trouxeram de casa dos vossos pais e que não é assim tão bom, ou porque o outro não gosta e não aprova. É preciso algum trabalho para nos livrarmos destas coisas.
- Coisas que admiram e que tenham observado noutros lares, que visitaram ou ainda visitam;
- E comentem as coisas que viram e que não gostam. Serve apenas para solidificar as vossas opiniões.
- E, por último, ainda há espaço para formularem novos ingredientes. Nem que seja inspirado no cinema ou nos livros.
Deixo-vos um exemplo, de que gosto muito: Cá em casa “ou estamos todos felizes ou então já não brinco”. A deixar esta ideia de que é preciso solidariedade para quem, naquele momento, não está assim tão bem. O ímpeto não pode ser “continuar com a festa” e não dedicar tempo e energia a ajudar o elemento que se está a sentir mais em baixo, só porque agora “não nos dá jeito”.
Todo este trabalho nunca está terminado. A família cresce. Nós crescemos. Todos os ajustamentos são bem-vindos e significam maturidade do casal e do Lar. Até porque, os filhos trazem sempre qualquer coisa que nos enriquece a todos.
O lar “está grávido” e/ou com filhos até aos 5 anos
Esta é a fase em que passamos a olhar para uma outra coisa, também muito importante: Garantir que o ambiente no nosso Lar está a cumprir com o que cada casal acha serem as cinco coisas que não podem faltar ao seu bebé ou criança até aos 5 anos.
Atrás vimos o que o Lar deve ser como ninho que nos acolhe todos os dias. Mas agora, queremos fixar o que são as coisas que lhes queremos oferecer no dia a dia. Quase como a nossa fórmula para uma educação dos nossos filhos. Uma fórmula que nos inclua e que inclua aquilo em que acreditamos. Não vale a pena inventar uma fórmula que nos diz pouco e que nunca irá aderir ao que os pais são. Vamos ser descobertos rapidamente.
Se olharmos a estas cinco coisas, e mais uma vez nada disto é “muito” científico, vamos reparar que estaremos a cobrir cerca de 90% de tudo o que este bebé precisa para ser saudável, feliz e apto para a vida. Esta também é uma forma de deixarmos de andar mergulhados numa pesada ansiedade que nos paralisa.
Pais em stress nunca são bons timoneiros. Os pais são os líderes deste lar. E como líderes têm de se antecipar no que é mais importante. Sabemos que vamos falhar e todos já falhámos, mas já gora, que se falhe naquilo que não tem assim tanta importância. Por exemplo, eu considero fundamental que se converse com o bebé. Mesmo que se sinta que o retorno do bebé está aquém das nossas expectativas, devemos insistir. Ele está mesmo a deliciar-se com a nossa provocação.
Aceitemos que os nossos filhos são mesmo muito diferentes de todos os outros e por isso com tratamento especial. O que interessa é como nós os vemos e não como os outros os vêem.
O filósofo Francisco Bosco, através do livro “Orpheu de Bicicleta”, disse – “existem 3 tipos de crianças: Os meus filhos, os filhos dos meus amigos e as outras crianças. E nesta específica ordem”. Quando alguém diz que não gosta de crianças e por isso é melhor não ter filhos, estão, na verdade, a pensar apenas nas 2ª e 3ª categorias de crianças. Os nossos filhos não são crianças. São apenas e tão somente, os nossos filhos. E com os nossos filhos relacionamo-nos à base de outras zonas do corpo. Isto é ciência que ainda não se explica lá muito bem.
Com estas 5 coisas asseguradas, não vão falhar muito”. Acreditem!
O lar em dinâmica máxima
E chegamos ao que interessa. Esta é a formulação do vosso lar por muitos e bons anos. Eu diria, até ao momento em que o vosso último filho vos deixa. Ainda assim, como vai acontecer comigo, quando a última das minhas filhas sair, os primeiros netos estão a chegar. Nunca, verdadeiramente, vamos conseguir olhar para a nossa casa como uma paisagem que não os influenciou e que não irá influenciar os nossos netos.
Quem não tem deliciosas memórias da casa dos nossos avós? De tudo o que lá se fazia e, principalmente, como se fazia.
Uma das coisas que mais gosto no lar é a forma como podemos simular tudo para a vida. Como a minha mentora (Joana Leão) diz “A forma como fazemos uma coisa é a forma como fazemos todas as outras.” Sejam atentos a tudo o que vos rodeia, tendo esta máxima sempre à mão.
Sentir que estamos em equilíbrio não é a mesma coisa de sentir que todos estamos em equilíbrio. Lembrem-se: Eu, Eles e o Lar, devem cheirar a equilíbrio. A quantidade dos nossos “Tenhos” não pode ser muito diferente da quantidade dos nossos “Queros”. Segundo Arthur Brooks, esta é a equação equilibrada perante a vida e os outros. É importantíssimo que eu tenha a noção do que tenho e trago para o Lar, para assim, e só assim, saber até onde posso ir com o que quero que o outro também traga para o Lar. Não tem de ser um equilíbrio doentio, mas nenhuma relação aguenta grandes desequilíbrios por muito tempo. Os meus TENHOS demoram a construir e dependem da minha vontade. E todos somos capazes de conseguir mais desses tesouros que depois oferecemos ao Lar. Mas é na gestão da quantidade dos meus QUEROS que eu posso agir imediatamente. Às vezes esquecemo-nos de que vivemos de mão estendida, sempre à espera de receber.
No passado, talvez nas relações dos nossos pais e avós, era possível manter relações desequilibradas por muito tempo. Mas sempre à custa de alguém e a coberto de uma sociedade, também ela desequilibrada. E sempre que temos uma sociedade, comunidades e lares desequilibrados “produzimos” filhos a precisar de conserto. É um legado demasiadamente pesado para os nossos filhos. Uma pegada parental que depois se torna difícil de corrigir nas gerações seguintes.
Nós, por instinto, sabemos que ninguém fica por muito tempo, onde não é feliz. Onde não é reconhecido. Onde não é mimado com o que o outro traz. Um Lar, é, provavelmente, a “arena” mais intimista, intimidadora e reveladora deste tipo de desequilíbrio. E ninguém conseguirá fingir por muito tempo. Este é um lugar para se levar muito a sério na construção da nossa vida em direção à felicidade.
No pináculo da maturidade de um lar, estamos a falar desta sensação de que todos, mas todos, estão a conseguir SER (naturalmente) ou a caminho de serem aquilo para o qual foram desenhados para Ser.
Aqui vai uma pergunta prática e difícil sobre o que estou a dizer: O que fará uma criança feliz? Deixem a criança ser criança. Um Lar que impeça uma criança de ser criança. Que por exemplo não lhe permita brincar um pouco todos os dias, tenho a certeza de que este Lar está doente. E vai, com toda a certeza, criar uma criança também ela doente.
Claro que preferimos impor regras, porque é assim que também controlamos tudo melhor e não nos sentimos perdidos. Porque é assim que nos sentimos no controlo quando a vida acelera tantas vezes. Tantos dias. A liberdade assusta. Principalmente ao nível da parentalidade. “Como assim, deixá-los ser o que quiserem ser?!” A nossa liberdade é um direito, mas a liberdade dos outros tem de ser por eles conquistada.
Um lar em liberdade só é possível depois de o trabalho anterior, aqui mencionado, ter sido feito. Só assim o nosso lar vai transpirar valores e princípios, únicos “polícias” da liberdade. E é desta forma que se nota quando essa liberdade está a ser mal utilizada ou a colocar a liberdade dos outros em causa. É com um lar equilibrado que os pais conseguem, de forma quase automatizada, sentir que é justa aquela determinada decisão que estão a tomar.
Saber estabelecer limites decorre de termos valores e não de uma lista qualquer que colocamos na porta do frigorífico.
Todos, mas mesmo todos, queremos sentir que o nosso Lar está lá para nós. Constitui aquela rede que não nos deixa cair ainda mais fundo. Que nos conserta para voltarmos à tona. Que nos diz, sem dizer uma só palavra, que pertencemos ali, àquela matilha. Que a vida faz sentido e vale a pena viver. Que nos diz, sem emitir um som, que ainda temos muita prazerosa vida pela frente. Um Lar em equilíbrio e com os “cheiros” certos, é fonte de esperança. E o que será do Homem sem esperança?!
Sejam atentos.
