Os meandros d`aquilo a que, de forma pequenina, chamamos de vida, estão muito longe de serem conhecidos. Sabemos, só pela rama, o que a vida significa para nós. Será a vida um milagre ou um conjunto de memórias. Poucas pessoas viverão de acordo com a noção de que a vida também é um imenso conjunto de possibilidades. Quem é que não fica de joelhos perante esta afirmação? A Vida contém em si a infinitude das possibilidades. E quando disse, ali atrás, “pequenina”, não me referia à Vida. Ou à importância da vida para nós. Ou até mesmo, acerca da nossa relação com a vida. Falo, isso sim, da compreensão pequenina que temos da vida.
Quando precisamos de compreender uma coisa e lutamos que nem uns valentes para a entender, isso quererá dizer, que ela, essa coisa, ainda está fora de nós. E é isso que é grave. Dizer que um prato é o barro mais a pintura que nele ficou, é de uma pequenez atroz. E o que dizer da sua função? Do seu equilíbrio como peça? E das memórias que recordamos de todas as vezes que, à volta de uma mesa, com esse mesmo prato, partilhámos momentos com as pessoas de quem mais gostamos?
Aquele prato, novinho em folha, que agora podemos comprar, não é o mesmo prato. E a forma como olhamos a vida, é extremamente pessoal e personalizada. A Vida tem esse dom: De nos conceder a possibilidade de moldarmos a vida que quisermos. E com esse resultado em constante construção, sermos vida. Nós somos vida. Nós somos a expressão artística das infinitas possibilidades. Nós criamos vida com a existência que o universo providenciou. Nós somos a Vida.
Haverá alguma coisa maior do que esta?
A vida, não se explica. E quem, “pequeninamente”, andar uma vida inteira à procura da sua definição vai passar ao lado da oportunidade de a viver em vez de a dissecar. É como se, tendo lábios e sabendo da sua existência nunca beijasse alguém. O que dizer de uma pessoa que tendo pulmões se recusa a respirar? Que tendo pernas se recusa a caminhar? Que tendo braços se recusa a abraçar? É um cliché dizer que a vida é para ser vivida. Eu prefiro sentir que a vida é para ser desenhada. Aprimorada. Admirada. Exibida. A vida é a nossa obra-prima. Porque na verdade, sinto-a como A minha obra de arte. E a prova de que é tão importante, é que levamos uma vida inteira a construí-la. A nossa vida é, provavelmente a única obra de arte que fica acabada. Porque chegará o momento em que mais ninguém lhe conseguirá acrescentar ou melhorar o que quer que seja. Ficamos na memória de quem fica, mas essas memórias já pertencem a todas essas outras vidas. A todas essas Obras de Arte que se cruzaram connosco.
O primeiro impulso a ter para conseguirmos criar vida, como ela quer ser criada, é o amor. E a primeira conjugação é: Amarmo-nos em tudo o que fazemos. Esse é, verdadeiramente, o ponto de partida. Não existirá outro… o que dizer de uma pessoa que podendo amar, prefere a indiferença. É que odiar é uma prima muito próxima de amar. Não é, em bom rigor, o seu oposto. A indiferença é mesmo o que nos torna em criaturas que escolhem ser a antítese daquela para que foram desenhadas. O meu olhar sobre os humanos, e reconhecendo-nos como A espécie mais apetrechada, não pode deixar de ser de incompreensão. É a indiferença que nos leva a não amar o outro. A não amar nada. Não é o ódio que nos faz “não amar”. As guerras existem porque assentam numa indiferença massificada entre dois grupos de pessoas.
Eu não acredito que alguém de perfeita consciência com a sua natureza humana, consiga encontrar diferenças substanciais entre duas pessoas e que a levem à indiferença. À indiferença acerca das necessidades do outro, que afinal são as mesmas. À indiferença acerca das dúvidas do outro, que afinal são iguais às nossas. Às suas tão iguais lutas diárias. Somos 100% iguais. Passem os milénios que passarem. São mais diferentes duas árvores do que dois seres humanos e, no entanto, dizemos “árvores”.
Mas o que será isto de se colocar o amor ao centro? Para mim e por tudo o que foi já escrito, é usar a oportunidade de viver a vida como ela quer ser vivida. Costumo perguntar, não sendo nada original, o que fará uma criança feliz? E a resposta mais simples, apesar de carecer de afastar alguns enigmas é: Deixe-se a criança ser criança. Claramente enigmática porque atira-nos para um círculo vicioso. Mas intelectualmente honesta porque exige de nós que se busque as respostas à pergunta: O que é ser criança?
Viva-se a vida como ela quer ser vivida. Mas como será que a vida quer ser vivida? Pois! Eis a questão… Mas se até ao fim deste texto eu conseguir responder minimamente, então desconfio que teremos de voltar a aprender a ser humanos. Se o conseguirmos fazer, estaremos em condições de viver a única vida que nos está destinada e fazê-lo da única forma que nos enche de sentido a nossa existência.
Mas de que servirá saber viver a vida? Da mesma forma que Platão, com a alegoria da caverna, quis transmitir. Quanto menos soubermos e menos questionarmos a vida, mais andaremos contentinhos com uma vida aquém da vida. E parece que somos muito bons, como espécie, a fazê-lo. Vivemos em escassez de tudo, até de sentimentos, como se eles se gastassem na exata medida em que os demonstramos às outras pessoas. E o amor, como Aquilo que é o mais forte de entre tudo, fica na gaveta para uso futuro. Sempre para uso futuro. E é assim que adiamos a nossa capacidade de criar vida.
E como, “em caminho onde ninguém passa cresce erva”, assim ficamos sem saber que precisamos de usar o amor em tudo o que fazemos. Quando não usamos uma parte de nós, esquecemo-nos dela. Assumimos que não precisamos. Vamos estreitando e acabrunhando a imensidão de possibilidades de que somos feitos e com o passar do tempo ficamos com pouca vida. Somos nós que amputamos a vida em nós.
O amor, para sair do armário e apanhar ar, gosta de intimidade e de proximidade. Gosta de saber que é bem-vindo. Gosta de se reconhecer entre pares. Que quem o usa sabe do seu valor e poder. Se não for para transformar a nossa vida, o amor nem precisa de ser evocado. E o nosso lar, onde a nossa família principal vive, é o lugar mais importante de ensaio do uso do amor em tudo o que fazemos. Lá encontramos proximidade, às vezes até em demasia, e intimidade. Sendo que eu gosto de definir a intimidade como a conversa entre duas pessoas sem que uma palavra seja dita. Este é o lugar que se torna, ao longo dos anos, uma extensão de nós. Se assim não acontecer, é porque está doente e é urgente pensar na sua cura.
Quando tudo funciona como uma engrenagem, e nada tem a ver com “funcionar na perfeição”, então estamos a criar vida. Estamos a deixar que o amor salte para o centro e faça a sua magia de providenciar energia, bem-estar, autoestima, sonhos, desejos e muito mais. Quando tomamos a decisão de usar o amor sem medo que se acabe, num claro sentimento de abundância, não só estamos a criar vida com qualidade, como ainda estamos a ajudar os que nos rodeiam a gerar vida.
Colocar o amor ao centro é o mesmo que colocar um obstáculo no nosso caminho. Em todos os nossos caminhos. Um obstáculo bom. Aquele de que não fugimos, mas abraçamos. Integramos. Como naqueles jogos de consola, em que para apanhar uma moeda e somar pontos, temos de a atropelar. O Amor quer ser integrado na nossa vida. E a nossa vida, a nossa obra de arte, quer integrar o amor. Sabermos, por intuição, que para fazermos o que quer que seja, vamos ter de passar pelo amor. Como se fosse um banho de imersão.
Estou a pensar ter um filho, mas antes, vou fazer um banho de imersão de amor e só depois me permito compreender o que é um filho. Vou ajudar um amigo, mas primeiro passo pelo obstáculo chamado de amor e percebo a forma como esse amigo precisa de ser ajudado. Sem o diminuir.
Colocar o amor ao centro é muito mais do que apenas um jogo de palavras. É saber que somos paisagem uns dos outros e por isso assumirmos essa responsabilidade de sermos a nossa melhor versão para que geremos vida em nós, mas também inspiremos os outros a gerar as suas vidas da forma mais solta, para que o universo de possibilidades esteja sempre activo.
Colocar o amor ao centro, é fazer perguntas ao coração e depois viver conforme a sua resposta. Garanto-vos que falham muito menos.
Sejam atentos.
