Existem muitas coisas na vida sobre as quais apenas nós sabemos. Mas existem muitas outras sobre as quais ainda andamos a descobrir. E depois, como se isto, só por si, não fosse já complicado, existe o olhar de todas as pessoas que se cruzam connosco sobre estas mesmas coisas.
Ter dúvidas sobre nós próprios é até uma coisa meio-que-para-o-saudável. Quer dizer que nos questionamos e que estamos, aparentemente, no bom caminho para nos tornarmos melhores pessoas. Eu disse aparentemente…
Mas quando estes nossos pensamentos exploratórios se cruzam com uma opinião sobre nós, que até desconfiamos estar longe do que será a nossa conclusão, se nos derem mais “tempo de processamento”, então ficamos muito vulneráveis.
Se não, vejamos. Nós temos acesso a informação que mais ninguém tem. Como queremos evoluir na boa direção, colocamos dúvidas e andamos anos em processamento. E depois, vem alguém de fora concluir sobre nós, como que por magia, sem qualquer fundamento, a não ser um punhado de suposições. E em vez de nos ajudar, tudo isto cheira a julgamento. E é por isso que gosto de deixar as opiniões dos outros fora da minha zona alquímica, onde todos os pensamentos se cruzam. “É preciso matutar nas coisas”, já dizia o meu pai.
Mas esta escolha que faço acarreta ainda mais responsabilidade. É que… se sou eu o único guardião de toda esta informação, então terei de trabalhar ainda mais para chegar à tal versão que persigo.
Uma das maiores áreas de julgamento é a nossa disponibilidade perante os outros, perante o trabalho, perante a comunidade, perante o planeta, perante os pobres, fracos e oprimidos, entre outras. E… lembram-se?… a informação única de que dispomos pode ajudar-nos imenso nesta discussão interior. É que, invariavelmente, a nossa falta de disponibilidade vai dar à nossa falta de recursos: energia, tempo, paciência, dinheiro, vontade, de entre outros. Lá está, só nós sabemos porque não nos tornamos disponíveis o suficiente para os outros.
Eu tenho esta teoria de que a nossa disponibilidade está intimamente relacionada com a ausência. Com a ausência… de uma agenda assoberbada. Não me interpretem mal! O tamanho insuflado do nosso ego está diretamente relacionado com as milhentas coisas que temos apontadas na nossa agenda e que só em sonhos tencionamos cumprir. A nossa agenda parece uma rua em hora de ponta. Qualquer avaria num dos carros na fila de trânsito, pela manhã, significará o caos nas nossas vidas até ao final da semana. É que aquela hora que perdemos e que nos fez chegar muito mais tarde ao trabalho, vai enguiçar, como peças de dominó, toda a nossa semana. Não só no trabalho, como na vida pessoal e familiar.
É uma excelente jogada da nossa parte, colocarmos, espalhados na nossa agenda, compromissos sem nada para fazer ou, como prefiro, reuniões com ninguém. Reuniões em que o assunto é “a vida a acontecer”. Ou tarefas com o título “Logo se vê”. Pelo menos consigo manter o meu ego num tamanho aceitável e sem ele perceber que quando olha para a agenda, com aquela mancha toda bem preenchida tem, afinal de contas, uns buracos de puro ócio. É a absoluta urgência de nos convergirmos para a vida no presente. Uma verdadeira habilidade que todos podemos treinar. Uma habilidade que gostaríamos de dominar, e que é transversalmente importante em qualquer fase da nossa vida.
E é quando penso no melhor timing da nossa vida para treinar uma habilidade como esta, penso naquela fase em que já “estamos grávidos”. Nesse momento sabemos que é imprescindível treinarmos a arte de ausência temporária de agenda. Porque é nesta fase que se torna absolutamente urgente, para que estejamos prontos para quando o bebé nascer. E nós, grosso modo, somos muito bons a lidar com as urgências da nossa vida. Quando já não podemos adiar mais, cerramos os punhos e levamos tudo à frente. Não será assim? Este é o momento. Depois disso, com filhos nascidos e a vida a acelerar tanto, torna-se mais difícil (mas não impossível) de parar, de abrandar e de treinar esta habilidade.
Mas é essencialmente porque não treinamos esta habilidade para se estar disponível, que eu considero que somos todos mentirosos até prova em contrário. Estamos sempre, por delicadeza, a oferecer a nossa ajuda. A nossa disponibilidade. A nossa atenção. Mas sabemos, bem lá no fundo, que não estamos disponíveis para cumprir nem um décimo das nossas promessas… e, mais grave, passamos a considerar isto normal!
Eu até diria que parece ser uma atitude que nos fica bem e que quebra o gelo em muitas das nossas ocasiões na vida. Ser prestável. Estar disponível. Mostrarmos que estamos sensíveis às necessidades do outro. Um quase céu quando prometemos um até já. Ou quando dizemos que temos de combinar um jantar, todos juntos, lá em casa. Ou até mesmo, quando oferecemos a nossa ajuda, para aquela mudança de casa que está a acontecer àquele nosso grande amigo. Fica bem, mas sabemos que somos o impostor. Se metade de todas estas ofertas fossem aceites, não faríamos outra coisa que não cumprir promessas, que, agora, se virariam contra nós. Nos tomaria a nossa agenda de assalto.
No limite, e para aqueles que têm esta doença – a síndrome da prometice, ficariam sem tempo para trabalhar e ganhar o seu sustento. Mas então por que razão fazemos isto constantemente e com uma frequência que até assusta os profissionais da promessa? Há uma brincadeira que gosto de fazer quando me oferecem ajuda… aceito-a logo. E faço tudo para conciliar as agendas para que não se torne impossível. Isto é pura matemática: não deixo que a interceção de duas agendas dê um conjunto vazio. Testo de uma forma infalível a honestidade da oferta. É que não gosto que ganhem o céu às minhas custas e por isso, é ver os meus amigos a evocarem logo a Santa Agenda e se nos demoramos mais do que 5 minutos, esse amigo já só nos consegue ajudar lá para agosto, quando a mudança é em maio e temos de abandonar a casa actual no final do mês, porque já está vendida.
Rir é muito bom entre amigos e é isso, de facto, a única coisa que aproveito destas conversas.
Mas se estes simulacros de meninos bem-comportados não têm mal algum, evoco aqui os perigos desta prática se tornar um maneirismo ou, pior, de se tornar um traço de personalidade, que pais mantêm na relação com os seus filhos.
Estarmos perante os nossos filhos a assumir compromissos é de facto um outro nível neste pequeno grande jogo. Se entre amigos a coisa passa com alguma leveza, os nossos filhos são profissionais de não deixar passar assuntos por entre as pingas da chuva. E para além de cobrarem, acabam por fazer uma outra coisa a seguir: deixam de falar sobre isso. E é neste ponto de viragem que deixamos de ter os únicos consultores que se preocupavam em nos ajudar a sermos melhores pais. Quando eles já nem se chateiam em nos chamar a atenção, atingimos o ponto de não retorno.
E nunca nos podemos esquecer de que a forma como fazemos uma coisa é a forma como fazemos todas as outras. Por isso… vamos parar, e pensar em como nos podemos educar, para nos tornarmos realmente disponíveis para os nossos filhos. A parentalidade não é uma promessa que se quebre de ânimo leve à espera que não resulte em cacos. E os nossos filhos são os únicos a perder com este nosso maneirismo.
Estar disponível para os outros, e neste caso, para os nossos filhos, não exige muita coisa além da nossa própria disciplina. Tudo são escolhas. E neste caso, é querer escolher de entre as múltiplas coisas que fazemos, aquelas que deixamos cair. Para mim, quando nasceu a minha primeira filha, senti a urgência de optar e, como é óbvio, decidir que coisas passava a não fazer para ganhar os tais buracos em que nada acontecia. E não estou a falar dos “buracos de tempo” para poder mudar fraldas, dar banhos, ir ao médico… nada disso. Estou a falar dos buracos vazios na agenda para que estivesse disponível para o que as minhas filhas, aqui e ali, solicitassem de extra… por exemplo, acudir a um ar zangado. Uma tristeza a precisar de tempo e proximidade da minha parte. Enfim…. o que é, afinal, a vida ela própria.
Por isso, a primeira coisa a fazer é criar buracos. Deixar cair algumas coisas que já não nos acrescentam nada.
Mas estarmos verdadeiramente disponíveis, não versa apenas sobre quantidade de tempo. Do nosso tempo, claro! Dispor do tempo dos outros é muito deselegante e, no seio da família, não aconselho mesmo nada. Diria que não tem futuro. Estarmos disponíveis versa muito mais sobre a qualidade dessa nossa disponibilidade. E por isso, aponto aqui três ingredientes muito importantes que terão de estar presentes, para que possamos, perante o nosso lar, oferecer verdadeira disponibilidade.
O primeiro ingrediente é estar disponível fisicamente. Estamos a caminhar a passos largos para acharmos que uma videochamada é a mesma coisa que uma conversa à mesa. Que uma mensagem escrita é a mesma coisa que uma conversa que oferece o calor da nossa voz. Que um poema no dia do aniversário é a mesma coisa que uma série de abraços quentes e apertados. E também lamento desiludir os adultos que pensam resolver as suas ausências com a contratação de pessoas que os substituem: ora lá em casa com babás, ora em passeios depois da escola ou despejados em ATL`s e afins, mascarados de lugares de aprendizagem, só porque fingimos que não sabemos a matéria que eles estão a dar.
Estar presente fisicamente ajuda a calibrar uma mão cheia de sistemas biológicos nos nossos filhos. Não inventemos que eles precisam de aprender mil e uma coisas para poderem melhor enfrentar a vida. Eles são uma versão mais bem apetrechada do que nós e por isso, mais bem-adaptados à vida moderna. Se eles estiverem bem, equilibrados, connosco por perto, nada mais precisam para resolver os desafios que a vida lhes propõe. Se olharmos à habilidade de “saber pensar” como uma das mais importantes para a sua vida, chegamos rapidamente à conclusão de que não existem outras pessoas e outro cenário mais adequado para os fazer crescer nessa habilidade do que o nosso Lar. Do que a nossa presença.
Estar presente fisicamente também implica a qualidade com que estamos presentes. Estar com eles a viver o presente. A viver o momento. Estar de mente ausente apesar do corpo, é das piores coisinhas que podemos oferecer aos nossos filhos. Costumo dizer que o teste mais doloroso para uma mente ausente é entrar numa brincadeira inventada por eles. Sem muitos adereços, brincar ao faz de conta com eles não permite que a nossa cabeça e coração estejam ausentes. Não os conseguimos enganar. Eles notam tudo, ó se notam! E o nosso filho sente-se a brincar sozinho. Não se sente visto naquele momento, e, com o tempo, vai preferir estar sozinho nas suas brincadeiras. Como se brincar sozinho fosse um sinal de bem-comportado ou de autonomia. Um pouco dos dois cenários, já agora!
Já sabem… estar física e mentalmente presente.
O outro ingrediente é o tempo. Mas ter tempo para os outros e, principalmente para os nossos filhos, não se resume ao tempo de que dispomos quando somos solicitados pelos nossos filhos. Esse é o tempo robot. Recebemos uma instrução e executamos, porque tentamos ser boas pessoas. Nã! Também é importante que exista e que eles sintam que estamos lá para eles sempre que precisam. Mas esta não pode ser a base da relação com eles. Se queremos que eles se sintam importantes na nossa vida, temos de usar outro tipo de tempo. Um tempo que se consome por dedicação, e que até acontece, muitas das vezes, na sua ausência.
Chegar a casa e dizer: “vamos andar de bicicleta”, porque já remendei o furo. Ou, convidar para ir “jogar futebol” porque saí de propósito mais cedo do trabalho para que esse tempo a dois pudesse acontecer. Os nossos filhos percebem muito bem o tempo que nós consumimos, nas suas ausências, e que permitiu que agora pudesse existir aquele momento de qualidade. Percebem, sem sombra de dúvida, que aquele tempo gasto é uma espécie de dedicatória de amor. E quem não gosta de as receber?
Qual a diferença entre uma prenda comprada e entregue e uma prenda comprada e embrulhada por nós, com um postal cheio de palavras bonitas? Tempo. A prenda que foi pensada e trabalhada para ser entregue com algum ritual carrega um tempo que é oferecido aos nossos filhos. E este tipo de tempo, apesar de não ter sido vivido a dois, transborda de amor. Tempo é amor. Sabermos que alguém perdeu tempo a pensar em nós, é amor. Perder tempo a fazer aquela sopa de que eles gostam, é amor. A sopa comprada no supermercado não tem esse amor. Gosto de o apelidar de “Tempo único“. Tem a nossa marca e eles sabem disso.
Já sabem… ter tempo de qualidade para eles.
O outro ingrediente que também me é muito caro é a energia. Não podemos pensar em termos da nossa disponibilidade sem pensarmos na existência ou não de energia. Termos desculpas constantes acerca do quanto eu queria ajudar-te, não fosse estar muito cansado, não nos compromete com a tal disponibilidade que andamos sempre a oferecer.
Temos de contar que os nossos filhos têm, tendencialmente, muito mais energia do que nós. Até porque muita da nossa energia vem de nos sentirmos bem. E os nossos filhos, por ausência de muitos dos nossos problemas, vivem num estado de alegria muito mais elevado do que nós. Se ao chegarmos a casa já estamos de rastos, que folga teremos para acompanhar um pedido de brincadeira? Nenhuma! E a nossa desculpa, invariavelmente, cai na já gasta frase: “estou muito cansado filho, brincamos amanhã”.
Todos sabemos que não vai acontecer. Que amanhã a nossa resposta vai ser a mesma. Porque cansado é o nosso estado natural, dia após dia. E se esse é o caso da maior parte de nós, então é urgente rever a nossa relação com o trabalho. Porque é essa relação com o trabalho que está a minar a relação com os nossos filhos. E se não estamos bem, mas insistimos em ficar, é porque já só lá estamos por dinheiro. E o dinheiro é igual neste ou naquele trabalho. Tratem imediatamente de um plano B. Demore o tempo que demorar, o plano B, por esta altura, já tem de estar em marcha.
Ou então adoramos o que fazemos, mas o trabalho é mesmo muito e ficamos de rastos. Negoceiem com o chefe para reequilibrar as coisas, contratar mais pessoas. Ou então é muito exigente face às nossas capacidades. Peçam formação adicional ou a compra daquela máquina que vos vais ajudar a despachar o trabalho dentro do horário normal. Ainda assim, em ambos os casos, e poderão existir mais nuances, é preciso colocar em cima da mesa a hipótese de mudar de trabalho caso a necessária e pedida mudança não aconteça.
Chegarmos a casa com energia é mesmo muito importante. De manhã, temos energia, mas não temos tempo. Tudo é feito a correr e é preciso irmos todos para os nossos sítios sem chegarmos atrasados. Ao fim do dia, temos de ter energia para que o fecho do dia aconteça da melhor maneira. Para que se façam algumas coisas com qualidade e relação humana. Que se pare para nos apreciarmos uns aos outros. Para nos conhecermos melhor.
Já sabem… ter energia de reserva.
Viver em família, num Lar, não é condição suficiente para que nos conheçamos bem a todos e para que a vida saiba bem. É preciso escolher estar em disponibilidade e com a qualidade que todos já desconfiamos que deva ter.
Sejam atentos.
