Duas palavras aparentemente simples: Encarar e descomplicar. Estas poderiam muito bem pertencer ao meu mantra. Mas é quando julgamos ter chegado ao Santo Graal do “Saber viver” que a vida nos acorda demasiadas vezes e das mais variadas formas. Bela e complexa… “uma dádiva”, dirão alguns, mas um desassossego completo para inquietação da maioria. E eu, é uma pena!, não escapo a esta pequena-grande maldição.
Viver a vida pede de nós o maior e mais complexo dos cursos superiores. Uma vida a estudar e a investigar para que nos possamos aproximar, ao de leve, da sua plenitude. Da sua essência. “Ignore-se… mais vale a feliz ignorância”, mais um douto conselho. Mas para mim essa nunca foi uma alternativa. Claro que vivo dias assim… Dias que me permitem “descansar” e nos quais me forço a convergir para as coisas simples da vida. Mas esta vida vivida e ávida de ser vivida, também traz outros seres vivos com o inferno nas suas mochilas.
Nunca me fez sentido recorrer a bálsamos para viver melhor. Viver em paz, como tantos de nós o desejam. Uma paz, que para muitos de nós, é igual à ausência de problemas. Tendo a não concordar. Entendo, que só me realizo vivendo intensamente esta vida que me foi oferecida e por isso a responsabilidade de a viver ao máximo do seu potencial. Esta é a minha fórmula. Quero saber “tudo a que tenho direito” e aceito, ao mesmo tempo, que do meu lado fica aquela dolorosa parte de aprender a lidar com a ansiedade de não conseguir uma ínfima parte disso tudo. Adoro o caminho enquanto o faço. Um caminho que me vai fazer chegar a “nenhures” e isso é fantástico.
Diz-se por aí, que o Poeta é um fingidor. Eu não concordo. Ele, quando muito, sabe que a vida é soberba e a sua capacidade para a entender, medíocre. Então inventa palavras e emoções sobre a vida, na vã esperança de se aproximar da sua essência. Pobre Poeta… nunca sabe se está perto o suficiente. A mim, bastar-me-á saber que desta forma, colorando as frases com todo o arsenal de efeitos especiais de que possuo, ficarei mais próximo. Assim… apenas mais próximo. Mas nunca entendendo onde estou.
Na verdade, fingir é pintar com camadas para deixar de ver como é. Fingir é viver ali ao lado, cada vez mais distante. É colocar outra realidade em cima da vida, em que tantas vezes acreditamos ainda mais, acabando numa perigosa confusão. Podemos continuar a reagir de forma verdadeira, é verdade, mas em cima de uma vida que não é a nossa. Na minha opinião, vai dar no mesmo: reagir sem sermos nós, ou fingir a realidade que nos envolve, produz a mesma distopia.
O melhor exemplo que encontro é o de uma criança num quarto escuro. Com a falta de ferramentas para lidar com a situação, pela tenra idade, e pela exacerbada capacidade de imaginação, fica aterrorizada pelo infortúnio de estar num quarto completamente escuro e à mercê das suas confabulações que, num episódio destes, tendem apenas para cenários de horror. Hoje tenho a certeza de que quem escreve livros ou guiões de terror, o faz num quarto escuro.
A ferramenta que a criança teria de usar era… acender a luz. E ao acender a luz todo aquele quarto revelava-se. E em 99% destes casos nenhum perigo estava escondido. A criança não corria risco algum. O quarto era perfeitamente normal, cheio de coisas banais, que todos os quartos possuem. Mas a sua convivência com essas coisas em plena escuridão e, a sua imaginação, levaram-na a viver um autêntico filme de terror.
Fingir, como dizem do Poeta, é não acender a luz. É manter as infinitas possibilidades do que a nossa imaginação quiser fazer de nós. E nós já sabemos para onde é que ela, na maioria das vezes quer ir,… para os lugares mais escuros. Para as dúvidas mais infundadas. Para o sofrimento mais descontrolado. Acender a luz, o quanto antes, é o mais belo sinal de maturidade. Faça-se luz no meu caminho é, talvez, o meu superpoder. Quando sei que se aproxima uma miragem, prefiro correr para a destruir ou confirmar. Tirar-lhe a força de ser uma miragem. Parar. Andar às voltas. Voltar para trás… é só e tão só, manter a miragem viva pelo nosso canto do olho.
E se a nossa vida, o nosso caminho, precisa dessa luz para decidirmos melhor o que fazer, imaginem o que pensar do nosso Lar. Um conglomerado de pessoas, todas com as suas miragens. Todas com os seus quartos escuros. Todas com os seus fingimentos a que também têm direito. No Lar, as dinâmicas familiares e os relacionamentos por elas produzidas são uma combinação infindável e incontrolável. Dada a sua complexidade não nos podemos cingir a papeis fixos, tão convenientes para a tal sobrevivência que avidamente procuramos. No Lar, vivermos de forma simples, tal como viemos ao mundo, é um luxo.
Temos de encarar as nossas fragilidades como seres humanos e parar de fingir que não estamos a perceber o que o nosso filho verdadeiramente precisa naquele momento. Não sou dado a exteriorizar as minhas emoções, mas o que o meu filho precisa é de colo e de perceber que o que ele está a sentir é perfeitamente natural e saudável. Não sou de dar colo, mas agora tenho de o dar. O fingimento não estará quando tento desempenhar um papel que me é desconfortável. O fingimento está, isso sim, quando olho para o lado fazendo por ignorar o que o outro que precisa de mim, sente. O fingimento está, claramente, quando não deixo entrar uma percepção sobre o que deverá ser o meu papel a cada instante, para quem me rodeia.
Eu percebo… é muito mais confortável, porque não me é natural, fingir que não estou a entender o que o meu filho precisa, naquele momento. E é por isso que é importante tentar treinar a nossa sensibilidade. Perguntarmos aos lá de casa, quando a situação assim o pedir, que estamos a sentir “isto” e que achamos que podemos ser úteis nesta ou naquela reação. Vamos confirmando se a nossa sensibilidade está a ficar assertiva, afinando-a a cada vez que tentamos. Ninguém nos quer uma semana depois da crise passar. A sensibilidade dá-nos o mote e a intensidade, mas também nos dá o timing.
Encarar o que nos vai acontecendo e o que vai acontecendo aos outros que nos são mais próximos e, no caso dos filhos, que são do nosso cuidado, é das atitudes mais básicas e potentes a que podemos deitar mão. Mas para as encarar sem fingimentos, sem criação de miragens, sem adiamentos que só complicam e nos tornam obsoletos na acção, temos de aceitar estar quase sempre fora da nossa zona de conforto. Mas é aí, nessa tentativa, que somos mais úteis. Não precisamos de ser todos médicos, mas perceber um pouco de primeiros socorros para ajudar um filho que se magoou, faz toda a diferença.
Depois de aceitarmos o nosso papel, às vezes natural, outras vezes nem por isso, podemos almejar descomplicar o que temos pela frente. Complicar, invariavelmente, é o resultado de estarmos a fingir que não percebemos nada do que se passa. Claro que existem muitos desafios severos. Que são mesmo muito complexos e que são mesmo muito difíceis de se lidar. E todos os lá de casa já os tiveram e vão voltar a ter. Mas até o que é complicado também é da nossa conta descomplicar. O que não convém mesmo nada é… fazer do simples uma complicação. Já nos bastará os desafios naturais da vida para nos mantermos bem ocupados. Não vale nada a pena fingir que temos o Poder da Criação e inventar pedras no nosso caminho.
Os nossos filhos vivem de uma forma “ali ao lado” em relação à nossa percepção adulta da realidade. E o que pode começar por ser algo complexo para eles, mas simples para nós, pode tornar-se em algo complexo para todos. Tudo porque fingimos que o nosso papel é fingirmo-nos de mortos. E que nada temos para dar para que um desafio não se transforme num Adamastor. Temos de aceitar que (naturalmente) sabemos lidar melhor com os desafios do que eles. Temos de activar o modo da intuição, que não é mais do que colocar a nossa experiência ao serviço da resposta que será mais adequada. Acreditar que a nossa intuição andará mesmo mais perto do que é preciso dizer a cada momento.
Descomplicar, muitas das vezes, é apenas desconstruir um emaranhado de assuntos, interligados, para que se entenda o que resolver primeiro. Acender a luz é, frequentemente, importantíssimo para que cada desafio se torne pequeno o suficiente para ser lidado, colocado no seu lugar, como um miúdo malcomportado, à espera da sua vez. Qualquer um de nós tem capacidade de resolver problemas. Temos é de encontrar a dimensão a partir da qual o conseguimos fazer.
Desligar os problemas uns dos outros. Dar-lhes autonomia. Dar-lhes independência. Colocá-los em “filinha indiana”, atribuindo-lhes senhas sequenciais de atendimento. Parece-me uma muito boa estratégia. Tudo junto, é areia a mais para a camioneta de qualquer um. Temos a natureza como inspiração e como prova de que nos deixamos enganar e de como, algo que não sendo passa a ser. O ar não é azul. Mas tantos kms de ar junto e mais uns efeitos, que agora não me apetece ir investigar, faz tornar-se nesta certeza de que o céu é azul. Até as nuvens, quando viajamos de avião, nos dão esta certeza de que nos podemos atirar ali para cima e usufruir do melhor colchão e das melhores vistas, a que ser humano algum alguma vez teve acesso.
Descomplicar não é cuspir na cara da Vida. Dizendo-lhe, de uma certa maneira, que “tu não vales nada. Que tens de fazer melhor do que isso para me derrubares”. Descomplicar é o caminho para usufruir melhor da vida. Da relação que temos no lar, com todos. Usufruir desses relacionamentos por já não serem algo que nos tira do sério e nos dá verdadeiras dores de cabeça. E até ver, ninguém gosta ou quer viver em constante pressão no corpo todo e a fugir dos acontecimentos.
Quando os dias parecem estar escuros demais para o teu gosto, acende a luz.
Sejam atentos.
