Penso que o que mais gostamos, como ser humano, é de controlar. Esta é a nossa “berma da estrada”. Não creio ser no sentido em que nos encontramos poderosos, mas porque gostamos da previsibilidade à nossa volta. Gostamos que o futuro não nos venha com muita variedade para cima de nós. Muita incerteza. Mas, ou não fossemos este animal complexo, também queremos a surpresa para que a vida nos saiba melhor.
Mas, no fim do dia, e até que as forças se nos acabem, lutamos para que essa parte desconhecida da nossa vida, se fique por uma mísera percentagem da nossa existência.
Não saber, ou, não controlar, traz-nos ansiedade. A uns mais do que a outros, mas é humano querermos controlar uma boa parte do que a vida nos reserva. Desejamos tudo o que podemos e se a vida nos vier a atender a todos estes desejos, vamos acabar insatisfeitos. E viver, aquilo para que nascemos, perde uma boa parte da sua graça. É o que eu sempre digo: “Cuidado com o que desejamos, não se vá dar o caso de o obtermos.” É exatamente aqui que reside o encanto da vida. O de podermos ter mais coisas do que a nossa “pequenez” alguma vez conseguirá imaginar e desejar. A vida consegue sempre ser mais diversa e divertida do que a nossa imaginação. A vida, apesar da milenar experiência desta humanidade, consegue sempre nos surpreender.
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Uma das coisas em que devemos trabalhar de vez em quando, é este estado de não desejarmos estar em completo controlo de tudo. Evitarmos querer controlar algo que nunca irá ficar controlado. E aqui, mantém-se uma das verdades de que mais gosto: “É o caminho que interessa.” Neste caso, o caminho para o controlo da vida (que nunca irá acontecer) só vos vai banhar de ansiedade. Não será mais inteligente da nossa parte, metermo-nos com alguém do nosso tamanho… nós mesmos. Isso sim, é gerível, apesar de igualmente complexo. E entre duas coisas complexas, não será mais plausível escolher o desafio possível e cujo caminho nos dê mais prazer?…
Queremos controlar o que está fora de nós. Os outros, a sociedade, o que os outros pensam sobre nós, o que serão as reações dos outros às nossas acções, entre tantas outras coias. Mas desconfiamos, por verificação própria, que isso nunca irá acontecer. Mas não desistimos, mesmo quando temos ali ao lado um caminho mais seguro para que a vida se nos apresente como uma coisa que enfrentamos com alegria e apreciação. Que tal tratarmos da única coisa que conseguimos mudar!
Que tal mudar quem sou? Que tal mudar essa parte, apesar de sempre difícil e por vezes dolorosa, que eu sei ser possível de fazer. E deixar de me enganar, em relação a uma aventura de sucesso duvidoso e sobre o qual não conheço quem tenha reclamado vitória? Este outro, o do Eu, é um caminho longo, mas que dará frutos e que vai impactar a minha vida para melhor. Mudar a minha leitura do que estou a ver, torna a própria vida diferente.
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Quando estou prestes a ter uma conversa difícil com alguém, é normal que a ansiedade me assalte, e às vezes de forma até descontrolada. A maneira que tenho para lidar com isso é perguntar-me se gosto daquela pessoa ou, se essa pessoa me é indiferente (sem ser desrespeitoso). No caso de gostar dessa pessoa, enquadro a conversa na ligação que tenho com ela e de como gosto dela e de como quero o seu melhor. Despois de estabelecer os limites emocionais, fico com a certeza de que vou ser capaz de entregar tudo aquilo que quero dizer e do quanto, o seu bem-estar é importante para mim, depois desta conversa.
No caso em que a pessoa me é indiferente, não me agarro ao relacionamento, mas agarro-me áquilo que sou como pessoa. Aos meus valores, de respeito pelo outro e à elegância com que tento colocar em todas as interações que tenho com todas as pessoas. Coloco o enfoque no que quero dizer e na forma educada como o quero fazer. Mesmo admitindo que pode correr menos bem, não ganho a tal ansiedade por saber que estarei a ser autêntico e que o que tenho para dizer a essa pessoa precisa mesmo de ser dito, sob pena de ser algo que até se pode virar contra mim.
Agora façam este exercício. Troquem essa pessoa pela vossa vida que está para chegar. Ou seja, o tão temido futuro. Apliquem a mesma fórmula: Se gostam de viver a vida, quer isso dizer que o que virá aí será, na sua maior parte, prazeroso. Se gostam de estar vivos é porque compensa. É porque tem mais coisas boas do que más. Concentrem-se na relação de amantes que têm com a vida. Foquem-se na conversa que precisam de ter com o vosso Eu no futuro. E digam-lhe que vai correr tudo bem como tem corrido até agora. Muitas das vezes, e com a perigosa liberdade que temos de cometer o suicídio, dizemos que não gostamos da vida apenas e tão só, porque ela não aconteceu como queríamos. E “amarramos o burrinho”.
Se não gostamos da vida que ainda está para vir, que é a segunda hipótese, porque até agora tudo é pior do que melhor, e antes de se magoarem com intenção, concentrem-se em vocês. Nos vossos alicerces e, principalmente façam esta pergunta: Quanto do que me aconteceu teve lá o meu dedinho? Quanto do que me aconteceu, que não gostei mesmo nada, não foi da minha responsabilidade. E voltamos ao tema de mudar o que pode ser mudado. Refundar os nossos valores. Refundar as nossas rotinas e rituais, pode ajudar. É que, como eu disse, este desafio não é “pera doce”. E o facto de ancorarmos o que queremos fazer a algumas muletas não diminui rigorosamente em nada o nosso mérito.
Mudar de cidade, por exemplo, e ter a força de refundar os nossos valores. Ir para um lugar onde nos valorizam mais. Não é mudar aquilo que somos, mas também conta. Escrever o que não tem resultado na interação com os outros. Pedir ajuda à psicanálise, aos livros, até às conversas com alguns estranhos a que possamos “deitar a mão”.
O que eu sei é que, a mesma fórmula aplicada aos mesmos ingredientes trará o mesmo resultado. Os ingredientes somos nós. Teremos de saber lidar melhor com esta carcaça. Mas as fórmulas são múltiplas e podemos lhes mexer. E nesse reformular é que vemos a vida a nos acontecer diferente. E se estamos com a ideia de que a vida está a saber mal, então, quando ela acontece diferente, já é uma coisa boa. Mas temos de nos olhar verdadeiramente ao espelho para que, sem nada escondido, operar as mudanças de que precisamos. Uma de cada vez, nada de muito avassalador, mas em cada passo, um passo firme e decidido.
Mas o que eu quero dizer com isto?
Que a vida desenhada, apesar de todos o fazermos, não tem piada nenhuma quando queremos à força acreditar mais no desenho do que na própria vida real que nos está a acontecer. E o Lar, é um dos exemplos mais sintomáticos disso mesmo. Sonhamos e romanceamos a vida com um outro ser. Romanceamos em relação aos filhos que vamos ter com essa pessoa escolhida por nós. Romanceamos com a dinâmica que o nosso lar vai ter NAQUELA casa específica com que sonhámos. E esquecemo-nos que o mais importante é aceitar a diversidade que, com toda a certeza, a vida nos vai brindar.
… e a tudo o que me acontece de menos bom, eu dou uns dias de luto. Não reajo logo, porque preciso do luto para voltar a ser eu. Voltar a ser aquele que agora vai reagir perante o que aconteceu. E findo o luto, orquestro uma resposta à luz de todos os meus valores e volto a perguntar se alguma parte do que me aconteceu foi da minha responsabilidade. Nesse caso, é hora de aprender mais um pouco… Até porque, a probabilidade de coisas parecidas nos voltarem a acontecer é enorme.
Aprender com as nossas distrações é fundamental para: um, aceitar que é normal errar; dois não sermos duros de mais quando voltar a acontecer. Não nos podemos deixar de amar só porque somos (mesmo) pequenos perante a complexidade da vida. Não aprendemos à primeira, aprendemos à segunda, ou num outro número qualquer.
O meu maior poder… é que desejo mesmo fazer melhor a cada dia que passa e que os tropeções fazem parte da vida e não de um qualquer desenho que fiz a pensar nela.
O caminho para nos mantermos jovens em relação à vida, talvez seja mesmo aquele que se trilhe com eterna jovialidade. Estarmos sempre a sentir, a cada dia, a vida a iniciar-se. A vida a renovar-se. Aquele olhar de eternos aprendizes. Este é um olhar reconhecível por todos em qualquer parte do mundo, em qualquer fase da vida e em qualquer geração que já alguma vez habitou este planeta. Talvez seja esta a definição das pessoas que, ao nosso olhar de espanto, são eternamente jovens.
Gosto de ser um garimpeiro das coisas simples e poderosas. Fascina-me o poder transformador de uma frase fácil, curta, direta, mas profunda. Aquelas frases que nos tocam de uma maneira muito própria e avassaladora. Frases que nos salvam no exato momento em que precisamos de ser salvos.
Tenho para mim que a vida é enorme, complexa e muito acima das minhas possibilidades e capacidades. Mas também nasci com a marca daqueles que acham que tudo é possível. Adoro o provérbio: “Um elefante come-se às dentadinhas“, que uma amiga minha costuma dizer amiúde. E é por isso que gosto de pensar que a vida está toda contida em cada dia que passa. Que se renova a cada sono que faço. Que sou outro em cada acordar… um novo ser que parte para a vida.
Sejam atentos.
