Tenho para mim, como uma das poucas verdades absolutas, que nos influenciamos uns aos outros de forma permanente e das mais variadas formas incríveis. Existe uma frase com a qual tenho vindo a conviver cada vez melhor: “Somos aquilo que comemos”, frase atribuída ao médico grego Hipócrates. Eu tomo a liberdade de me apropriar da sua ideia fundamental e escrever: Somos paisagem uns dos outros. Nessa linha de pensarmos: se a boa alimentação dita bem-estar, as boas paisagens a que estaremos submetidos ditará também o nosso bem-estar e bom crescimento.
Paisagens que se comprometem umas com as outras. Que se influenciam mutuamente, num crescimento de “mão dada”, cujos limites de influência recíproca deixam de se poder rastrear a montante. Sabemos que nunca mais seremos os mesmos depois de estarmos com aquela pessoa ou grupo de pessoas. Mas não conseguimos muito bem determinar que parte é que nos deixaram e que parte de nós ficou. Um território de uma certa ausência da ciência para nos ajudar. A ciência exige provas, e nós só temos a confiança de que assim é, mesmo sem recorrermos à fé religiosa. Simplesmente sentimos que assim é, e acreditamos.
Muito do que somos forma-se e embeleza-se por osmose com as várias vidas em que tocamos. Com toda a certeza um fenómeno físico, porque envolve todos os nossos sentidos. Mas não se pense que à distância o mesmo processo se dá com igual força e vigor! Usamos e idolatramos cada vez mais estes meios tecnológicos, mas não nos enganemos quanto à pouca profundidade a que vão. É que, num ambiente tecnológico e distante fisicamente, nem todos os nossos sentidos participam e os que participam não o fazem de forma tão visceral.
E sem a presença física, que acrescenta qualidade, a influência da paisagem de que vos falei atrás, ficará muito aquém daquilo que achamos que poderá estar a acontecer. Cometemos este erro de percepção, porque foi assim que nos aconteceu a nós, aos nossos pais e aos nossos avós. Vivíamos em proximidade. Hoje, somos peritos nas desculpas interiores e mestres para encontrar “sucedâneos” de apoio às nossas mais incómodas decisões. Para uma tomada de decisão, cujo resultado nos interessa levar numa determinada direção, damos as nossas melhores razões, e até fundamentamos “cientificamente”, para que tudo pareça equivalente.
Somos um país de emigrantes, e por isso mesmo Mestres nesta arte de tornar todas as realidades, todas as nossas escolhas, equivalentes. Justificamos, por todos os meios, a necessidade de irmos escondendo de nós próprios as consequências para quem nos é próximo e que fica privado da nossa presença. E é precisa muita coragem para olharmos verdadeiramente para as diferenças, para as suas consequências e, no fim, aceitarmos ou não o resultado. Mas, acima de tudo, se este resultado estimado adere ou não aos nossos valores e princípios.
Filhos que vão trabalhar para longe ignorando que é lá, se tudo correr como planeado, que vão ter os seus filhos. Se tudo correr de feição, vão acontecer vidas de netos e de avós separadas pela distância. A convivência não vai existir. Os abraços não se vão multiplicar e as paisagens não se vão influenciar mutuamente. Isto é um facto. É exatamente assim que vai acontecer. E nós, do alto da nossa sabedoria começamos com os sucedâneos: “estaremos longe, mas com as chamadas de vídeo diárias, saberá ao mesmo”.
Não e não, mil vezes não. Ninguém morre, é um facto, mas não é a mesma coisa. E as perguntas que aleijam são estas: “E queremos que os nossos filhos cresçam longe dos seus avós? Indo procurar melhor vida (monetária) em que estado ficará o barómetro de melhoria daquela vida que verdadeiramente interessa, a do crescimento saudável e em bem-estar?”
Mais dinheiro, já todos o sabemos, nem sempre corresponde a uma inevitável vida melhor. Na esmagadora maioria dos casos ao facto de ganharmos mais corresponderá a gastarmos mais. O valor da poupança de longo prazo, no fim do dia, mantém-se igual. Poupamos pouco. E lá se vai aquela romântica ideia de emigrar 5 anos e depois voltar à pátria, e usar desse empurrãozinho para que a vida desafogue e fiquemos com mais tempo para os nossos filhos e para a vida em família.
Também se aplica quando mudamos de emprego. Vamos ganhar mais. Vamos trabalhar mais. Vamos estar mais intensos e agastados. Vamos perder exatamente na bolsa de horas de qualidade. E quando chegamos a casa, estamos lá, mas sem energia para mais nada. Não nos enganemos em relação aos custos de termos mais bens materiais ou imateriais. Viajar tem uma boa desculpa: abre horizontes. Mas a que custo trabalhamos mais para ter dinheiro para viajar. Estaremos a trocar 11 meses de não presença por um mês de viagens para países que vão abrir horizontes aos nossos filhos?!
Não me interessa julgar no sentido em que os pensamentos de cada leitor estejam já a esvoaçar, mas quero tão só iluminar caminhos. Esclarecer que em tudo na vida temos um custo associado. E é preciso enfrentá-lo sob pena de ficarmos mais tarde doentes na surpresa das consequências não acauteladas. Não previstas.
Nem sempre será possível, mas ganhamos todos, quando os nossos filhos podem crescer com a presença frequente dos avós. E mais engraçado de se pensar, estaremos já a trabalhar para que os nossos futuros netos estejam também a ficar “condicionados” por esta maravilhosa forma de gostar de crescer: Aquela que recorre a toda a gente à volta. “Que o amor nos salve”, diz o poeta.
A relação que avós e netos desenvolvem não se compara a nenhuma outra. E é por isso que considero que a ausência tem sempre consequências. Esta relação de intimidades secretas, de confidências sem fim e de códigos de comunicação que ultrapassam e fintam o entendimento de quem quer que assista, são colo para os pequenos grandes carácteres em formação.
Vamos, como pais, cometer erros na educação dos nossos filhos. Vamos ter de, ainda que a doer horrores, puxar-lhes as orelhas até pararem de lhes doer também, por entorpecimento. Vamos sentir afastamentos aqui e ali, mais ou menos preocupantes. E nesses retiros que os nossos filhos fazem para entenderem o que sentem e o que lhes está a acontecer, rezamos para que sejam bem acompanhados por um dos avós ou por um amigo real e decente. É que em alternativa, arriscamos que esse vazio seja preenchido pelas redes sociais, onde “os outros são sempre melhores que os nossos filhos” e têm vidas infinitamente mais perfeitas.
Sem os avós por perto, mais difícil se torna que esses seus retiros (no caso dos adultos, os retiros é onde nos reencontramos) não culminem na construção de mundos à parte e muito desfasados da realidade da vida dita normal, e que ditem reações muito adversas, culminando em vivências do Lar muito difíceis de gerir.
Quando olhamos para o Lar como a centralidade das suas vidas (e já agora das nossas), entendemos que todos devem ser chamados a participar. Mesmo que não concordemos totalmente com a forma como os avós educam os nossos filhos, devemos deixar a porta aberta para a sua participação activa. Todos os seres, mesmo de palmo e meio, sabem retirar dos adultos que os rodeiam aquilo que mais lhe interessa. Aquilo que mais admiram.
Tome-se um casal por exemplo. Era muito estranho que pai e mãe fossem iguais. Que pensassem da mesma maneira. Que tomassem as mesmas decisões em iguais circunstâncias. Isso sim seria esquisito! Uma espécie de cooperativa de educação, fundada e gerida por duas pessoas, os pais, em que as decisões sobre a educação e a reação diária “às provocações” da vida, fossem tomadas sempre por unanimidade. O que é natural e enriquecedor, é que cada pessoa que educa naquele Lar, o possa fazer com o seu cunho. Para que os filhos usufruam dessa diversidade de pensamentos e formas de estar.
Não concordo por nada, com o “alisamento” da educação. Masculino e feminino dão coisas diferentes aos filhos, e isto desde uma imemorável ancestralidade biológica. Claro que em relação às decisões mais importantes e que possam impactar MUITO nas suas vidas, deverá discutir-se antes e estar com uma posição concertada. Eles também são mestres em esgueirar-se para perto do progenitor que mais próximo estará de lhes dizer “sim”.
Estar por perto já é participar. Ser refúgio já é educar.
Bem-hajam os avós que insistem e não desistem. Afinal, ali estão uns seres cujo parentesco do coração é para a vida. Serão sempre avós e netos, aconteça o que acontecer.
Sejam atentos.
