A palavra tolerância em latim, está muito próxima da ideia de suportar algo contrário ao nosso ser, ou com o qual não estamos confortáveis. E que em termos sociais actuais, significará aceitar conviver com os outros (e com as suas opiniões), ainda que diferentes das nossas. Criar um espaço de segurança entre as pessoas, uma espécie de “terra de ninguém” onde, lá está, ninguém manda e por isso, espera-se ser um lugar de segurança para todos e onde todos possam expressar aquilo que são.
Gosto de ir para este sítio especial que é o de pensar que as pessoas tolerantes tentam de facto entender os outros, dando espaço às suas opiniões, mas tendo esta certeza de que não precisam de concordar com os outros para serem aceites. A tolerância reclama para si o destronar do provérbio «quem cala consente». Para se ser de facto tolerante, temos mesmo de nos calar para que nos seja possível escutar. Ser tolerante sem parar para ouvir é um exercício teórico. Uma dança coreografada de palavras vãs, que, temo, nada têm de consequente. Ser tolerante é um gesto de postura. Uma postura de elegância.
As pessoas verdadeiramente tolerantes procuram esmiuçar até ao ínfimo pormenor o que é dito de diferente em relação ao que pensam, mas sem que essa informação seja usada contra o outro, em forma de julgamento. Qual gato selvagem à espera da sua presa. A pessoa tolerante, arrisco dizer, tem uma certa adição à retórica e ao discurso argumentativo, encontrando prazer nesse “confronto”. Outra das características que encontro nas pessoas tolerantes, é o de terem o dom de controlar as suas emoções, sendo pragmáticas ao ponto de conseguirem salientar os pontos positivos e os negativos, sem sair de uma posição de profundo respeito por si e pelo outro.
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A tolerância, mesmo não sendo uma emoção ou um sentimento, torna-se um acelerador por excelência, da vivência das emoções e dos sentimentos. Ou seja, a amizade que tenho por outra pessoa, torna-se mais forte, mais prazerosa e engrandecedora, se for com o alto patrocínio da tolerância. O ser humano tem esta capacidade incrível de sentir todas estas emoções e sentimentos. Mas a intensidade com que as vivemos, que tantas vezes nos define, leva inevitavelmente à polarização de posições. O que poderia ser um prazer vira um inferno. E antes que se opte pelo afastamento entre os pares, o conselho da tolerância parece ser «o de aceitar ainda que…». O de esperar para ver e aproveitar para mexer com as “nossas verdades”.
Como fazê-lo? E como será possível nos casos em que me sinto magoado ou desconfortável?
Todos nós queremos que predominem, no nosso quotidiano, as boas emoções e sentimentos e não, por oposição, as outras que nos agastam. Que nos desconfortam. Desejamos que assim seja, mas sabemos que por poucas vezes irá ser assim. Ora a tolerância pode dar aqui uma grande ajuda, no sentido em que se aproxima de uma ferramenta de sobrevivência em sociedade, em comunidade, em família, para que a vida se torne mais prazerosa. Sem uma aposta na utilização desta ferramenta, comprometemos essa vontade.
A tolerância é a terra por arar. Um campo inerte à espera de todas as possibilidades. A tolerância e a fé/crença desempenham a mesma função nas nossas vidas. Costuma-se cometer este equívoco no seio das religiões. Separamos as pessoas entre crentes e não crentes. Quando crer ou acreditar não é sinal de fé religiosa. Acreditar é uma capacidade humana. É um verbo que significa confiar ou ficar convencido sobre qualquer coisa. A religião não está presente nesta simples manifestação ou movimento de acreditar em algo. Para estarmos a falar de religião temos de conjugar um bocadinho mais este verbo. “Eu acredito em Deus”. Acrescentámos uma pessoa e um objecto de crença.
Gosto mais de definir a crença como o espaço entre duas coisas ou duas pessoas. “Eu acredito no meu pai”. Neste caso, duas coisas importantes sabemos: é que existe uma relação entre estas duas pessoas; e que uma delas acredita/confia na outra, sem que haja necessidade de reciprocidade ou que aquela que acredita precise de provas ou certezas acerca da afirmação que acabou de proferir.
O mesmo sucede com a tolerância. A tolerância é o espaço que está entre duas pessoas que pode ser usado para duas pessoas se entenderem. Não tem nada de religioso e não tem nada de sobrenatural ou até mesmo de espiritual. Ser tolerante é um comportamento que o ser humano pode usar para entender os outros ou a si mesmo. Com a proliferação de conteúdos focados no desenvolvimento pessoal, gosto muito de pensar que o facto de conseguirmos ser tolerantes connosco próprios é um enorme feito deste verbo que é tolerar.
Somos, quase todos, muito mais exigentes connosco do que com os outros. Tudo aquilo que nos passa pela cabeça e que se materializa em frases como: «não sou bom o suficiente»; «deveria ter-lhe dito isto»; «será que vai gostar de mim»; «a culpa é minha!», são tudo interiorizações que têm muito pouco de auto tolerância. Ora, se a tolerância é um veículo, deverei em primeiro lugar ser tolerante entre mim e mim, que parecendo a mesma pessoa, não o é. Todos sabemos, através do trabalho de muitos investigadores, que vivemos constantemente na (pelo menos) dualidade. Consciente/subconsciente, emoção/razão, mente/coração, de entre outas muitas dualidades.
O exercício da tolerância deverá mesmo começar em nós. Se não formos tolerantes com a nossa forma de errar, afinando a cada erro, aceitando que isso faz parte do caminho para coisas maiores. Não sendo tão tirano connosco, conseguiremos, quem sabe, não aplicar essa mesma tirania nos outros. A tolerância connosco pode e deve ser usada, ainda que com vigilância da posologia. O que, em algumas circunstâncias, deverá ter doses curtas de tolerância, até para nossa sobrevivência, noutros casos, podemos usar e abusar da referida dose, para que possamos ter tempo de compreender a fundo o que se passa connosco sem nos violentarmos ao ponto de ficarmos paralisados.
Mantendo que a tolerância é o espaço criado entre duas pessoas, que, como tudo, pode ser escasso ou abundante, medeia, quase sempre, esta intenção de colocar um ponto final nas discussões, selando com um resultado entre ter razão ou não ter razão. Esse é, talvez, um mau uso da tolerância. Gosto muito de partir de dois princípios muito fortes: Um, o de que será suficiente para mim ouvir e ser ouvido, tirando crescimento pessoal do processo, e outro, o de partir do princípio de que o outro está a fazer o seu melhor. Que o outro está, dentro de tudo o que é e sabe ser, a utilizar a sua melhor versão e a fazer o seu melhor.
É que todos partimos, até prova em contrário, de opiniões. E se os dois lados partem da premissa que terá de haver um vencedor, isso traz uma pressão enorme à tolerância. Essa “razão” que todos gostamos de ter face aos outros “derrotados” alimenta-nos o ego. Mas não é o ego que nos faz crescer como pessoas. É a forma como aceitamos estar com os outros, sem a ganância da razão é que nos permite essa elevação.
Sem tolerância e acidando a posição de cada um, chegamos rapidamente à “mais recente fórmula matemática”: a uma opinião corresponde uma razão. É, chegados a este ponto, que assistimos à perigosa e tão actual privatização da razão. E aqui a razão já aparece como aquilo que poderá estar mais perto de estar certo. A universalidade do conhecimento. Passamos a ter, o que eu acho o limiar do abismo entre as pessoas, as múltiplas verdades, as múltiplas razões. O caminho oposto da tentativa de chegar a consensos. É preciso usar e abusar da tolerância para chegar aos quase sempre impossíveis consensos. Mas é nessa tentativa que nos regozijamos em crescimento.
E é aqui que detecto um enorme erro de percepção do Homem. A liberdade total individual de expressarmos a nossa opinião não contém, em si, a assunção de que a nossa opinião, por ser nossa e corresponder ao exercício desse direito, é, por declaração unidirecional, verdade. Que a minha opinião vira lei. A minha lei. E neste reino que é o Meu Eu, o planeta de uma só pessoa onde eu vivo, a minha opinião é soberana. E em vez de todos procurarmos a universalidade das verdades (que só por si só, já é difícil) com a contribuição de todos, entrámos numa era em que a minha opinião, por ser a minha verdade defendida com toda a certeza, afasta-nos a todos dessa possibilidade de consensos. Da possibilidade de participação na construção de uma humanidade em torno de ideias sãs, que servem a todos. Uma humanidade mais unida, mas principalmente, mais genuinamente interessada na sua vida pessoal com um enquadramento humano e na humanidade.
Mas por que isto é perigoso?! É que agora, que a razão se encontra privatizada, a opinião de quem nunca pensou no assunto pesa tanto, ou até mais, do que aquela ventilada por especialistas. Pessoas que viveram uma vida de estudo sobre este ou aquele assunto, são agora acusadas de servirem interesses ocultos, numa vivência hollywoodesca das teorias da conspiração. Nivelarmos estas duas exteriorizações, fruto deste mundo híper individualizado e micro empoderado, resulta numa perigosa expansão dessa terra de ninguém de que falava. É que nessa terra de ninguém, quando a aposta é a tolerância, é bom. Quando é uma zona de guerra sem regras, é um outro mundo completamente diferente, perigoso e oposto.
Isto mesmo acontece nas redes sociais. O mais recente caso de uma Terra de Ninguém. Essa possibilidade que todos temos de publicar vídeos no Youtube não vem com a autorização para se publicar tudo o que se queira, mesmo sendo uma aberração. Mas onde andará o limite? O que é adequado ou não? Não sei… mas a educação para a cidadania, quem nos nossos lares quer complementando nas escolas, tem de, aos poucos, preocupar-se com esta convergência para o que é são. Eu costumo criar uma certa pessoa à minha frente a consumir o que estou a dizer: É um ser humano, ingénuo, meu filho, e que amo muito. Este ser, que é o futuro desta humanidade, vai acreditar em tudo o que eu lhe disser. Este é o meu enquadramento para refletir antes de escrever ou dizer o que me vai na cabeça. A educação do outro é da responsabilidade de todos.
Estar abertos ao que os outros nos trazem é, por simplicidade, a definição de tolerância. Discutir acesamente com o alto patrocínio da tolerância é um dos melhores cenários de expiarmos a nossa ignorância.
Eu acrescento que a tolerância é a folga que eu crio para que as ideias e comportamentos dos outros, quase sempre diferentes, possam verdadeiramente mostrar-se na essência em que existem. Somos eternos aprendizes se e só se cumprirmos com esta atitude. Quando Socrates disse, «só sei que nada sei», está a usar deste limpar-de-tampo-de-mesa, criando o único terreno fértil para a partilha do conhecimento e da sabedoria.
A tolerância representa na oratória o lugar das bibliotecas. Quando vamos a estes lugares, sabemos que o que procuramos são as opiniões de outros em forma de livros. Ninguém, no seu perfeito juízo, vai a uma biblioteca, pede um livro e depois desata aos gritos a contestar tudo o que lá está escrito. Em princípio, ainda vamos a esses lugares para ler, com calma, perceber o que o escritor quis dizer, discordar o que houver para discordar e integrar o que houver para integrar. Pois é isso que nos muda. Porque é isso que procuramos quando entramos numa biblioteca: Queremos sair de lá diferentes. Para ficarmos na mesma, o que ainda assim constitui um risco, «há livros para tudo!» não nos daremos ao trabalho. Já alguém o disse, «pior do que não ler livros, é ler maus livros».
Ou seja, andamos distraidamente a…
viver em sociedade, de que tanto necessitamos;
promover encontros com outras pessoas, de que tanto gostamos;
constituir família, de que tanto sentimos o chamamento.
para depois desconsiderar essas mesmas pessoas, nas suas opiniões e nas suas formas de viver. A isto eu chamo de um exercício de profundo suicídio social.
A tolerância também é vítima do tão “proliferante” politicamente correcto. Quando se manifesta? Bem, um exemplo é quando alguém calado, em posição de ouvir, não estando a ouvir coisa nenhuma, prepara, isso sim, o contragolpe da resposta.
Tolerar é uma capacidade humana poderosíssima, que resolve, aliada do tempo, grande parte dos nossos actuais flagelos.
Aproveite e… tolere-se.
Sejam atentos.
