Gosto muito de tentar perceber de onde venho. Não é que me preocupe a possibilidade de não ser filho do meu pai ou da minha mãe. Ou que tenha sido adotado ou até mesmo, que seja proveniente de um outro planeta. Não, nada disso. Não vivo qualquer ansiedade em relação a essas possíveis perguntas. Mas a inquietação de querer sempre saber mais inquieta-me.
Também tenho a perfeita noção de que já fui profundamente biológico. Bio mecanicista, com um olhar que investia demasiado tempo nas alterações corporais, em estar atento ao que sentia fisicamente, ou até, preocupado a questionar o meu género de liderança em relação ao corpo. Também perdia alguma energia a definir algumas estratégias e algumas tácticas em relação ao futuro do meu corpo.
Mais tarde, descobri que essa excessiva presença do meu corpo, na minha vida, era uma planeada distração desenhada por alguém, sabe Deus quem! E tornou-se óbvio que andava a adiar as respostas àquela sempre presente pergunta sobre a origem de determinadas facetas da minha personalidade. Por que razão um ou outro valor era tão importante para mim. Por que razão este ou aquele princípio não eram negociáveis. De onde vinham alguns traços tão vincados e que eram bem visíveis aos que me rodeavam?
Frequentemente sentia-me elogiado ou criticado sobre coisas que pareciam não ser minhas. Ou, que, no melhor dos cenários, nunca sabia como é que foram cá parar. E, talvez por isso, não conseguia aceitar as críticas ou os elogios, por achar que não eram meus, que não tinha feito nada para os possuir… uma versão clara de: “inocente!” Ou então, e esta sempre me trouxe muitos problemas, a pessoa que me dirigia tais comentários estava a ver mal. Não me conhecia de todo. A deselegância da distração para comigo e isso, não deixava de ser uma ferida: “não estava a ser visto”. E quem é que não quer ser visto e bem visto por aqueles com que se cruza?
O fascínio mantém-se, cada vez maior, em questionar-me sobre o papel da nossa ancestralidade na vida presente. Sim, só esta vida é que conta. Se nos vamos preocupar com a influência do nosso passado no nosso futuro, o nosso presente fica órfão de atenção e cuidados e isso, pode jogar-nos para um sentimento de desnorte. A existência de vida na Terra concede a forte prova de que é no presente que tudo acontece. No passado e no futuro, ainda não se descobriu, que eu saiba, sinais de vida.
Sendo isto verdade, como explicar a presença da ancestralidade em nós?! Sabemos que dentro de 100 anos, todos os seres humanos adultos, que na altura habitarão o Planeta serão outros. Nem um dos que hoje respiram. Nenhum de nós estará lá, num desses momentos em que mais uma vez a humanidade irá fazer a contagem. Provavelmente seremos o dobro dos oito biliões que agora contamos. Mas se nos renovamos vezes sem conta, como é possível os mortos influenciarem-nos?! Será isso a prova de haver vida depois da morte? E se nos influenciam, como parece ser o caso, quem é que está mais vivo… os que respiram ou os que já não respiram, mas influenciam as nossas vidas?
A explicação parece não ser tão assustadora ou a precisar de muita crença ou fé, e, isso sim, baseada mais na ciência. Quando vivemos no seio da nossa família nuclear, no nosso lar, crescemos com a influência das várias paisagens humanas que nos rodeiam. E o lar é, com grande distância das restantes, a paisagem que mais impacto tem em nós e no desenho daquilo que vamos sendo a caminho da idade adulta. Depois, saímos e fundamos com outra pessoa ou não, o nosso próprio lar – é o momento “agora é a minha vez”.
Depois temos os nossos filhos e eles crescem e fundam o seu próprio lar. Chegou o momento deles. E por aí fora. Num entrelaçado de interações humanas espaçotemporais que explicam o intercâmbio de conhecimento e legado entre seres humanos. Todos, mas todos, deixamos nos outros e levamos dos outros. Somos mesmo paisagem uns dos outros. E essa vida que partilhamos, no decorrer dessa mesma janela temporal, é que nos permite, de forma inexorável, deixar a nossa pegada de influência.
Quem escreve e investiga sobre estes temas, afirma claramente de que existe uma influência de cinco gerações ou até mais. Ou seja, eu sou, numa parte considerável, influenciado por aquilo que os meus antepassados foram. Em geral, terei muito mais dos meus pais do que dos meus avós e assim sucessivamente. Em algumas características específicas, até porque passaram sempre de geração em geração, parece que somos uma repetição dos nossos tetravós. Sem tirar nem pôr, assim se conta na família.
E este contágio geracional, que pode ser pela positiva ou pela negativa, é a indiscutível prova de influência dos nossos antepassados familiares em nós. Mas cuidado! O primeiro e urgente passo é sabermos lidar com essa herança e não aceitarmos apenas aquilo de que nos orgulhamos. Porque quando essa ancestralidade nos brinda com algo apontado como menos positivo, descartamos as culpas para os mortos, ou até, para os nossos pais e avós ainda vivos. E isso é iniciar o caminho da ferida. De vivermos em negação. De o somatizarmos no corpo.
Não me querendo alongar muito nesta fase, mas culpar, nunca será um caminho positivo e facilitador do crescimento do nosso bem-estar, ou, mais simplesmente, de alteração e erradicação dessa forma de estar. Assumirmos que esta ou aquela característica foi-nos plantada e que agora, é a nós que nos cabe mudar. Vejamos… somos os mais fortes e mais aptos a aceitar este desafio. Provavelmente os nossos pais já estão velhotes e os nossos filhos ainda não terão todas as ferramentas para o conseguir fazer. É preciso arregaçar as mangas. Querer seguir em frente. Querer fazer melhor. Para então iniciar a jornada de perceber o que não queremos em nós para podermos deixar para trás o que já não nos serve.
Ok, já sabemos que temos de aceitar, que não herdamos apenas dinheiro, bens ou memórias. Herdamos também educação. E não estou a falar daquela mais formal e que devemos também agradecer a oportunidade e investimento que os nossos pais fizeram em nós. Estou mais a falar da educação informal. Aquela a que estamos expostos a maior parte do tempo, em ambiente familiar. E essa, meus amigos, entra em nós sem bater à porta. Consumimo-la a toda a hora sem que tenhamos disso consciência. Afinal, os nossos pais são os nossos primeiros influencers!
A minha geração, por exemplo, é filha de uma geração que fez pouca terapia ou desenvolvimento pessoal. Teremos em nós, por sinal, muito mais pormenores que demonstram a presença dessa pegada geracional. E quando não estamos despertos para detetar aquilo que nos anda a atrasar para nos tornarmos melhores versões de nós próprios, então o “caldo está mesmo entornado”. Agora pensem: A educação e a convivência no nosso lar já são tão desafiantes, como é que ainda temos de contar com o que trazemos, via antepassados, para dentro das dinâmicas do nosso dia-a-dia?! O melhor conselho é aceitar, fazer introspecção e corrigir. Acham que é fácil? Vamos subir de nível…
Num casal, temos a ancestralidade dos dois ramos a lutarem por protagonismo. A minha e a da minha mulher (pessoas que nem conheci). E aqui é importante ambos refletirem sobre o que vêem um no outro, e que foi herdado, e com o qual não convivem bem. Ou com o qual não se sentem confortáveis por influenciar a educação dos filhos. Percebermos, o mais depressa possível, que o nosso lar está inserido neste sistema familiar, não só aquele que partilha o presente connosco, mas também aquele outro que existiu continuamente ao longo de uma linha temporal mais vasta. Esse passado rico em acontecimentos que desconhecemos na sua maioria.
Angariar forças para nos munirmos da convicção de que o nosso Lar vive no presente com muitas influências do passado. E, principalmente, reconhecermos que temos de fazer alguma coisa. Assumirmos a responsabilidade para mudar. Sabermos no fundo, que se não formos nós a mudar e a erradicar o que não queremos para nós, isso vai continuar a perpetuar-se nos nossos filhos. Temos a força para quebrar essa corrente de pegadas geracionais e evitarmos passar isso para os nossos filhos. Afinal, não serão eles a nossa mais bela criação.
Que satisfação maior haverá do que a de conseguirmos erradicar uma determinada característica, que tem andado a assolar geração após geração, e que não vai, com a nossa acção, passar para os nossos filhos? Quebrando um ciclo, não passando, em definitivo, para os nossos netos e bisnetos.
Muitas das vezes queremos causar impacto positivo nas suas vidas através da promoção de variadas iniciativas: Pagamos educação adicional. Patrocinamos eventos. Sugerimos actividades. Mas nunca nos lembramos de começar por limpar estas heranças que tanto atrapalham e que, de forma muito subliminar, nos impedem de viver em bem-estar. Em alegria e, acima de tudo, com a convicção dos que procuram a felicidade sabendo que, provavelmente, nunca a irão encontrar. Mas se um dia for melhor do que o outro, essa conquista já é um estado momentâneo de felicidade. Sermos felizes é difícil, mas sentirmo-nos felizes já é bem possível de alcançar.
O tema da felicidade é sempre difícil de discutir, explicar ou até mesmo de aceitar. Mas peço aqui ajuda à SABEDORIA: Poderei nunca chegar a Sábio, mas o simples facto de saber cada vez mais coisas bastar-me-á para que me sinta bem, alegre e interessado na vida.
Sejam atentos.
